MEC deveria levar a ludopatia para as salas de aula — e para os vestibulares

Opinião I 27.08.26

Por: Magno José

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O novo diferencial competitivo das bets não está nas odds, mas nas ferramentas de proteção ao usuário 1

Cristiano Costa*

Riscos psicológicos são sempre melhor administrados em ambientes onde existe amplo acesso à informação, vínculos com pessoas de confiança e consequente segurança para a tomada de decisão. A meu ver, não é um ambiente assim onde hoje acontece o debate sobre os impactos da regulamentação do setor das apostas no Brasil. Ele precisa chegar às escolas — e o Ministério da Educação pode ter um papel importante nessa discussão.

Em especial, precisamos rever os termos sobre a sinceridade que devemos ter sobre os riscos da ludopatia ou transtornos emocionais e sociais relacionados ao jogo sem controle ou exagerado. O dado mais elementar que o cidadão brasileiro precisa saber para apostar com segurança é o uso de uma plataforma que o endereço na internet termina com .BET.BR. Desafio aos institutos de pesquisa fazerem essa pergunta e obter essa resposta tão elementar para a proteção dos direitos do apostador e da sociedade.

E quer saber por quê?

Segundo uma pesquisa da Ipsos encomendada pela plataforma de verificação de identidade Unico, 11% entre 1.200 dos jovens brasileiros pesquisados apostaram em bets ilegais em 2025. São números que revelam um crime, já que isto jamais aconteceria em uma plataforma regulamentada, devido aos rígidos controles de biometria e identificação digital exigidos pelo governo. Para piorar, o maior percentual, 20%, que afirmaram ter feito algum tipo de aposta no último ano, está na faixa etária dos 17 anos, justo a fase do ENEM ou pré-vestibular. Em um recorte de gênero, os dados são ainda mais alarmantes, apontando um crescimento na faixa entre 14 a 15 anos entre as meninas, onde 14% afirmaram o acesso às apostas online. Para completar, no segmento de crianças entre 10 e 13 anos, 4% afirmaram ter apostado no ano passado.

Diante disso, trata-se de um risco que escapa ao controle e se intensifica precisamente onde a vulnerabilidade é maior. Porém, do ponto de vista do enfrentamento da questão, o Brasil, a despeito da sua decisão de regulamentar o jogo, opta por uma trilha que já sabemos onde vai dar. Ao invés de criarmos um ambiente de liberdade informada e saúde mental, optou-se por aquilo que se sabe apresentar uma eficácia limitada, que é a repressão, a proibição e ampla distribuição de atestados de incapacidade alheia. Observe-se que além do risco com as bets, a pesquisa da Ipsos também integrou dados sobre o uso de vapes, álcool, cigarro e outras substâncias psicoativas.

Como esperado, os dados são críticos. O LENAD III, levantamento nacional sobre uso de álcool e drogas, revelou um dado que confere ao termo “adoecimento” seu peso literal: entre os menores de 18 anos que haviam apostado, 55% já apresentavam comportamento de dependência — ante 39% entre os apostadores adultos. Ou seja, a criança e o adolescente que apostam se expõem ao jogo,  o que evidencia a maior vulnerabilidade dos jovens ao desenvolvimento de comportamentos de dependência.

De volta às bets, a curiosidade é o principal fator de contato com as apostas (41%), seguida pela possibilidade de ganhar dinheiro fácil (34%); influenciadores digitais têm peso menor, com 9%. Esse dado pode ou não estar vinculado ao fato de que as publicidades de bets ilegais são cada vez mais ostensivas. A exposição frequente a conteúdos relacionados a apostas e jogos de azar na internet contribui para normalizar esse tipo de comportamento entre públicos cada vez mais jovens.

Mais do que cobrar conhecimento sobre ludopatia, uma questão de redação ou de ciências humanas poderia provocar o estudante a refletir sobre os limites entre entretenimento, consumo, pressão econômica, liberdade individual e proteção de públicos vulneráveis, fatores que ultrapassam o universo das apostas e mergulha fundo na discussão sobre Saúde Mental e Cidadania. Nesse contexto, a ludopatia poderia — e deveria — ocupar espaço entre os temas capazes de provocar reflexão nos processos seletivos e no ambiente escolar.  Dessa forma, o MEC poderia estimular o debate sobre o tema nas escolas e incentivar sua abordagem em iniciativas educacionais, sem interferir na autonomia das bancas examinadoras.

Assim como a sociedade reconhece que adolescentes precisam ser protegidos do consumo de álcool e de outras substâncias antes de terem maturidade para lidar com seus riscos, também precisamos discutir os limites e os perigos das apostas. Não podemos começar pelo fim, pela proibição, pela autoexclusão. Logo, foi proposto um remédio definitivo. Ou tudo, ou nada. Negando todo o conhecimento acumulado sobre as políticas de redução de danos. Quando vamos falar de emoções, limites, psicoeducação, prudência e, sobretudo, Saúde Mental? Educar sobre o jogo não significa estimular o seu consumo ou negar a complexidade do debate sobre direitos e liberdade individuais. Significa oferecer informação para que essa liberdade possa existir com consciência.


(*) Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC – Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo)

 


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