Bilionários das apostas levam rivalidade ao FBI e ao Congresso

A rivalidade entre Shayne Coplan, fundador da Polymarket, e Tarek Mansour, CEO da Kalshi, extrapolou a disputa comercial pelo mercado de previsões e chegou ao FBI, aos tribunais federais e aos corredores do Congresso americano. A briga entre as duas startups envolve denúncias a promotores, espionagem suspeita, manobras regulatórias e ataques coordenados nas redes sociais.
A disputa foi detalhada pelo The New York Times com base em entrevistas com mais de 40 pessoas dos círculos das duas empresas. Coplan tem 28 anos; Mansour, 30. Ambos são bilionários recentes que apostam nos mercados de previsão como o próximo grande fenômeno das finanças e da mídia.
Denúncias ao FBI e suspeitas mútuas
Em novembro de 2024, agentes do FBI invadiram o apartamento de Coplan em Nova York com um aríete. A operação investigava possíveis apostas ilegais na Polymarket, que opera sua plataforma principal fora dos Estados Unidos sem licença americana. Nos meses anteriores, advogados da Kalshi haviam se reunido com promotores federais em Manhattan para levantar preocupações sobre o funcionamento do site rival, segundo quatro pessoas com conhecimento das discussões. Os advogados teriam explicado como a plataforma operava e destacado que usuários americanos conseguiam acessá-la, mesmo que isso fosse proibido.
Nos bastidores, Coplan e assessores levantaram suspeitas de que um investigador particular contratado pela Kalshi ou por aliados da empresa teria monitorado seu apartamento, presenciado a chegada do FBI e repassado a informação à imprensa. Elisabeth Diana, porta-voz da Kalshi, negou qualquer envolvimento. “Isso é uma completa mentira”, afirmou. “Um nível de paranoia verdadeiramente bizarro.”
A Kalshi ainda agiu de outra forma após a operação: Keaton Inglis, funcionário da empresa, entrou em contato com o ex-jogador da NFL Antonio Brown para que ele publicasse uma mensagem no X chamando Coplan de “culpado”, segundo capturas de tela divulgadas pela publicação de tecnologia Pirate Wires. Brown se desculpou e disse estar “trabalhando com outros assuntos com Kalshi” quando publicou o post. Mansour também lamentou o episódio. “Alguns membros da nossa equipe ficaram bastante exaltados”, declarou em podcast de dezembro de 2024.
Histórico da rivalidade regulatória
A hostilidade entre as duas empresas precede a operação do FBI. A Kalshi foi fundada em 2018 por Mansour, ex-operador da Citadel criado no Líbano, e por Luana Lopes Lara, colega do MIT que dirige as operações da empresa. Antes de lançar apostas em 2021, a Kalshi pediu licença à Commodity Futures Trading Commission (CFTC), agência reguladora americana. Durante essas negociações iniciais, a empresa já alertava a CFTC sobre a Polymarket, segundo três pessoas familiarizadas com o processo. Jeff Bandman, estrategista da Kalshi, teria instado a agência a investigar a concorrente por operar sem autorização.
A pressão surtiu efeito em janeiro de 2022; a CFTC multou a Polymarket em US$ 1,4 milhão e a empresa concordou em parar de aceitar apostas de usuários americanos. Mesmo assim, a Polymarket cresceu rapidamente. Usuários dos EUA acessavam o site por meio de VPNs, e as probabilidades da plataforma tornaram-se referência no debate público antes da eleição presidencial americana de 2024, quando o site apontava vantagem mais clara de Donald Trump do que as pesquisas tradicionais.
A Kalshi, por sua vez, travou uma batalha judicial contra a CFTC durante o governo Biden, que proibira apostas em eleições. A empresa processou a agência em 2023 e venceu pouco antes da eleição, abrindo caminho para que mercados de previsão licenciados voltassem a operar legalmente nos Estados Unidos.
A Polymarket fundada por Coplan, nova-iorquino que abandonou a Universidade de Nova York para tocar o negócio inicialmente de um “escritório improvisado no banheiro” de seu apartamento, seguiu trajetória oposta. Coplan se recusou a aguardar aprovação regulatória. “Eles não se preocuparam com a regulamentação. Eles simplesmente lançaram. Não se importaram”, declarou Mansour em podcast de junho.
Disputas por investidores e licenças
A rivalidade avançou para o campo dos negócios institucionais. Em julho de 2025, Coplan jantou com Jeffrey Sprecher, fundador da Intercontinental Exchange, gigante avaliado em US$ 80 bilhões que controla a Bolsa de Valores de Nova York. Antes do anúncio de qualquer acordo, Mansour e Alex Immerman, da firma de capital de risco Andreessen Horowitz, conversaram com executivos da Intercontinental Exchange em um movimento que três fontes descreveram como tentativa de dissuadir a empresa de fechar negócio com a Polymarket. Diana afirmou que a Kalshi “não estava interessada no acordo”.
Sprecher optou pela Polymarket. Em outubro, anunciou investimento de até US$ 2 bilhões na plataforma de Coplan. No mesmo período, o Distrito Sul de Nova York encerrou a investigação contra Coplan, e a Polymarket recebeu também aporte da 1789 Capital, empresa de capital de risco parcialmente controlada por Donald Trump Jr.
Para operar legalmente nos EUA, Coplan precisava adquirir uma empresa já licenciada. A Kalshi novamente interferiu; Mansour alertou funcionários da CFTC sobre um pedido pendente da Railbird, operadora que circulava como possível alvo de Coplan, segundo cinco pessoas familiarizadas com o assunto. Os alertas foram ignorados. A CFTC aprovou o pedido da Railbird em junho de 2025. Coplan comprou a QCX, que também havia recebido licença americana na mesma época, por US$ 112 milhões, e lançou um aplicativo menor nos EUA. Ao anunciar a aquisição em julho, Coplan publicou uma foto da bandeira americana com a mensagem; “Esperei muito tempo para dizer isso. O Polymarket está voltando para casa.”
Mercado bilionário e escrutínio crescente
Nos primeiros seis meses de 2026, Kalshi e Polymarket movimentaram juntas mais de US$ 150 bilhões em transações, alta de 1.200% em relação ao período anterior. A Kalshi saiu na frente; avaliada em US$ 22 bilhões após rodada de financiamento em maio, a empresa vale US$ 7 bilhões a mais que a Polymarket. Em junho de 2026, a Kalshi processou mais de US$ 33 bilhões em transações, o dobro do volume da Polymarket, de acordo com dados da Block, provedora de informações de mercado.
O crescimento do setor atraiu atenção regulatória e policial. Em abril, um soldado das Forças Especiais do Exército americano foi acusado de usar informações confidenciais para apostar na Polymarket sobre a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro; ele teria lucrado mais de US$ 400 mil, segundo a acusação. A Polymarket informou que proíbe o uso de VPNs. A plataforma também está sob investigação da CFTC, e tanto ela quanto a Kalshi enfrentam ações judiciais de procuradores-gerais estaduais que alegam que as apostas esportivas das empresas violam leis de jogos de azar.
As duas empresas divergem nas abordagens para conter o uso de informações privilegiadas. A Kalshi exige dados pessoais detalhados dos usuários, incluindo em alguns casos o vínculo empregatício. A Polymarket cria registros públicos das negociações para facilitar a identificação de irregularidades, mas seu site principal ainda não obriga os usuários a revelar identidade ou empregador.
Nos bastidores, os conflitos se multiplicam. Mansour liga com frequência para o diretor jurídico da Polymarket para expressar indignação com as práticas da rival, segundo duas fontes. Influenciadores pagos pela Polymarket amplificaram rumores de que uma parceria da Kalshi com a xAI, iniciativa de inteligência artificial de Elon Musk, havia fracassado. Quando a Polymarket contratou Max Crowley, ex-Uber, para o cargo de vice-presidente de parcerias, ele pediu demissão em menos de dois meses e migrou para a Kalshi, irritando Coplan, que chegou a enviar ameaças legais sem levar o caso ao tribunal.
A postura de cada empresa resume a divergência central. A Kalshi se apresenta como operação regulamentada que esperou anos pela aprovação para atuar nos EUA; a Polymarket construiu seu domínio operando offshore e apostando na popularidade para forçar a mão das autoridades. “É só uma questão de animosidade”, afirmou Dustin Gouker, que escreve uma newsletter sobre o setor. “Tornou-se algo pessoal.”
Quando a Kalshi perdeu uma das batalhas judiciais estaduais, a Polymarket lançou um mercado de apostas convidando usuários a prever quanto tempo a rival levaria para encerrar suas operações esportivas em Massachusetts.


