Lula intensifica ofensiva contra bets e tecnologia como estratégia eleitoral

Com a campanha eleitoral prestes a começar oficialmente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a intensificar declarações contra as bets e as grandes empresas de tecnologia. A estratégia, segundo aliados ouvidos por Andrea Jubé no Valor, é transformar o enfrentamento ao jogo online em ativo eleitoral, a partir da percepção de que o tema tem apelo junto à população de baixa renda.
O raciocínio se apoia em dados. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada no fim de abril apontou que 70% dos brasileiros são favoráveis à proibição das apostas online. Estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) estima que 10,9 milhões de brasileiros apresentam comportamento de risco com jogos, enquanto outros 1,4 milhão já sofrem transtornos do jogo.
A ideia da MP e o precedente de Dutra
Parte dos conselheiros de Lula chegou a defender que ele edite uma medida provisória (MP) proibindo as bets ainda durante a campanha, inspirando-se no decreto-lei com que o general Eurico Gaspar Dutra baniu cassinos e jogos de azar no Brasil em 1946. A hipótese, porém, ainda é considerada remota. Além de enfrentar resistência no Congresso em período eleitoral, Lula é conhecido pela cautela nas decisões.
Na quinta-feira (13/8), o presidente voltou a subir o tom. “A desgraça do jogo é que você passa a vida inteira jogando para pagar o prejuízo do primeiro jogo”, afirmou. Em abril, ele havia sido mais direto ao afirmar que o governo debatia a proibição das empresas de apostas. “Se as bets causam o mal que a gente acha que causa, por que a gente não acaba com as bets?”, questionou, em entrevista ao ICL Notícias. “Hoje o cassino está dentro da sua casa”, afirmou, ressalvando que uma medida dessa envergadura dependia do Congresso.
Restrições já em vigor
No mesmo dia (13/8), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, divulgou que cerca de 5 milhões de contas estão bloqueadas nas plataformas de apostas online. Desse total, 800 mil foram impedidas de apostar por terem aderido ao Novo Desenrola, programa que veda o acesso às bets por um ano. Outros 1,2 milhão se excluíram voluntariamente das plataformas, e 3 milhões são beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família, que foram proibidos de realizar apostas.
Semanas antes, em agosto, Lula havia sancionado projeto que destinou até 3% da arrecadação com apostas esportivas para a Polícia Federal, medida aprovada por MP. No início de abril (8/4), ele já havia afirmado abertamente que o governo discutia o fechamento das empresas do setor.
Ataques ao mercado e ajuste fiscal
O segundo eixo da estratégia eleitoral envolve calibrar as críticas ao mercado financeiro. Aliados avaliam que a população não tem simpatia pelos bancos, o que torna os ataques à “Faria Lima” politicamente rentáveis. Ao mesmo tempo, caberá à equipe econômica, em especial a Durigan, manter a interlocução com investidores estrangeiros, num momento em que a saída de capital derrubou a bolsa brasileira.
Um sinal concreto nessa direção foi o ajuste fiscal incluído no projeto sobre combustíveis, aprovado na quarta-feira (12/8). O texto criou gatilhos para conter o crescimento de despesas vinculadas. A economia projetada para 2027 é de R$ 10 bilhões.
O risco da “taxa das blusinhas”
O cenário eleitoral tem um ponto de vulnerabilidade relevante para o governo. Pesquisa AtlasIntel indica que 35,3% dos entrevistados responsabilizam o governo Lula pela autorização do jogo online, embora a permissão para operação das bets tenha sido dada na gestão Michel Temer, em 2018. A lei aprovada naquele ano exigia regulamentação, que não veio no governo Jair Bolsonaro, criando condições para a proliferação de empresas ilegais. O governo Lula acabou regulamentando a atividade, passando a taxar as plataformas e a combater as que operavam na ilegalidade.
Outro flanco aberto é a chamada “taxa das blusinhas”. No segundo ano de mandato, Lula instituiu a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, após pressão de varejistas. Somente em maio de 2026, ele assinou MP extinguindo a taxa. O Congresso, no entanto, criou obstáculos à instalação da comissão para analisar a proposta, e a votação ficou para setembro, quando a MP perde a validade. A eventual volta da cobrança a um mês do primeiro turno representa o pior cenário possível para o presidente.


