Clubes paulistas discutem MP que proíbe apostas online e impacto bilionário

Representantes de 11 clubes paulistas se reuniram na manhã de segunda-feira (28/9) na sede da Federação Paulista de Futebol (FPF), na zona oeste de São Paulo, para avaliar os impactos da Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que proíbe a operação e a publicidade das casas de apostas online no Brasil. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) foi acionada pelo governo para atuar como intermediadora do diálogo com os clubes das quatro divisões do futebol nacional.
A reunião na FPF reuniu times das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, além de um clube da Segunda Divisão Paulista, e foi convocada em caráter de emergência após a assinatura da MP. A estratégia dos clubes é evitar posições isoladas que possam enfraquecer uma ação coletiva; por isso, a FPF se encarregou de articular o encontro e de conduzir as conversas entre as agremiações.
Clubes presentes e próximos passos
Participaram da reunião representantes de Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Mirassol e Red Bull Bragantino, da Série A, além de Botafogo de Ribeirão Preto, Novorizontino, Ponte Preta e São Bernardo, da Série B, e do Juventus, da Segunda Divisão Paulista. As equipes enviaram profissionais das áreas jurídica e de marketing para trocar informações, mas nenhuma ação concreta foi definida no encontro.
Em nota, a FPF confirmou o encontro e afirmou que “FPF e Clubes seguirão discutindo o tema e definiram que seguirão atuando sempre de forma coletiva, visando o melhor para o futebol”.
Na terça-feira (29/9), representantes de clubes das quatro divisões do futebol nacional e do Ministério do Esporte se reúnem para debater os efeitos da MP e discutir um possível socorro financeiro às equipes. O governo escolheu a CBF como interlocutora nesse processo; segundo o ofício enviado pela pasta à entidade, o objetivo do encontro é discutir o “fortalecimento dos clubes e do futebol brasileiro”. A CBF ainda não havia definido quem representará a confederação no encontro.
Vínculos políticos na CBF
A escolha da CBF como intermediadora ocorre em um momento em que a cúpula da entidade reúne dirigentes com conexões diretas com a política. Entre os oito vice-presidentes está Gustavo Dias Henrique, responsável pela articulação política da confederação e primeiro suplente de Renan Calheiros (MDB) na disputa pelo Senado por Alagoas. Nos bastidores, Francisco Schertel Mendes, filho do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, vice-presidente da FMF (Federação Mato-Grossense de Futebol) e integrante da assembleia da CBF, também aparece como um dos nomes influentes na gestão atual.
Impacto financeiro e prazo
As casas de apostas que atuam no país têm até as 23h59 de sexta-feira (5/10) para retirar qualquer tipo de publicidade, incluindo os patrocínios a clubes de futebol. O Congresso Nacional tem até 120 dias para analisar a MP e decidir se o veto será convertido em lei definitiva.
O impacto financeiro da medida é significativo. Em 2025, o patrocínio somado das bets aos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro chegou a cerca de R$ 1,03 bilhão, crescimento de aproximadamente 66% em relação aos R$ 618 milhões aportados pelo setor no ano anterior, de acordo com levantamento da consultoria Convocados. Considerando os balanços financeiros de 2025, os aportes totais das casas de apostas ao futebol somaram R$ 1,14 bilhão, com as bets atuando como patrocinadores máster de 14 das 20 equipes da Série A; as exceções são Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Internacional, Mirassol e Red Bull Bragantino.
Ainda assim, o montante das bets representou 7,2% das receitas totais dos clubes da elite do futebol brasileiro no ano passado, conforme a consultoria Convocados, enquanto os 20 times da Série A registraram faturamento de R$ 14,9 bilhões em 2025. Além dos patrocínios a clubes, as marcas do setor também pagam por espaços de publicidade à beira do gramado e inserções durante transmissões televisivas. As duas principais competições da CBF, o Brasileirão e a Copa do Brasil, são patrocinadas pela Betano, inclusive com naming rights.
Ao sancionar na segunda-feira (28/9) um projeto com diretrizes para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil, Lula voltou a minimizar os efeitos da medida sobre o esporte. “Esse negócio da gente ter acabado com as bets não traz nenhum prejuízo para o futebol”, declarou o presidente, que acrescentou: “Os melhores momentos da história do futebol brasileiro, não existia bets. O Brasil foi campeão do mundo em 1958, em 1962, em 1970, em 1994, em 2002, não existia bets. O Flamengo foi campeão do mundo em 81, o São Paulo foi campeão do mundo três vezes, o Corinthians foi campeão do mundo, o Grêmio foi campeão do mundo. Lamentavelmente, o Palmeiras não foi. O Santos foi duas vezes campeão do mundo e não existia bets.”


