Mulheres apostam para pagar contas e são as mais impactadas pelas bets no Brasil

Mais da metade das brasileiras já foi impactada pelo avanço das bets, seja como apostadoras, seja como vítimas indiretas do vício de parceiros ou familiares. Um estudo divulgado neste mês de agosto revela que 42% dessas mulheres apostam ou já apostaram, enquanto outras 12% que nunca jogaram relatam arcar com as consequências do problema alheio.
Os dados são do levantamento “Mulheres & Bets”, produzido pela Clarice, estúdio de pesquisa sobre mulheres e poder, em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, e foram reportados pela Folha de S.Paulo. A pesquisa combinou 20 grupos qualitativos com 60 participantes e uma enquete nacional com 2.008 entrevistados, realizada em julho de 2026.
O recorte que mais chama atenção é o das mães; mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que as sem filhos. Para Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice e uma das porta-vozes do estudo, a motivação central não é entretenimento. “As mulheres que apostam, as mães que apostam, não apostam para serem a Virgínia, como as pessoas ficam achando”, diz, em referência à influenciadora conhecida pelos contratos milionários com plataformas de apostas. “Elas apostam para pagar o bolo do aniversário, para ir comer num japonês, para pedir um delivery, para comprar material escolar. É como se fosse a terceira renda.”
Pressão financeira como motor
A pesquisadora vincula a disseminação das bets entre mães ao momento em que as plataformas ganharam escala no país. O jogo de azar online foi legalizado no Brasil em 2018, cresceu durante a pandemia de Covid e capturou mais de R$ 10 bilhões das famílias brasileiras pela primeira vez em 2021, segundo a consultoria H2 Gambling Capital. Nesse mesmo período, mulheres enfrentavam perda de renda, emprego e estabilidade. “As bets chegaram muito nesse momento, quando a pandemia começou, e ofereceram esse lugar muito fácil de ganho rápido de recurso, como um complemento de renda”, afirma Della Costa.
Entre 2019 e 2025, sem regras de publicidade nem mecanismos de prevenção ao vício, influenciadores promoviam caça-níqueis nas redes sociais como fonte de renda extra, frequentemente acompanhados de falsas estratégias vencedoras. A mídia tradicional evitava o setor por risco reputacional, o que tornou as redes o canal dominante de propaganda das bets.
O psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo ambulatório de dependências de comportamentos do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp, conecta o fenômeno a uma mudança no papel social feminino. “À medida que as mulheres também entram nesse perfil de ser a pessoa que tem que prover alguma coisa, conseguir algum dinheiro, elas também vão correr atrás do jogo com essa função”, afirma. Ele ressalva, porém, que nem todo uso se torna problemático. “O uso está crescendo, o uso problemático também está crescendo, mas nem todo uso é um problema”, pondera.
Histórias de perdas
A catarinense Bianca Araújo, 38 anos, conheceu as apostas no fim da pandemia por meio do ex-marido e das redes sociais. Entre 2021 e 2023, perdeu casamento, economias e moradia. “O tamanho do prejuízo foi mais de R$ 500 mil em dinheiro. Eu peguei empréstimo tanto no meu CNPJ como no meu CPF. A gente tinha uma caminhonete, uma Ford Ranger, e a vendeu por R$ 210 mil. Em uma semana, a gente gastou R$ 150 mil. É uma doença mesmo, uma loucura”, relata.
Araújo começou com palpites esportivos, acreditou que poderia transformar o jogo em renda e passou 2021 alternando ganhos e perdas enquanto mantinha um negócio de venda de cursos. Em fins de 2022, as perdas tomaram conta. Depois de uma recaída em meados de 2023, quando faltou dinheiro para o aluguel, decidiu parar. Mantém-se abstêmia há três anos. “Eu tive muitas crises de pânico, sentia dor no meu corpo. Acelerava meu coração de preocupação”, lembra.
Outra família afetada é a da assistente administrativa Viviane, 49 anos, de São Paulo. A filha dela, de 23 anos, começou a apostar há cerca de cinco anos após perder o emprego, incentivada por colegas. A situação piorou em 2025, quando a jovem tomou dinheiro de um agiota conhecido pela internet. Sem conseguir quitar a dívida, o homem obteve os dados e o endereço da família e passou a fazer cobranças. “Eu entrei em desespero. Tive que falar com o meu chefe na hora, peguei o dinheiro e dei para pagar o agiota”, conta Viviane.
A saída veio em 2026, quando o irmão da jovem descobriu ser possível bloquear o CPF para impedir o acesso às plataformas e orientou a irmã a fazer o mesmo. “Foi quando a gente conseguiu começar a ter paz, daí ela parou definitivo”, afirma Viviane. A filha está há cerca de cinco ou seis meses sem jogar, mas a família ainda paga dívidas remanescentes de aproximadamente R$ 5.000.
Cassinos digitais e restrições
O relatório da Clarice aponta que mães relatam menos vergonha ao apostar do que mulheres sem filhos, mas o custo emocional se eleva quando o problema se agrava. “Elas têm mais vergonha porque estão botando em risco o papel destinado a elas. Elas se sentem falhando, inclusive, como mães”, afirma Della Costa.
O estudo recomenda que as restrições regulatórias priorizem os jogos de cassino digital antes das apostas esportivas. Essa modalidade é a mais utilizada pelas mulheres e, segundo a pesquisadora, a que mais favorece o desenvolvimento do vício por causa do retorno imediato. “As apostas esportivas têm um processo mais longo. Você faz a aposta e espera o jogo acontecer. O cassino online é muito mais rápido, muito mais acessível, e é uma porta de entrada muito mais rápida para o vício”, explica Della Costa.
Em nota, associações do setor, como a ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), argumentam que os sites autorizados pelo governo dispõem de mecanismos para bloquear o acesso de dependentes e enfrentam concorrência desequilibrada de bets ilegais, que não pagam a licença de R$ 30 milhões nem assumem custos regulatórios.
Para Della Costa, medidas de restrição já adotadas, como o intervalo obrigatório entre apostas, reduzem o problema sem eliminá-lo, porque não atacam sua causa. “Não é sobre estar num jogo. Se ela já é muito hábil, vai abrir outro link, e outro, e outro”, diz. A pesquisadora defende que qualquer resposta institucional inclua investimento no enfrentamento da pressão financeira que empurrou essas mulheres para as plataformas. “O que o nosso dado revela é; não é para enriquecer, é para ter uma vida digna”, resume.

