‘O brasileiro aposta porque o Brasil joga contra ele’, Alexandre Borges

Levantamento recente indica que aproximadamente 30% dos homens brasileiros realizaram apostas online no último mês. O fenômeno das apostas digitais se expandiu significativamente no país, atingindo principalmente a população masculina adulta em idade economicamente ativa.
O colunista Alexandre Borges, do UOL, publicou nesta quarta-feira (6/5) análise sobre a disseminação das apostas digitais no país, trazendo uma perspectiva que contraria a narrativa predominante que tenta demonizar as plataformas de apostas esportivas como responsáveis pelo aumento do endividamento da população brasileira. Borges tem mais de 20 anos de experiência em comunicação e marketing, com uma década dedicada à análise política.
O levantamento revela que a prática de apostas online se expandiu entre os brasileiros. Na faixa etária de 25 a 34 anos, 34% dos entrevistados confirmam que um familiar apostou recentemente. Outros 31% suspeitam que alguém em casa realiza apostas de forma oculta.
Borges avalia que a realidade pode ser mais crítica do que os números indicam. O fenômeno atinge principalmente homens brasileiros adultos na faixa de 25 a 34 anos. Parcela significativa dos entrevistados relata que familiares apostam, inclusive de forma escondida.
Interpretação sobre o comportamento do apostador
O colunista rejeita a interpretação de que o brasileiro apostador é vítima ou incapaz de tomar decisões próprias. Segundo ele, essa leitura serve como justificativa para mais dirigismo e tutela estatal na vida do cidadão.
Em seu artigo oportuno para o momento atual, Borges argumenta que o apostador brasileiro é um sobrevivente que enxerga um país onde as vias de mobilidade social pelo trabalho, empreendedorismo e mérito estão travadas. Quem tenta empreender enfrenta impostos elevados, falta de produtividade e burocracia complexa.
“O brasileiro ainda tem esperança, mas ela não passa pelo governo”, afirma o colunista.
Contexto histórico e mecanismos neurológicos
Borges recorre ao pensador Sérgio Buarque de Holanda, que há quase um século refletiu sobre o tipo humano formado pela colonização portuguesa no Brasil: o aventureiro, aquele que prefere colher o fruto a plantar a árvore. O colunista argumenta que o aventureiro representa uma resposta racional a um sistema no qual a árvore quase nunca dá fruto.
As bets, assim como os cassinos, exploram mecanismos neurológicos conhecidos. O cérebro humano libera dopamina, o neurotransmissor do prazer, não quando se conquista algo, mas diante da possibilidade de ganhar. Quanto mais incerto o resultado, mais o sistema neural se ativa.
Os jogos são desenvolvidos por especialistas para oferecer pequenas vitórias periodicamente, mantendo o apostador com esperança. Esse mecanismo não está relacionado à inteligência ou cultura. Dostoiévski foi dependente da roleta.
Quanto mais o indivíduo se sente pressionado, perdido ou desesperançoso, mais o cérebro demanda doses crescentes de dopamina. Sempre haverá alguém vendendo esse tipo de escapismo e possibilidade de ganho rápido com emoção, enquanto houver gente comprando.
Análise sobre programas assistenciais
Segundo Borges, o governo e parte da classe política não compreendem que o brasileiro aceita programa assistencial e não rejeita pequenos benefícios, mas sabe que isso não muda nada de estrutural em sua vida.
Programas de transferência de renda não pagam a faculdade desejada pelo filho, não dão celular novo, não abrem negócio, não compram casa própria dos sonhos. O brasileiro quer ascender socialmente e mudar de patamar de vida.
O colunista identifica um problema de gestão de expectativas entre o eleitor e quem está no poder. Quando isso acontece, o eleitor quer mudança.
Borges afirma que a esquerda nunca entendeu essa dinâmica porque só aceita a redenção do povo com engenharia social ideológica e o Estado como protagonista, redentor, pai dos pobres e herói.
O brasileiro acessa o TikTok e vê pastores, influenciadores e políticos populistas dizendo que um outro mundo é possível. Ele escuta porque sabe que o sistema é desenhado para ele nascer e morrer no mesmo lugar.
A população busca essas mensagens por reconhecer que o sistema vigente mantém as pessoas na mesma posição social do nascimento à morte. A percepção é de que as respostas oferecidas pela elite aos problemas da população, baseadas em discurso identitário que divide a sociedade e promove confrontos generalizados, não apresentam soluções efetivas.
Posição da Igreja Católica
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) mantém alertas contra jogos de azar há mais de 40 anos, período em que o país debatia apenas jogo do bicho e bingo. A doutrina católica sustenta que o jogo diminui a valorização do trabalho honesto, altera a hierarquia de valores e prejudica a estrutura familiar.
O Catecismo estabelece no parágrafo 2413 que o jogo se torna inaceitável em duas situações: quando cria dependência e quando retira o sustento da família. A prática do jogo, por si só, não constitui pecado. O problema moral surge quando o vício compromete a alimentação dos filhos.
Regulamentação e renegociação de dívidas
O governo federal regulamentou as apostas esportivas em 2023. Agora, busca apresentar-se como solucionador de uma questão que contribuiu para criar. O programa Desenrola 2.0 estabelece como condição para renegociação de dívidas o bloqueio das apostas pelo período de um ano.
O fenômeno das apostas online se intensificou após a regulamentação das bets pelo governo federal em 2023. O fenômeno ocorre em todo o território brasileiro, através de plataformas digitais de apostas online.
Borges conclui que a bet funciona como uma distração e uma aposta enquanto a mudança real não está no radar. No desespero, o brasileiro tenta uma jogada de sorte contra a banca. A banca é o Brasil.
A dependência da população brasileira em relação ao vício nas apostas esportivas representa um problema concreto que demanda enfrentamento sem demagogia ou medidas autoritárias.
A solução definitiva requer que o apostador compreenda que obterá ganhos superiores ao investir na própria educação, criatividade e trabalho para ascender socialmente e assegurar futuro melhor para os filhos. Essa trajetória, no Brasil, nem sempre se concretiza.
Quando o eleitor constata que sua vida não progride, ele aumenta a aposta. Nenhum político consegue alterar essa dinâmica.


