FT: Como as apostas esportivas dominaram as bolsas de previsões nos EUA

As empresas que operam as chamadas bolsas de previsões vêm evoluindo rapidamente nos Estados Unidos, deixando para trás suas origens peculiares voltadas a apostas em eleições para se tornarem gigantes no âmbito esportivo, em meio ao crescimento explosivo do dinheiro apostado em resultados de jogos.
Os volumes de compra e venda de contratos de apostas esportivas no mercado de previsões da Kalshi, por exemplo, estão próximos de US$ 1 bilhão por semana, superando de longe os totais observados durante a turbulenta campanha da eleição presidencial de 2024, segundo uma análise do “Financial Times”, baseada em dados de mercado. As apostas em aberto em contratos esportivos, que estão pendentes de resultados, superam regularmente os US$ 100 milhões na Kalshi, muito mais do que em qualquer outra categoria.
Por sua vez, sua rival internacional, a Polymarket, lançará em breve operações nos EUA com foco em esportes, segundo uma fonte próxima à empresa. Já a Truth Social, rede de relacionamento social on-line do presidente dos EUA, Donald Trump, se prepara para lançar mercados de apostas esportivas e políticas sob o nome “Truth Predict”, em parceria com a plataforma de negociação Crypto.com.
“No início, isso era visto como uma novidade: eles apostavam em eleições, apostavam em qual pássaro levantaria voo primeiro do fio [de eletricidade]”, disse a deputada federal americana Dina Titus, cujo distrito inclui Las Vegas. “Mas quando migraram com bastante força para as apostas esportivas, o que contornou todas as regulamentações estaduais existentes, parece que isso simplesmente pegou.”
No início, os mercados de previsão tinham como principais interessados os cientistas políticos quantitativos. O recente salto de popularidade, impulsionado por aprovações da Comissão Reguladora de Operações a Futuro com Commodities (CFTC, na sigla em inglês), logo os transformou em negócios multibilionários.
A Kalshi vem recebendo ofertas de investimento que a avaliam em cerca de US$ 10 bilhões, segundo uma fonte próxima à empresa — o dobro do valor que lhe davam no início de outubro e bem acima dos US$ 2 bilhões de junho. A empresa recebeu investimentos das firmas de capital de risco Sequoia e Andreessen Horowitz no início de outubro.
A Polymarket está em negociações com investidores para levantar recursos levando em conta uma avaliação total da empresa entre US$ 12 bilhões e US$ 15 bilhões, segundo uma fonte. Em outubro, ela foi avaliada entre US$ 9 bilhões e US$ 10 bilhões, quando a Intercontinental Exchange, dona da Bolsa de Nova York, anunciou que investiria até US$ 2 bilhões na empresa.
“O que esses mercados de previsão perceberam é que as notícias são uma enorme classe de ativos, e com liquidez”, disse Matt Zhang, fundador e sócio da gestora de ativos digitais Hivemind Capital.
A Polymarket, a Kalshi e seus concorrentes “vêm se tornando mercados para praticamente qualquer coisa — ações, títulos, commodities, moedas, manchetes, códigos ou esportes”, acrescentou Zhang.
Em vez de oferecer probabilidades fixas ou “diferenças de pontos” no placar como uma casa de apostas tradicional, as bolsas de previsões vendem ações em resultados binários — por exemplo, se um time ganha ou perde. À medida que os participantes negociam essas ações entre si, os preços e, portanto, as probabilidades implícitas, flutuam.
Até as plataformas tradicionais de apostas vêm entrando no negócio dos mercados de previsões. A DraftKings está comprando a Railbird, uma bolsa licenciada pela CFTC, e lançará uma plataforma chamada DraftKings Predictions.
A expansão da área para os contratos esportivos ocorre em meio a um crescimento explosivo como um todo nas apostas nos EUA, que engloba desde as criptomoedas e ações “meme” até as grandes ligas esportivas. No caso dos esportes, o aumento do volume de apostas levantou dúvidas sobre a integridade dos jogos, com atletas se tornando alvo de suspensões e acusações penais.
Na semana passada, dezenas de pessoas, incluindo técnicos e jogadores atuais e antigos da NBA, a liga de basquete profissional dos EUA, foram presas em uma abrangente operação da polícia federal americana. A investigação do FBI incluiu acusações de que os apostadores se valeram de informações privilegiadas para realizar apostas. Embora essas apostas tenham sido feitas por meio de casas tradicionais, o episódio colocou em evidência os riscos da rápida expansão do jogo legalizado, que veio na esteira de uma decisão favorável da Suprema Corte americana em 2018.
No início deste ano, a NBA, a liga de futebol americano NFL e a de beisebol MLB enviaram cartas à CFTC manifestando a preocupação de que o órgão não tivesse pessoal ou conhecimento suficientes para monitorar esses riscos, inclusive a possibilidade de jogadores apostarem em seus próprios jogos.
Nem todas as ligas esportivas compartilham dessas preocupações. Na semana passada, a Liga Nacional de Hóquei (NHL) tornou-se a primeira associação esportiva a assinar um acordo de licenciamento com a Kalshi e a Polymarket, concedendo-lhes acesso a dados e marcas registradas da liga.
O acordo é “um testemunho da integridade, segurança e confiança com os consumidores que a Kalshi passou anos construindo durante nosso tempo como pioneira dessa classe de ativo”, disse o executivo-chefe da Kalshi, Tarek Mansour, em comunicado. “Agora, deve ficar claro — os mercados de previsão vieram para ficar.”
Ainda assim, a Kalshi também está envolvida em várias ações judiciais que ameaçam suas operações. Vários Estados e grupos indígenas argumentam que os mercados da Kalshi representam apostas esportivas ilegais e não regulamentadas, que não estariam sob jurisdição da CFTC e deveriam ser supervisionadas pelos Estados.
Embora tenha vencido ações em Nevada e Nova Jersey, a Kalshi perdeu um processo em Maryland e recebeu ordens de “cessar e desistir” de outros Estados, como o de Nova York, no qual entrou com uma ação para obter liminar na última segunda-feira (27).
“Os Estados podem não gostar de quem nos regula, mas nós somos regulados”, disse Sara Slane, chefe de desenvolvimento empresarial da Kalshi. Slane disse que a empresa continuará “lutando Estado a Estado”.
Embora os tribunais possam restringir sua capacidade de operar em certas regiões, a Kalshi foi autorizada a continuar operando em Maryland até o julgamento do recurso.
A Crypto.com, no entanto, perdeu um processo em Nevada sobre contratos esportivos registrados em seu mercado de previsões. O tribunal decidiu que esses mercados não se qualificavam como swaps regulamentados pela CFTC. Desde então, Nevada obrigou a Crypto.com a encerrar suas operações no Estado.
“Esse é um exemplo do tipo de derrotas isoladas que podem se acumular”, disse Daniel Wallach, advogado especializado em legislação de jogos de azar.
À medida que essas plataformas continuam recebendo avaliações multibilionárias, elas vêm fortalecendo laços com o governo para proteger seus interesses. No início deste ano, a Kalshi contratou Donald Trump Jr. como assessor estratégico; ele também é investidor na Polymarket e membro de seu conselho consultivo.
“Eu esperaria que exista um plano B e um plano C […] enquanto houver um governo que esteja ajudando esses mercados de apostas esportivas, e tendo em vista o papel da família Trump por trás de tudo isso.” (Com informação do VALOR)


