Márcio Falcão propõe fusão das associações de apostas em uma única entidade nacional

Na terça-feira (29), durante a SBC Summit em Lisboa, participei de um painel que reuniu representantes de cinco associações do setor de apostas no Brasil: ANJL, Abrajogo, Amig, Arko Advice e IBJL. O tema era o atual cenário das bets no país e, entre as diversas discussões, uma mensagem ficou especialmente clara: o setor precisa se unir.
Mas talvez a própria composição do painel já mostrasse parte do problema.
Se estamos falando em união, ela precisa começar de cima. Não parece fazer sentido um setor que enfrenta um dos momentos mais delicados desde a regulamentação continuar representado por tantas associações diferentes, muitas vezes defendendo os mesmos interesses, mas falando por vozes distintas.
Desculpe não ter me apresentado. Sou Márcio Falcão, CEO da CDA Gaming, e hoje não faço parte de nenhuma associação por não nos sentirmos representados.
Existem razões históricas para essa fragmentação. Mas passou da hora de discutirmos a fusão dessas associações, a fim de termos uma única entidade nacional, forte e verdadeiramente representativa do setor.
Uma associação, NewCo, na qual nenhuma “bet” tenha o controle, mas todas tenham voz. Sua presidência, vice-presidência, diretoria etc. poderiam ser compostas pelas mesmas pessoas que estão na foto, ou seja, por quem hoje representa o mercado, preservando conhecimento, experiência e legitimidade. As empresas de apostas, por sua vez, fariam parte de um conselho representativo, participando das grandes decisões e contribuindo para a construção de uma agenda comum.
Não se trata de apagar o trabalho realizado por cada associação. Trata-se de reconhecer que o cenário mudou.
Dito tudo isso, o entendimento entre os brasileiros que estão na feira é de que esta MP cairá. Só não se sabe “quando”. Mas por que chegamos até aqui? E faço ainda uma outra provocação: o mercado vai ficar vivo até quando?
Essas duas perguntas precisam ser respondidas.
Primeiro, o mercado precisa fazer uma mea-culpa sobre tudo o que aconteceu, desde o período pré-regulado até o pós-regulação.
Existiu um exagero de mídia em praticamente todos os meios de comunicação, seja na TV, nas mídias OOH ou até mesmo nas redes sociais. Lembro que, na Copa de 2022, a Rede Globo vendeu duas cotas para empresas do mesmo segmento, algo que nunca havia ocorrido. Uma das empresas adquiriu a cota master e a outra, uma cota ouro. Chegamos a 2026 com três cotas do segmento durante as transmissões da CazéTV.
Aqui não estamos atrás de culpados, até porque tenho uma relação muito boa com as empresas envolvidas. O objetivo é outro: precisamos revisitar o que aconteceu, reconhecer onde exageramos e entender o que precisa mudar para que possamos construir a continuidade do setor de apostas.
Sendo assim, quem vai dizer qual é o limite do que pode ser feito? A NewCo. Ninguém entende mais do nosso setor do que nós mesmos. Não podemos ficar à mercê do mercado, do Conar ou do Governo para nos dizer até onde podemos ir. Precisamos ser capazes de estabelecer os nossos próprios limites antes que eles sejam impostos por terceiros.
Nós já conhecemos os nossos inimigos, e eles estarão sempre esperando os nossos erros para exigir novas restrições e punições. Hoje, as bets enfrentam o mercado irregular, os interesses do setor bancário e do varejo e, agora, depois dessa exposição excessiva, a resistência de uma parcela enorme dos brasileiros que não joga.
Precisamos, por exemplo, estabelecer limites para as redes sociais. Devemos exigir que as próprias plataformas sejam obrigadas a se conectar ao SIGAP e manter atualizada a lista de pessoas impedidas de apostar, garantindo que a publicidade de bets não seja entregue a quem legalmente não pode jogar.
Deveríamos também proibir a publicidade orgânica de apostas nas redes sociais e permitir apenas publicidade paga. O conteúdo orgânico pode alcançar indiscriminadamente crianças, adolescentes e pessoas impedidas de apostar. Na publicidade paga, é possível exigir das plataformas controle, segmentação e responsabilidade sobre quem será impactado.
Resolveríamos dois problemas de uma única vez: reduziríamos drasticamente a publicidade das bets chinesas e permitiríamos que a publicidade dos operadores autorizados fosse direcionada somente ao público que pode e quer ser impactado.
Precisamos urgentemente produzir conteúdo de qualidade e contratar pesquisas de forma constante. O setor sofreu muito com as fake news produzidas pelo varejo e pelo setor bancário. Entre junho e agosto, não tivemos um único final de semana em que o Estadão não publicasse pelo menos uma matéria criticando as bets, quando não eram duas ou mais. E não conseguimos confrontar nenhum desses dados falsos. Até na edição da MP, o presidente Lula se referiu a um dado falso.
É preciso ter campanhas ativas, não para dizer que as bets são “bonitinhas”, mas para proteger e informar o apostador. Explicar, por exemplo, a importância do domínio “.bet.br” como forma de identificar os operadores autorizados. Alertar que, se alguém exigir um depósito adicional sob a justificativa de liberar ou desbloquear um saque, provavelmente o apostador está diante de um golpe.
A NewCo também deveria ter uma ouvidoria geral, capaz de receber reclamações, orientar apostadores, identificar problemas recorrentes e ajudar o próprio setor a corrigi-los antes que esses problemas se transformem em crises.
Esse é o papel da NewCo: autorregulação, publicidade responsável, proteção do setor, produção de conteúdo e representação institucional.
Tudo o que escrevi até aqui são ideias e acredito que o setor tenha muito a contribuir. Porém, para que essas ideias saiam do imaginário e se transformem em ações, precisamos novamente falar de união. A nova associação precisará arrecadar recursos entre seus associados para conseguir colocar tudo isso em prática. Chega de romantismo. Vamos à luta.
Somente o tempo, a informação de qualidade, a redução da exposição e a educação da população sobre as apostas poderão reconstruir a imagem do setor e mostrar à sociedade que as apostas são uma atividade comercial legal e regulamentada no Brasil, assim como em grande parte do mundo.

