Inadimplência atinge 78,2 milhões de brasileiros em julho e SPA-MF desmistifica impacto das apostas

Um dos sérios problemas enfrentados pelo setor de apostas esportivas e jogos online foi a falta de informação oficial, que gerou falsas narrativas de diversos setores que se sentiram afetados pelo volume de apostas. A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda – SPA-MF divulgou o primeiro balanço semestral no dia 28 de agosto e a realidade é bem diferente dos seguimentos que insistem em eleger as bets como a grande vilã da economia.
Reportagem do JR 24h da Record News, revela que o Brasil atingiu um novo recorde de inadimplência com 78,2 milhões de pessoas com dívidas em atraso, o que representa 47,9% da população adulta do país. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (16) pela Serasa Experian, empresa especializada em informações financeiras.
A situação varia significativamente entre os estados brasileiros. No Amapá, 64% dos habitantes estão negativados, enquanto no Rio de Janeiro esse índice chega a 57%. O Distrito Federal, apesar de possuir a maior renda per capita do país, apresenta 61% de seus habitantes com nome sujo.
O impacto das apostas online no endividamento
Segundo a Mapfre Investimentos, as plataformas de apostas têm contribuído significativamente para o aumento da inadimplência no país. Dados da consultoria mostram que cerca de 57% das pessoas que apostam online não estavam inadimplentes antes de começarem a jogar.
Após mais de um semestre de funcionamento do mercado regulado de apostas de quota fixa no Brasil, com 78 empresas autorizadas e monitoradas, a SPA-MF divulgou um quadro preciso do segmento e registrou avanços na proteção de apostadores e da economia. A média de gasto por apostador ativo é de cerca de R$ 983 por semestre ou R$ 164 por mês. Além disso, a SPA registrou que 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas nos sites e aplicativos das 182 bets autorizadas pela Secretaria.
A reportagem da Record News também destaca que o Banco Central identificou que em agosto de 2024, R$ 3 bilhões do programa Bolsa Família foram utilizados em apostas. O Ministério do Desenvolvimento Social constatou que 1,8 milhão de beneficiários usaram o cartão do programa em plataformas de apostas, o que levou a Polícia Federal a iniciar investigações sobre o caso.
Embora o Governo Federal tenha considerado implementar restrições ao uso do benefício em apostas, como estabelecer limite zero para pagamentos em casas de apostas, tais medidas ainda não foram concretizadas.
Inadimplência crônica e dependência de programas sociais
A pesquisa da Serasa Experian também revelou um padrão de inadimplência crônica. Oito em cada dez pessoas negativadas em maio de 2025 já haviam enfrentado problemas de inadimplência nos 12 meses anteriores. Desse total, 63% foram negativadas novamente e 20% conseguiram limpar o nome, mas voltaram a acumular dívidas.
Quando a renda não é suficiente para cobrir as despesas, mais de 40% dos trabalhadores recorrem a novas linhas de crédito, especialmente aquelas com juros elevados, como cheque especial e cartão de crédito.
Atualmente, dez estados brasileiros possuem mais pessoas recebendo Bolsa Família do que trabalhando formalmente: Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Maranhão, Piauí, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia. O município de Itaubal, no Amapá, apresenta o caso mais extremo, onde 93% da população depende do programa e apenas 28 dos aproximadamente seis mil habitantes têm emprego formal.
Muitos brasileiros ainda consideram que os benefícios estatais são “de graça”, sem compreender as implicações econômicas dessa distribuição de recursos.
Frederico Trajano, CEO do Magalu, defendeu em entrevista ao Estadão que o emprego formal é a política mais efetiva para ampliar o acesso à renda no Brasil. “Ninguém está feliz ganhando R$ 700 reais por mês. Eu vejo que os brasileiros em geral têm uma ambição muito maior do que essa renda mínima e o varejo pode ser uma porta de entrada”, afirmou o executivo.
Com foco no potencial de geração de empregos do setor varejista, o Magalu aderiu em 15 de setembro de 2025 ao Programa Acredita No Primeiro Passo, iniciativa do governo federal voltada à inclusão socioeconômica de pessoas inscritas no Cadastro Único e beneficiárias de programas sociais.
Sobre o impacto das apostas online no consumo, Trajano observou uma desaceleração no varejo que pode refletir, em parte, os efeitos das bets.
Juros elevados agravam a situação
Os juros básicos em seu nível mais elevado em quase duas décadas, atualmente em 15% ao ano, também têm causado danos às finanças de empresas e consumidores. Em julho de 2025, o Brasil contabilizava 8 milhões de empresas com dívidas em atraso, representando um terço das companhias existentes no país, segundo dados da Serasa Experian.
A inadimplência segue em níveis recordes entre consumidores e empresas, mesmo em um cenário de desemprego na mínima histórica e de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), ainda que em desaceleração trimestre a trimestre. Ou seja, apesar das condições que poderiam favorecer a queda do calote, ele continua em alta.
Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, comenta em reportagem do Estadão que a associação que reúne as financeiras, explicou que a dificuldade dos brasileiros para pagar suas dívidas em dia está relacionada à redução da renda líquida. “A inflação, ao longo desses últimos meses, tirou poder aquisitivo do orçamento, principalmente de famílias de média e baixa renda, e há comprometimento de uma parte significativa do orçamento com as bets”, declarou o economista.
Cada brasileiro negativado tinha, em média, quatro dívidas com pagamento atrasado e cada empresa inadimplente sete compromissos não honrados. “O cenário de dívida média por CPF e CNPJ mostra o quão difícil é para o consumidor e para a empresa sair da situação de inadimplência”, diz Camila Abdelmalack, economista-chefe Serasa Experian.
Segundo as reportagens, a combinação de juros elevados, inflação e apostas esportivas tem diminuído o poder aquisitivo das famílias brasileiras, contribuindo para o quadro de inadimplência recorde no país.
Comento
Resumindo, a retórica que as apostas esportivas são responsáveis ou a vilã da inadimplência voltaram com força total em três reportagens, sendo uma do R7 e duas do Estadão. Com os dados divulgados em agosto pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda essa narrativa é mais percepção que realidade.


