Datafolha: 81% dos brasileiros não apostam nem convivem com apostadores, mas 78% apoiam a proibição das bets

Apostas I 02.10.26

Por: Magno José

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Números do próprio instituto mostram que a opinião sobre a MP é formada por quem não usa o produto; dado sobre o Bolsa Família aponta para o mercado ilegal, já que os sites regulados bloqueavam beneficiários

A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (1º) pela Folha de S.Paulo foi apresentada com um número de impacto: 78% dos brasileiros se dizem favoráveis à proibição das bets e dos cassinos online, determinada pela Medida Provisória nº 1.394/2026. Os demais dados do levantamento, publicados em duas reportagens do jornal, contam uma história mais complexa ‘Datafolha: 78% dizem ser favoráveis à proibição das bets, e 18% se dizem contra’ e  ‘Datafolha: 18% dizem que faziam apostas online ou tinham alguém em casa que apostava’.

O principal deles está na segunda reportagem. Segundo o Datafolha, 81% dos entrevistados declararam que não apostavam nem tinham alguém em casa que apostasse antes da proibição. Apenas 9% disseram ser apostadores (6% só o próprio entrevistado e 3% ele e outra pessoa da casa), e outros 9% apontaram somente um familiar.

A conta é simples. Mesmo que todos os entrevistados com algum apostador em casa fossem favoráveis à proibição, ao menos 59 dos 78 pontos percentuais de apoio viriam de lares sem nenhum contato com as apostas. Em outras palavras, pelo menos três em cada quatro defensores da medida opinam sobre um produto que não consomem.

Datafolha: 81% dos brasileiros não apostam nem convivem com apostadores, mas 78% apoiam a proibição das bets

Rejeição é o dobro do número de apostadores

Outro dado chama atenção: 18% são contrários à proibição, o dobro dos 9% que se declararam apostadores. Isso indica que a resistência à medida vai além de quem aposta e alcança brasileiros que não jogam, mas discordam da proibição de uma atividade regulamentada. A Folha não publicou o cruzamento entre a opinião sobre a MP e o hábito de apostar, informação que permitiria medir esse grupo com precisão.

O “aumento” que não se sustenta

A reportagem afirma que os dados apontam para um “cenário de aumento” de apostadores, ao comparar os 18% atuais com os 7% registrados em julho. As perguntas, porém, são diferentes. Em julho, o Datafolha mediu quem apostava. Agora, somou quem apostava com quem tinha um apostador em casa.

Na comparação correta, o índice passou de 7% para 9%, variação dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Além disso, a pesquisa de julho ouviu eleitores com 18 anos ou mais, enquanto a atual traz resultados para a faixa de 16 a 24 anos.

Endividados apostam menos que a média

As duas reportagens relembram que, em julho, 6% dos brasileiros que se consideravam endividados faziam apostas, índice inferior aos 7% do total da população. No parágrafo seguinte, os textos afirmam que estudos ligam as plataformas ao aumento do endividamento. O dado do próprio instituto não confirma essa relação.

Bolsa Família: o dado que aponta para o mercado ilegal

O Datafolha registrou que 31% dos beneficiários do Bolsa Família apostavam ou tinham alguém em casa que apostava, contra 14% entre os não beneficiários. O número foi apresentado como evidência do alcance das bets entre os mais pobres, mas revela outra coisa.

Os beneficiários do programa estavam impedidos de apostar nas plataformas autorizadas. Por determinação do STF e norma da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, os operadores licenciados eram obrigados a bloquear o cadastro e as apostas desses CPFs.

A pesquisa não perguntou onde as apostas eram feitas, e o índice inclui outros moradores da casa, que podem não ser beneficiários. Ainda assim, se o bloqueio valia no mercado regulado, as apostas feitas pelos próprios beneficiários só poderiam ocorrer em sites ilegais, que não consultam nenhuma base de dados do governo, não pagam impostos e não oferecem qualquer proteção ao jogador.

O dado, portanto, não mede o efeito das bets regulamentadas sobre os mais vulneráveis. Indica o alcance do mercado clandestino, que a proibição não atinge e para o qual tende a migrar agora o público que apostava em empresas autorizadas.

O momento da pesquisa

A MP foi editada em 25 de setembro. O campo do Datafolha foi realizado entre 28 de setembro e 1º de outubro, a partir de três dias após a edição da medida, no auge do noticiário e da campanha do governo sobre o tema, a poucos dias da eleição.

O calendário pesa sobre as respostas. Os entrevistados foram questionados sobre um hábito que já estava proibido, o que pode inibir a declaração de quem apostava. A pergunta também não delimita o período: fala em apostas “antes da proibição”, sem data.

A primeira reportagem fala em “manutenção da percepção pública” e, na frase seguinte, registra alta de 13 pontos no apoio à proibição em relação a novembro de 2024 (de 65% para 78%).

O levantamento ouviu 2.506 pessoas em 152 municípios e está registrado no TSE sob o número BR-08039/2026.

 

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