Quanto dinheiro você precisa para alcançar a felicidade?

Loteria I 10.10.22

Por: Magno José

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Quanto dinheiro você precisa para alcançar a felicidade?
Pesquisa mostrou que maioria não sonha com o maior prêmio de loteria possível. Um prêmio de loteria de US$ 10 milhões foi a escolha mais popular

Quando eu era estudante, um amigo meu fantasiava ganhar 100 libras por dia. Parecia uma quantia incompreensivelmente grande de dinheiro; ele simplesmente não podia conceber gastar o bastante para esgotar tal riqueza. Isso foi há quase 30 anos – hoje, a fantasia equivalente seria ganhar mais de 200 libras por dia (R$ 1.150). Meu amigo, que morava com seus pais, era ao mesmo tempo ingênuo e sábio. A renda de seus sonhos é cerca de duas vezes maior que o salário médio no Reino Unido, várias vezes a média mundial e cerca de cem vezes mais do que a linha de pobreza global. De quanto alguém realmente precisa?

Ao longo dos anos, economistas vêm oferecendo várias respostas. Em seu famoso ensaio “Possibilidades econômicas para os nossos netos”, John Maynard Keynes argumentou que se a renda aumentasse oito vezes em relação aos níveis de 1930, “o problema econômico pode ser resolvido, ou pelo menos estar à vista de uma solução”. A renda aumentou tanto quanto ele previa e mesmo assim não há solução à vista. Isso pode ser porque, conforme também observou Keynes, há um desejo insaciável por necessidades que nos fazem sentir “superiores aos nossos contemporâneos”.

Há pouco mais de uma década, Daniel Kahneman e Angus Deaton, ambos vencedores do Prêmio Nobel de Economia, constataram que US$ 75 mil por ano (mais de US$ 100 mil, ou R$ 540 mil, hoje – mais ou menos o sonho de renda do meu amigo) eram suficientes para se aproveitar ao máximo as experiências do dia a dia. Mais dinheiro do que isso nada faria para reduzir a quantidade de tempo em que as pessoas se sentem ansiosas, estressadas ou tristes.

No entanto, há outra medida de felicidade: as pessoas avaliam suas vidas como satisfatórias? Por esta definição, Deaton e Kahneman não encontraram limites para os usos do dinheiro: a renda extra, em qualquer nível, estava correlacionada a níveis maiores de satisfação com a vida.

Mais recentemente, os psicólogos Paul Bain e Renata Bongiorno mudaram o foco: em vez de perguntar quanto dinheiro é suficiente, eles convidaram os participantes de uma pesquisa a vislumbrar a vida absolutamente ideal. Então, eles perguntaram quanto dinheiro seria necessário para se ter essa vida, se ele viesse na forma de um prêmio de loteria.

Esses prêmios de loteria variaram de US$ 10 mil (para aqueles cuja vida absolutamente ideal envolve trocar as cortinas e os estofados de casa), a US$ 100 bilhões (para aqueles cuja vida ideal envolve muito drama na compra do Twitter). A maioria das pessoas, porém, não preferiu o prêmio mais alto. Um prêmio de loteria de US$ 10 milhões foi a escolha mais popular.

Por quê? Uma possibilidade é que ninguém realmente tem ideia de como responder a essa pergunta da pesquisa, e US$ 10 milhões foi a resposta central, mil vezes mais que o mínimo e mil vezes menos que o máximo.

Outra é que as pessoas são tão ingênuas quanto meu amigo. Elas não percebem que após comprar uma casa melhor e um carro melhor, pagar suas dívidas e contratar um plano de pensão amplo, descobririam que poderiam realmente usar mais alguns milhões de dólares.

O escritor Malcolm Gladwell tem outra teoria. Como convidado do podcast “No Such Thing As a Fish”, Gladwell disse que o problema com US$ 100 bilhões é que suas escolhas ficam ilimitadas. Decisões simples (almoçar ou comprar um sanduíche?) se tornam impossivelmente complexas (jantar em Paris, Copenhague ou pedir para o meu chef preparar algo em meu avião?). A vida fica cognitivamente avassaladora.

Outro problema, segundo Gladwell, é que todos os desafios são removidos da vida. Você gosta de colecionar selos, chaveiros ou Beanie Babies? Esqueça! Você pode comprar todos eles, antes daquele almoço em Copenhague, se quiser.

Minha própria opinião é um pouco diferente. Não quero US$ 100 bilhões, mas a sobrecarga cognitiva não é o problema. Tenho quase certeza de que os bilionários não ficam sobrecarregados com as perspectivas para o almoço. E, embora projetos sejam importantes, eles também são escalonáveis. Se você gostava de colecionar chaveiros, mude para obras de arte: mesmo com US$ 100 bilhões para gastar, o projeto de estabelecer o maior museu privado do mundo ganhará pernas.

O verdadeiro problema é que ser um multibilionário mudará suas relações com todos os outros seres humanos. Keynes sabia que muitas vezes temos o desejo de nos sentir “superiores aos nossos contemporâneos”, mas quando a superioridade se torna extrema, você se torna alvo de sequestradores, terroristas e golpistas de todo tipo. Poucas de suas relações deverão sobreviver. Você conseguirá realmente confiar naquelas que sobreviverem?

Bain e Buongiorno, os pesquisadores que constataram que as pessoas prefeririam ter US$ 10 milhões a US$ 100 bilhões, afirmam que seu resultado oferece uma esperança ao desenvolvimento sustentado porque ele sugere que as pessoas não possuem desejos materiais ilimitados. Talvez.

Eu tiro uma conclusão diferente. As pessoas mais ricas das sociedades do passado tinham interesses materiais que não podiam satisfazer, mas que nós podemos: ar-condicionado, viagens aéreas e antibióticos. Nossos descendentes poderão ter necessidades materiais nas quais raramente pensamos porque elas estão além de nosso alcance, do teletransporte à juventude eterna.

A melhor esperança para o desenvolvimento sustentável não é que deixaremos de desejar coisas que hoje não podemos ter. É que a maior parte do que valorizamos não é uma questão de dinheiro. Meu amigo, com suas fantasias de ganhar 100 libras por dia, gostava de beber cerveja e ouvir música com o resto de nós. Era um estilo de vida festivo. Por outro lado, a vida com US$ 100 bilhões deve ser terrivelmente solitária. (Valor Econômico – Tradução de Mario Zamarian)

 

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