Casas de apostas encerram patrocínios no futebol e diversificam investimentos

Quatro empresas de apostas esportivas alteraram a estratégia de investimentos em patrocínios no Brasil. As companhias deixam contratos com clubes de futebol e direcionam recursos para outras modalidades esportivas. A mudança foi confirmada por executivos do setor durante o evento Bis Sigma, principal encontro do segmento de iGaming na América do Sul.
As operadoras apontam dois fatores para a decisão. A elevação da carga tributária sobre o setor e o aumento nos valores dos contratos de patrocínio tornaram inviável a manutenção dos investimentos no futebol. As informações foram inicialmente divulgadas pelo Sport Insider do Estadão, que acompanhou de perto as declarações dos executivos durante o evento.
Mudança encerra disputa por espaços nos uniformes
O mercado de apostas esportivas no Brasil passa por reorganização nos investimentos destinados a patrocínios. Executivos de diferentes empresas identificaram um movimento de retirada de operadoras de médio e pequeno porte do ambiente futebolístico.
A alteração põe fim a um período caracterizado como “corrida do ouro”. As casas de apostas competiam intensamente por cada espaço disponível nos uniformes dos clubes. Atualmente, essas marcas transferem recursos para outros segmentos esportivos.
Empresas com maior capacidade financeira, como a Betano, preservam investimentos no Flamengo e na CBF. As operadoras com menor poder aquisitivo iniciam a diversificação de seus portfólios de patrocínio.
Tributação elevada pressiona operadoras
As companhias atribuem a alteração de estratégia ao ajuste tributário implementado na regulamentação do segmento. As operadoras reconhecem a necessidade das mudanças para assegurar segurança jurídica. Declaram que as alterações geraram um peso financeiro que impossibilita grandes investimentos em patrocínios futebolísticos.
“As empresas do setor estão reagindo com bastante preocupação ao aumento da carga tributária. Na prática, isso nos obriga a rever investimentos, especialmente no esporte, e também impacta a capacidade de ofertar, por exemplo, odds competitivas ao consumidor”, afirma Marco Tulio Oliveira, CEO da Ana Gaming, holding que opera as marcas 7K Bet, Cassino Bet e Vera Bet.
A legislação elevou a tributação sobre as casas de apostas através de dois mecanismos. O tributo incidente sobre o lucro bruto das companhias terá elevação gradual até 2028. Houve redução de 10% nos descontos utilizados pelas operadoras para diminuir o pagamento de tributos federais.
Os recursos arrecadados com a tributação adicional são destinados à saúde pública e ao pagamento de aposentadorias. A expectativa governamental é de arrecadar bilhões de reais por meio das apostas. Os valores auxiliarão no cumprimento de metas fiscais.
O segmento de apostas esportivas paga impostos acima de 30% do faturamento das companhias. Diante da redução da margem de lucro e dos valores dos contratos de patrocínio em patamares elevados, o mercado encerra uma fase de expansão acelerada. O cenário torna o território cada vez mais restrito às empresas de grande porte.
Setor teme restrições à publicidade
O segmento teme que a combinação de impostos elevados com possíveis restrições à publicidade produza efeitos indesejados. Um texto que visa alterar a Lei das Apostas Esportivas avançou no Senado. A proposta barra anúncios de apostas de quota fixa em plataformas digitais e uniformes esportivos. Impede palpites sobre eleições.
As casas de apostas avaliam que as empresas licenciadas podem perder competitividade para plataformas clandestinas que não seguem a legislação. As operadoras licenciadas projetam um cenário pessimista com a migração massiva do público para o mercado paralelo.
Nesse ambiente, não há proteção ao consumidor nem arrecadação de tributos. O mercado ilegal torna o ambiente mais perigoso e menos lucrativo para o Estado.
A visão das empresas regulamentadas é de que as plataformas clandestinas ganharão vantagem competitiva ao ignorar a legislação. As operadoras licenciadas enfrentarão custos tributários elevados e limitações para divulgar seus serviços.
Lula critica “jogatina desenfreada”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou preocupação com o impacto social e econômico da “jogatina desenfreada” nas famílias brasileiras na quarta-feira (8). O presidente afirmou que, se dependesse exclusivamente dele, “fecharia as bets“. Tratou o tema como questão de saúde pública e segurança financeira.
Fontes do setor ouvidas pela reportagem interpretam que o tom crítico de Lula tem motivação política. Em ano eleitoral, o endurecimento do discurso funcionaria como estratégia popular.
Essas mesmas fontes consideram que uma proibição das apostas é inviável. A expectativa de arrecadação bilionária ajudará o governo a cumprir metas fiscais. Nem o Executivo nem o Congresso estariam dispostos a abrir mão dessas receitas.
“Apesar da falta de divulgação pública, o setor das apostas esportivas já paga vultuosos impostos acima de 30% do faturamento das empresas. Além disso, o segmento contribui para a sociedade com a geração de empregos e o investimento de altas quantias no esporte nacional”, afirma Leonardo Henrique Roscoe Bessa, sócio do Betlaw, escritório de advocacia especializado em bets, e consultor do Conselho Federal da OAB.
“Neste momento, o principal ponto de atenção do governo brasileiro e também dos operadores deve ser o combate do mercado ilegal, que apresenta incontáveis malefícios para todo ecossistema de betting e, especialmente, aos usuários”, conclui o advogado.


