MP das Bets tem apelo, mas não contorna problema do endividamento

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de proibir as apostas esportivas online no Brasil, anunciada nesta sexta-feira (25/9), tem forte apelo eleitoral, mas dificilmente resolve o problema que o governo usa para justificá-la: o aumento do endividamento da população.
Publicada pelo Valor, a análise mostra que a medida encontra terreno fértil nas pesquisas de opinião. Pelo menos dois levantamentos recentes mediram a adesão à proibição total das bets, e a maioria absoluta dos entrevistados se mostrou favorável. Na pesquisa mais detalhada delas, realizada pelo instituto Ideia em julho de 2026, 56% dos entrevistados concordaram com a interdição. O recorte por gênero revela o foco político da iniciativa: 67% das mulheres e 50% dos homens apoiavam o veto.
A leitura que candidatos da oposição fizeram da medida confirma sua natureza eleitoral, embora nenhum tenha optado por uma posição contrária à proibição em si. O senador Flávio Bolsonaro (PL) chamou o anúncio de “eleitoreiro, hipócrita, populista”, mas acrescentou ser pessoalmente contra os jogos. Renan Santos (Missão) previu que a Medida Provisória vai caducar. Ronaldo Caiado (PSD) lembrou que votou contra o tema quando era senador e que, como governador de Goiás, não autorizou loterias no estado. Romeu Zema (Novo) não havia se pronunciado até o início da tarde deste sábado (26/9), apesar de ter criticado as bets durante toda a campanha.
Endividamento e bets: uma relação que o eleitorado não faz
O problema central da narrativa do governo é que o próprio eleitorado não associa apostas online ao aperto financeiro. Na pesquisa do Ideia de julho, quando os entrevistados foram perguntados sobre quais gastos mais contribuíam para o endividamento, as apostas online apareceram citadas por apenas 2% deles. À frente vieram supermercado (29%), contas de consumo (28%), aluguel (14%), gasolina (10%), educação (8%), plano de saúde (7%), transporte público (6%) e condomínio (5%).
Entre os participantes do levantamento, 33% enxergavam as apostas como um vício e 26%, como uma fonte de perda de dinheiro. A percepção de que o fim das bets reduzirá o endividamento da população, portanto, tende a ser baixa.
O raciocínio do governo tampouco é simples de sustentar com dados. Desde a regulamentação das apostas esportivas online, realizada pelo próprio governo Lula, foram registradas apostas feitas por 43,8 milhões de CPFs. Estabelecer uma relação de causalidade entre esse volume de apostas e o aumento da inadimplência é, segundo a análise, algo complexo.
O Desenrola 3, também lançado nesta sexta-feira (25/9), reforça a limitação do pacote. O programa foca consumidores com dívidas em atraso, como nas versões anteriores, e não contempla os que têm renda crescentemente comprometida mas se mantêm adimplentes.
Reação do futebol
Nos próximos dias, a reação com maior potencial de impacto na opinião pública deve vir do futebol. Casas de apostas online patrocinam 17 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. Flamengo e Fluminense já divulgaram posicionamentos oficiais nesta sexta-feira (25/9) contra a medida, sinalizando que podem levar a questão à Justiça.
O Fluminense reclamou de falta de segurança jurídica. “Qualquer decisão precisa considerar segurança jurídica e previsibilidade”, disse o clube. O Flamengo foi além e criticou a mudança abrupta no marco regulatório. “Não se pode criar uma nova regra, levar empresas e instituições a assumir compromissos com base nelas, e, de um dia para o outro, mudar todo o marco regulatório”, afirmou o clube. O governo federal não indicou, no anúncio da medida, qualquer forma de compensação para os atingidos.


