O Brasil está errando o alvo: regulação, hipocrisia e a verdadeira dor do setor de apostas

A regulamentação do mercado de apostas no Brasil era um dos momentos mais aguardados pela indústria. A expectativa era de mais maturidade, segurança jurídica e de transformar um setor em expansão em um segmento formal da economia. Depois de acompanhar de dentro da operação todas essas etapas, de quem participou da estruturação de casas desde o início e viveu a transição, fica evidente que ainda existe um problema importante de prioridade: boa parte da energia regulatória e institucional está concentrada nos operadores que decidiram cumprir as regras.
Hoje, existe uma pressão desproporcional sobre as empresas que pagaram outorgas, estruturaram áreas de compliance, criaram mecanismos de jogo responsável e adequaram suas operações às exigências da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Ao mesmo tempo, o mercado ilegal continua encontrando espaço para atuar por meio de redes sociais, sites, influenciadores e diferentes canais de aquisição de clientes.
Esse cenário gera uma distorção. Enquanto as empresas autorizadas precisam lidar com novas exigências, discussões sobre aumento de carga tributária, mecanismos de recolhimento e possíveis restrições adicionais, operadores ilegais seguem buscando clientes sem oferecer as mesmas garantias ao consumidor. O combate à ilegalidade precisa considerar essa diferença de forma mais efetiva. Bloquear sites, impedir meios de pagamento e responsabilizar quem facilita a atuação dessas empresas são medidas que precisam avançar na mesma velocidade das cobranças feitas ao mercado regulado.
A discussão sobre publicidade segue a mesma lógica. Propostas para banir ou restringir de forma ampla a publicidade de apostas em grandes centros urbanos e meios de comunicação de massa precisam considerar como o consumidor escolhe uma plataforma. A publicidade também cumpre uma função de identificação. É por meio dela que uma empresa apresenta sua marca, informa que possui autorização para operar, comunica suas políticas de jogo responsável e constrói uma relação de confiança com o público.
Quando um operador autorizado, identificado pelo domínio oficial .bet.br, perde espaço para se comunicar, a concorrência passa a acontecer em um ambiente ainda mais difícil de controlar. O consumidor continua exposto às apostas e continuará encontrando ofertas nas redes sociais e na internet. A diferença é que pode ter mais dificuldade para distinguir uma plataforma autorizada de uma operação ilegal.
Essa falta de clareza pode levar usuários para sites sem políticas de jogo responsável, sem mecanismos adequados de proteção e sem a supervisão prevista pela regulamentação brasileira. O impacto também chega aos cofres públicos, já que a migração de usuários para o mercado ilegal representa perda de arrecadação.
Há ainda outro aspecto pouco discutido no debate atual: o tratamento dado ao período anterior à regulamentação. Causa estranheza o nível de escrutínio direcionado a determinadas empresas brasileiras por práticas realizadas antes da entrada em vigor do novo marco regulatório.
Entre 2018 e 2025, o mercado brasileiro funcionou em um ambiente no qual não existia uma licença nacional para a operação de apostas. Empresas brasileiras e grandes grupos internacionais utilizaram estruturas baseadas em licenças de jurisdições como Curaçao e países europeus para atender ao público brasileiro. Era o modelo disponível naquele momento. Por isso, analisar o histórico do setor exige algum equilíbrio.
Enquanto o debate público continua muito concentrado em patrocínios esportivos, futebol e influenciadores, existe uma transformação importante acontecendo dentro das operações. O mercado iGaming passou a atrair profissionais altamente qualificados vindos do setor financeiro e bancário, especialmente em áreas como prevenção à lavagem de dinheiro (PLD), análise de risco, inteligência de dados, atendimento ao cliente e compliance.
A explicação passa também pela transformação dos próprios bancos. A digitalização dos serviços financeiros reduziu a presença física das instituições e aumentou a demanda por operações digitais, baseadas em dados e tecnologia. Parte desses profissionais encontrou no iGaming um ambiente com desafios semelhantes.
Uma operação regulada de apostas exige sistemas sofisticados de identificação de clientes, monitoramento de transações, análise de comportamento, prevenção a fraudes e gestão de risco. Inteligência Artificial e Business Intelligence já fazem parte dessa estrutura e têm papel cada vez maior na tomada de decisões. É um setor de tecnologia e serviços digitais que ainda é muito associado, no debate público, apenas à publicidade e ao entretenimento esportivo.
Também existe uma responsabilidade que cabe ao próprio mercado. A fragmentação institucional dos operadores dificulta a construção de uma agenda comum. O surgimento de diferentes associações, com interesses e prioridades nem sempre alinhados, reduziu a capacidade de o setor apresentar posições convergentes diante da SPA, do governo e do Congresso Nacional.
Uma indústria que movimenta bilhões de reais e envolve centenas de empresas, fornecedores e profissionais precisa ter capacidade de construir consensos. Divergências são naturais em um mercado desse tamanho, mas a falta de coordenação faz com que temas importantes sejam tratados de maneira isolada e reduz a força de representação dos operadores.
O mercado brasileiro ainda está no início de sua trajetória regulada e tem espaço para se tornar um dos mais relevantes do mundo. Para isso, precisa de previsibilidade. As empresas que investiram para obter autorização precisam saber quais serão as regras do jogo e ter condições de planejar seus negócios. O Estado, por sua vez, precisa concentrar esforços no combate às operações clandestinas e na proteção do consumidor.
A indústria também precisa fazer sua parte. Cabe aos operadores ampliar a união institucional, investir em boas práticas e participar de forma mais ativa das discussões que definirão os próximos anos do setor.
A regulamentação foi um passo importante. Agora, o desafio é fazer com que ela funcione na prática, com equilíbrio entre fiscalização, proteção ao consumidor, arrecadação e desenvolvimento de um mercado capaz de competir de forma saudável. É esse equilíbrio que pode transformar o mercado brasileiro de apostas em uma indústria sustentável no longo prazo.
(*) Igor Sá é executivo que atua no mercado de iGaming há mais de 11 anos, com passagens por Esportes da Sorte, BETesporte, F12 e HiperBet.


