Eleições 2026: bets viram tema central com promessas de candidatos

As apostas esportivas se tornaram um dos temas centrais da campanha eleitoral de 2026, com candidatos à Presidência e a governos estaduais disputando quem apresenta a proposta mais dura de combate ao setor. O debate ganhou força após estados e municípios passarem a proibir publicidade de bets em espaços públicos, e as promessas chegam a incluir o fechamento das casas de apostas.
A movimentação foi reportada por O Globo. Em meio à disputa acirrada com Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou o discurso sobre o tema. Além de criticar o impacto das bets sobre o endividamento das famílias e compará-las ao crack, o petista mirou nos clubes de futebol, que responderam com uma nota criticando propostas de regulação do setor.
“Eu tomei uma decisão, se depender da minha vontade, eu já fiz algumas reuniões, vou conversar com meu pessoal da Fazenda, vou conversar com meu pessoal do Banco Central, mas a verdade é que eu quero acabar com as bets”, declarou Lula em agenda realizada neste sábado (21/9) em Florianópolis.
Posições dos candidatos
Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula, aborda no programa de governo a orientação financeira a jogadores e a proibição do uso de recursos de programas sociais em apostas, restrição que já existe na legislação. O ex-governador Romeu Zema (Novo) adotou postura mais combativa: apareceu em compromissos oficiais vestindo camiseta com os dizeres “Chega de bets”. Renan Santos (Missão) promete “destruir” as casas de apostas, enquanto Ronaldo Caiado (PSD) defende “regulamentação dura, fiscalização e tolerância zero”. Augusto Cury (Avante), terceiro colocado nas pesquisas, propõe aumentar a tributação do setor para mais de 50%.
As apostas foram regulamentadas no Brasil durante o atual governo Lula, que estabeleceu as bases legais e a tributação do setor. A Fazenda endureceu as regras de propaganda em período recente. O movimento não impediu que Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato ao governo de São Paulo, usasse o tema para alfinetar Fernando Haddad (PT), ministro da Fazenda na época da regulamentação.
“As pessoas estão endividadas, estão gastando o seu dinheirinho com as bets, que foram regulamentadas aí no governo Lula, pelo Haddad”, afirmou Tarcísio à Jovem Pan News.
Restrições nos estados
Em julho, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere (PSD), abriu caminho para a restrição de publicidade de bets em espaços públicos. A medida foi seguida por outras cidades e estados. O candidato ao governo fluminense Eduardo Paes (PSD), de quem Cavaliere foi vice, elogiou a decisão e prometeu estender a proibição a todo o estado se eleito.
Em Minas Gerais, o governo de Mateus Simões (PSD), aliado de Zema e candidato à reeleição, anunciou restrições à publicidade de apostas em equipamentos geridos pelo estado, incluindo o Mineirão, estádio utilizado pelo Cruzeiro. A medida gerou um conflito institucional com o clube e também afetou a Loteria Mineira, que terá que encerrar a operação de apostas iniciada em 2023, durante o governo Zema.
Josué Medeiros, professor da UFRJ e coordenador do Observatório Político e Eleitoral, avalia que mudanças no nível federal seriam muito mais difíceis de implementar do que ações estaduais. “Dá para ver que tem aí um caminho, a publicidade, que dá para fazer com menos regulação. Porque se isso tiver que passar no Congresso, vai ser muito complicado, pela força da bancada das bets”, disse.
Medeiros realizou grupos focais com perguntas sobre bets e identificou preocupações dos participantes quanto a endividamento e saúde mental. Os governos Jair Bolsonaro e Lula são vistos como “permissivos” no tema, segundo o pesquisador. Para ele, o segundo turno presidencial tende a ampliar o destaque da pauta.
Renato Meirelles, colunista do GLOBO e fundador do Instituto Locomotiva, alerta para as dificuldades práticas de implementar uma proibição. “No palanque, proibir cabe numa frase. No governo, exige mudar lei federal, formar maioria no Congresso, organizar a transição e reforçar tecnologia e polícia. Há ainda uma armadilha. Apertar apenas as empresas autorizadas pode empurrar o apostador do site regulado para o link clandestino”, afirmou.
Um estudo do Locomotiva em parceria com a LCA estimou que entre 38% e 44% do mercado de apostas online no Brasil ainda opera na clandestinidade.


