Sustentados pelas casas de apostas, clubes temem perder receita imediata em caso de proibição ou restrição do governo

Apostas I 19.09.26

Por: Magno José

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Sites de apostas estão em 85% dos clubes da elite do futebol brasileiro
Especialista, no entanto, crê que mercado já sofreria com retração e vê novas possibilidades no médio prazo

O governo federal estuda adotar uma Medida Provisória para restringir ou proibir as operações de cassinos online no Brasil. A possibilidade agitou clubes de futebol e casas de apostas, que saíram em defesa de seus contratos. Nesta sexta-feira (18/9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar as bets e rebateu o argumento de que uma regulação mais dura encerraria o esporte no país.

Reportagem de O Globo mostra que o temor dos clubes tem fundamento, mas não ao ponto de inviabilizar o futebol brasileiro. Ainda não há esboço concreto da MP, e o que circula nos bastidores é suficiente para acionar alertas no setor.

“Esse negócio de que se acabar com as bets acaba com o futebol é balela. Nós temos é que acabar com a pouca-vergonha no futebol”, declarou Lula durante comício realizado em Guarulhos, nesta sexta-feira (18/9).

Impacto financeiro no setor

O cerne da preocupação está na estrutura de receita das casas de apostas. Em média, 70% do faturamento do setor vem dos cassinos online, que incluem caça-níqueis como o “Jogo do Tigrinho”, roleta e jogos de cartas. Os outros 30% provêm das apostas esportivas, como palpites em resultados, cartões amarelos e escanteios. Um banimento dos cassinos online reduziria drasticamente a receita das bets e, por consequência, pressionaria os contratos de patrocínio com os clubes.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) já alertou seus associados. Em nota, a entidade recomendou “a revisão dos contratos de publicidade, marketing e patrocínio atualmente mantidos pelas empresas”, com caráter “estritamente preventivo”, para que estejam “preparadas para avaliar e administrar eventuais impactos financeiros”.

É de praxe nos acordos comerciais do setor a inclusão de cláusulas de proteção por “motivo de força maior”, dado que o mercado opera sob regulação governamental sujeita a mudanças.

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Dependência das bets pelo futebol

O futebol brasileiro construiu uma dependência expressiva das apostas esportivas ao longo dos últimos anos. As bets entraram no mercado nacional a partir de 2018, aproveitando uma brecha na legislação, e o volume de investimento cresceu ano a ano. Em 2024, 18 dos 20 clubes da Série A contavam com algum patrocínio do setor em seus uniformes. A injeção foi de R$ 523 milhões naquele ano, segundo estimativas.

Em 2026, o valor já supera R$ 1 bilhão. Treze clubes têm patrocínio máster de casas de apostas, e os principais campeonatos nacionais contam com uma bet como naming rights. O contraste com o período das estatais é ilustrativo; ao longo de sete anos, a Caixa Econômica Federal aportou R$ 663,7 milhões nos clubes das Séries A e B, com até 25 times patrocinados simultaneamente.

“O esporte tem sido muito beneficiado pelas bets. Por anos, as empresas que entravam eram meio aleatórias, sem ter real contrapartida do mercado, como as iniciativas do governo. Depois, vieram as fintechs, os bancos. As bets têm envolvimento direto com o jogo. Investem na própria lagoa que pescam. Por isso, faz sentido ter investimentos maiores”, afirma Ricardo Magri, diretor-executivo da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo).

Mercado já em retração

Após a regulamentação do setor, em janeiro de 2025, o mercado começou a se ajustar. A tendência identificada por especialistas é de retração nos valores de patrocínio nos próximos anos, especialmente para clubes menores. No fim de 2025, a Alfa, que era patrocinadora máster do Grêmio e do Internacional, encerrou as operações no Brasil após uma crise financeira. O Grêmio fez acordo para receber parte dos valores devidos; o Internacional cobra cerca de R$ 60 milhões na Justiça pelas parcelas não pagas.

Representantes das empresas do setor argumentam que proibições ou restrições adicionais abrirão caminho para os sites ilegais de apostas. “O apostador ficaria mais exposto a riscos, enquanto o combate a práticas irregulares se tornaria ainda mais complexo. O caminho mais eficiente passa pelo fortalecimento da regulamentação, pela fiscalização rigorosa das empresas autorizadas, pelo combate ao mercado ilegal e pela ampliação das iniciativas de Jogo Responsável e educação dos apostadores”, afirmou Marco Tulio Oliveira, CEO da Ana Gaming Brasil, controladora da marca 7k Bet, patrocinadora do Vitória.

Novos patrocinadores no horizonte

Para Magri, o fim do futebol não está no horizonte. O mercado do esporte é cíclico, e dois setores já se movimentam como possíveis substitutos; empresas de inteligência artificial e montadoras de carros elétricos. No mês anterior à publicação desta matéria, o Google fechou parceria com o Bayern de Munique. Em março de 2026, o Gemini, plataforma de IA da empresa, se tornou patrocinador da seleção argentina, com a marca estampada nos uniformes de treino.

“Já tem uma guerra por mercado envolvendo as empresas de IA; Gemini, ChatGPT, Copilot, Claude. Elas têm mais força que as bets. As principais montadoras chinesas de carros elétricos vão começar a competir entre si. Vai ser bem forte a briga por grandes mercados e ligas, como foi com bebidas, bancos, empresas aéreas. Em dois anos, acredito que essa será a competição”, afirma Magri.

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