Advogado pede investigação de processo que levou à prisão de Deolane Bezerra

O advogado Marcos Roberto Cebola e Silva protocolou notícias de fato no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e nas corregedorias do Ministério Público e da Justiça. O objetivo é solicitar apuração independente dos processos que resultaram na prisão da advogada e influenciadora Deolane Bezerra, ocorrida neste domingo (21/5) na Operação Vérnix.
Segundo apuração do Metrópoles, o pedido de investigação foi apresentado após Cebola e Silva publicar, em seu perfil no Instagram, uma série de 17 vídeos intitulada “InPrudente”. Nos vídeos, o advogado detalha supostas falhas e irregularidades em cinco processos investigados ao longo de dez anos pelas mesmas pessoas — o mesmo promotor, os mesmos juízes e o mesmo coordenador de presídios, segundo ele, ligados pela mesma região e por amizades públicas.
Irregularidades apontadas
Entre as situações relatadas na série, Cebola e Silva descreve um casal denunciado em terça-feira (17/11) de 2021 com base em um celular que só teria sido apreendido 21 dias depois, em quarta-feira (8/12), e periciado oficialmente apenas em março de 2022. Em outro caso, uma apreensão registrada em setembro de 2021 como 6,48 gramas de entorpecentes teria chegado, ao longo do processo, a 6 quilos nos documentos.
“Quando a Justiça precisou justificar a prisão, a mesma apreensão registrou mais de seis quilos, 1.000 vezes mais, e esse número inflado circulou em mais de um documento, sem que ninguém parasse para conferir o auto original”, afirmou o advogado. A mulher envolvida nesse caso teria sido condenada a nove anos de prisão. O advogado também compilou registros de folhas de um processo digital que desapareceram e reapareceram após ele questionar o sumiço em audiência. Além disso, relata provas encontradas em celas após revistas repetidas, algumas feitas sem a presença dos detentos.
O nome de Deolane nos autos
Cebola e Silva destaca que, nos cinco processos da série, o nome de Deolane jamais aparece. Segundo ele, a advogada e influenciadora é mencionada pela primeira vez em uma audiência de janeiro de 2023, quando o próprio promotor, durante interrogatório, perguntou à ré sobre depósitos feitos para uma advogada chamada Deolane Bezerra. Diante da negativa, ainda em audiência, foi feita uma oferta de delação premiada, que foi recusada.
Cinco meses depois, em junho de 2023, o nome de Deolane apareceu nas alegações finais do processo do casal, ligado ao celular sem registro prévio de apreensão. A frase inserida foi: “Pagamento em nome de Deolane Bezerra Santos (advogada)”. De acordo com o advogado, a palavra “advogada” entre parênteses não constava de nenhuma prova.
“Esse ‘advogada’ entre parênteses não estava em prova nenhuma, virou do texto. Do texto foi copiado para a sentença e da sentença para a operação que prendeu Deolane, três anos depois”, disse Cebola e Silva. Segundo ele, ao longo de quatro anos de investigação, Deolane nunca foi intimada a dar explicações. A denúncia só foi oferecida em junho de 2026, após 33 pedidos de prorrogação de prazo pelo mesmo texto padrão, todos acatados pelo Ministério Público.
O advogado também aponta que os fatos imputados à advogada datam de agosto e outubro de 2020, e que o pedido de prisão só veio em 2026, quase seis anos depois. Para ele, a ausência de fato novo torna a medida juridicamente questionável, já que a legislação exige que a prisão preventiva seja contemporânea ao fundamento que a justifica.
Ao tratar da fundamentação formal da acusação, Cebola e Silva transcreve trecho do relatório policial final:
“A polícia descreve a tipicidade das condutas atribuídas à Deolane utilizando-se sempre a palavra ‘em tese’; no relatório final, o documento que fundamenta a acusação, a própria polícia descreve que ainda faltam diligências para o encontro e apreensão de dados que reforcem a vinculação ilícita. Eles denunciaram, pediram prisão, e no mesmo documento afirmaram que precisam encontrar a prova para ligar a doutora ao crime.”
Os valores e o leilão
Sobre o bloqueio de R$ 27 milhões, Cebola e Silva contesta o montante. Segundo ele, o valor corresponde à soma das entradas e saídas da conta de Deolane, o mesmo dinheiro contado duas vezes.
“Os créditos reais são R$ 13 milhões, e aplicado ao filtro que o próprio laboratório sabe usar, sobra R$ 7,6 milhões. Já a prova concreta contra ela, de depósitos que dá para contar nos dedos, são seis depósitos de R$ 24,5 mil e o bloqueio pedido foi de R$ 27 milhões”, declarou o advogado.
Nos vídeos, ele ainda chama atenção para o pedido de leilão antecipado dos veículos apreendidos, formalizado em quarta-feira (11/8) de 2026, nas folhas 7.001 dos autos. Sem condenação, o comitê de ativos do estado solicitou o leilão dos carros de Deolane, a transferência do dinheiro bloqueado e a autorização para que a Polícia Civil utilize uma Amarok e um Jeep em atividades investigativas. O Ministério Público também teria pedido a extensão das investigações para o filho, a mãe e as irmãs de Deolane, com base nos mesmos relatórios financeiros contestados na série.
Cebola e Silva afirma que o objetivo da notícia de fato não é pedir a punição de nenhum agente em específico. “Se está tudo certo, a apuração confirma e está tudo bem. Se não está, quantas pessoas foram presas por provas que ninguém examinou?”, questionou.


