Brasileiros desconfiam de influenciadores de bets: 51% têm visão negativa

Pesquisa inédita da More in Common, em parceria com o Ipsos-Ipec, aponta que 51% dos brasileiros têm visão negativa de influenciadores que fazem propaganda de bets. Apenas 9% avaliam essas pessoas de forma positiva, e 19% mantêm posição neutra. Os dados foram divulgados pela reportagem da BBC News Brasil nesta quarta-feira (30/7).
A pesquisa mapeia um cenário de desconfiança crescente em um setor que movimenta bilhões em publicidade. Em relatório de 2024, o Itaú estimou os gastos do setor de apostas com marketing entre R$ 5,8 bilhões e R$ 8,8 bilhões. Para 2026, a tendência é de expansão: o patrocínio master da Série A do Campeonato Brasileiro cresceu 125% em dois anos, e o setor passou a ocupar a terceira posição entre os maiores anunciantes da TV, segundo avaliação de Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common no Brasil.
Entre os brasileiros com visão negativa sobre o tema, 22% classificam esses influenciadores como “irresponsáveis”, “egoístas”, “manipuladores” e sem ética. Outros 17% os descrevem como más influências que exploram as pessoas. Já 8% entendem que agem exclusivamente em benefício próprio, e 4% afirmam que passaram a deixar de seguir essas personalidades ou defendem punições e a proibição das propagandas.

Impacto na confiança e perfil dos mais críticos
Quando questionados sobre o efeito da publicidade de bets na confiança em famosos, 40% dos entrevistados disseram não confiar ou passar a confiar menos em influenciadores, artistas e atletas que fazem esse tipo de anúncio. A maioria, 53%, afirma que sua confiança não se altera; 4% dizem confiar mais, e outros 4% não souberam ou não responderam.
A desconfiança é mais acentuada entre os segmentos de maior renda e escolaridade: 48% dos entrevistados com ensino superior e 46% dos que ganham acima de cinco salários mínimos declararam não confiar ou passar a confiar menos nessas personalidades.
Para Ortellado, os dados revelam um custo pouco calculado por quem aceita esse tipo de contrato. “A receita imediata da publicidade de apostas é alta, mas a erosão de confiança é elevada e se concentra nas faixas de maior renda e escolaridade — aquelas de maior valor publicitário”, afirmou o pesquisador. “O influenciador troca, portanto, um ganho certo hoje, por um desgaste de reputação no público que sustenta sua própria capacidade de monetização no futuro”, completou Ortellado, que também é professor no curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP).
Setor regulado x mercado ilegal
Questionado sobre os resultados, o presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Plínio Lemos Jorge, declarou que é preciso distinguir influenciadores que promovem operadores autorizados pelo Ministério da Fazenda daqueles que divulgam plataformas ilegais. “Isso faz muita diferença na percepção do público. O mercado ilegal não observa as normas de publicidade estabelecidas pelo governo federal e pelo Conar”, disse. Lemos Jorge acrescentou que esse segmento ilegal “promove campanhas direcionadas a menores de idade, utiliza promessas enganosas de ganhos fáceis e desrespeita regras básicas de proteção ao consumidor”. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) não respondeu ao pedido de comentário até a publicação da reportagem.

Pressão regulatória avança no país
A pesquisa ganha contexto em meio a um ciclo de endurecimento regulatório. Em julho, após polêmica em torno dos anúncios de bets durante a Copa do Mundo, o governo federal publicou novas regras para a publicidade do setor. Toda propaganda de empresas autorizadas passou a exigir mensagens de advertência nos moldes das usadas em anúncios de cigarros, bebidas alcoólicas e medicamentos.
As novas normas também vedam a apresentação das apostas como forma de investimento ou ganho fácil, a criação de senso de urgência para estimular apostas, e o uso de comentaristas, especialistas ou influenciadores para induzir o público a apostar.
Em paralelo, ao menos cinco capitais e dois estados adotaram medidas para restringir a publicidade de casas de apostas. Belo Horizonte, o município do Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul já têm legislações aprovadas; São Paulo (capital), Recife, Florianópolis e o Paraná têm projetos de lei aguardando aprovação, segundo levantamento da Folha de S.Paulo.
Para Ortellado, as mudanças são necessárias, mas insuficientes. “Há modelos internacionais bem mais restritivos, incluindo restrições de horário e de veiculação em ambiente esportivo”, afirmou. O pesquisador destacou ainda que a rejeição às bets é um dos poucos temas que não divide a população por viés partidário. “Seja de esquerda ou de direita, todos os eleitores odeiam bets”, observou. “Todos acham que isso causa vício e endivida as famílias, não varia quase nada se a pessoa vota no Lula, ou vota no Bolsonaro.” Para ele, esse consenso cria espaço político concreto para um aperto ainda maior nas regras de publicidade do setor.
Pesquisa More in Common/Ipsos-Ipec – Bets e Influencers


