Brasil: impacto da proibição das apostas online

A H2 revisou suas projeções para o Brasil para refletir a proibição das apostas online regulamentadas, assinada em 25 de setembro de 2026. A proibição é uma medida provisória, e nosso modelo central pressupõe que o mercado regulamentado fecha completamente e não reabre, porque esse é o único desfecho com alguma segurança jurídica hoje. Nossa visão de trabalho é outra: acreditamos que o mercado provavelmente reabrirá em algum momento de 2027, possivelmente tanto para apostas esportivas quanto para iCassino, embora uma reabertura restrita às apostas esportivas seja possível. Acrescentaremos ao modelo central uma análise de cenários para esses desfechos à medida que as opções ficarem mais claras.
O dado principal não é o tamanho do mercado ilegal, mas o tamanho do seu aumento. Os números abaixo se baseiam no ritmo de 2026 imediatamente antes da proibição, quando o mercado regulamentado valia cerca de R$ 40 bilhões em base anualizada. O número oficial de 2026 será menor, pois reflete apenas nove meses de operação licenciada, e as projeções anuais revisadas levam isso em conta. Estimamos que cerca de 60% desse gasto, aproximadamente R$ 25 bilhões, continuarão sendo apostados, mas com operadores sem licença, sem proteção ao jogador, sem tributação e sem qualquer recurso regulatório. Cerca de R$ 15 bilhões deixam o mercado no curto prazo. Nossa faixa é de R$ 20 a 30 bilhões migrando para o offshore, ou de metade a três quartos do mercado legal, e o resultado depende principalmente da eficácia do bloqueio dos canais de pagamento para sites offshore e de quanto tempo a proibição resistirá às contestações jurídicas e políticas.
Pela estimativa da H2 de que cerca de 30% do mercado já estava no offshore, o mercado ilegal passa de cerca de R$ 17 bilhões para cerca de R$ 42 bilhões. O índice de 41% de offshore é o número mais recente amplamente citado no Brasil; não acreditamos que seja tão alto, mas, com essa premissa, o mercado ilegal passaria de R$ 28 bilhões para R$ 53 bilhões. Reiteramos, no entanto, que, em nossa visão, o tamanho atual do mercado offshore é secundário. Qualquer que seja o ponto de partida, o aumento é o mesmo, de R$ 25 bilhões, e esse é o número que importa.

A estimativa da H2 sobre a migração do mercado regulado para o offshore se baseia em duas fontes. A primeira é a pesquisa da H2 com 2.451 apostadores online brasileiros, realizada em novembro de 2025. O canal offshore nunca foi fechado após a regulamentação: 39% dos entrevistados ainda usavam sites sem licença, e esses jogadores respondiam por cerca de 60% do gasto declarado. Aproximadamente um quarto de todo o gasto declarado já ia para operadores sem licença, o que é consistente com os 30% do nosso modelo, considerando a habitual subnotificação da atividade do mercado cinza em dados de pesquisa. Metade de todo o gasto estava concentrada em jogadores que haviam usado um site sem verificação de identidade nos seis meses anteriores. Para esses jogadores, a proibição elimina a opção licenciada e nada mais; suas contas offshore e rotas de pagamento já existem. Entre os jogadores que usavam apenas sites licenciados, uma pergunta feita a beneficiários de programas sociais, que enfrentavam sua própria proibição de apostar, resultou em uma divisão declarada de dois terços com intenção de parar e um terço com intenção de continuar ou indeciso. Descontamos o índice declarado de desistência porque a intenção de parar de jogar costuma se concretizar em bem menos da metade dos casos, e porque 61% dos que disseram que parariam já apostavam no offshore quando responderam.
A segunda fonte é nossa experiência em outros mercados. Quando a Holanda aumentou o imposto sobre jogos e introduziu limites obrigatórios de depósito, no fim de 2024, estimamos que cerca de metade da queda resultante no gasto no mercado regulado reapareceu no offshore. Isso subestima o efeito de uma proibição total, porque parte da queda holandesa se deveu a jogadores gastando menos dentro dos limites, e não saindo do mercado regulamentado. Uma proibição não oferece essa opção. Um jogador que não pode apostar no mercado regulado ou migra para o offshore ou para, e quem migra leva consigo o gasto que já tinha. A experiência holandesa, portanto, marca o piso da nossa faixa para o Brasil, e não o ponto médio.
O resultado é um mercado de cerca de R$ 42 bilhões passando por operadores sem licença (com base no ritmo de 2026; a estimativa para 2027 é maior devido ao crescimento subjacente do mercado), quase exatamente os R$ 41 bilhões que passaram por operadores sem licença em 2024, antes da regulamentação. Em certo sentido, o Brasil voltou ao ponto de partida. Em um sentido mais importante, está em situação pior. Em 2024, a grande maioria dessa receita ia para operadores regulados internacionalmente, como Betano e Bet365, que não tinham licença no Brasil, mas possuíam sólido histórico de compliance e obrigações de proteção ao consumidor em outros mercados, e que de fato obtiveram licenças quando o mercado foi aberto. Esses operadores agora vão se retirar. Os R$ 42 bilhões irão, em vez disso, para operadores que não puderam ou não quiseram atender ao padrão de licenciamento, com proteção limitada ao jogador, nenhum recurso para os clientes e nenhuma contribuição tributária. Mesmo tamanho, mercado muito diferente.


