Fundador do Banco Master articulou ocultar elo com casa de apostas Bet.Bet

Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, discutiu com Luiz Rennó, ex-diretor jurídico da instituição, formas de ocultar sua participação na plataforma de apostas Bet.Bet após o Ministério da Fazenda exigir a identificação do beneficiário final de um fundo vinculado ao negócio. Mensagens recuperadas do celular do ex-banqueiro pela Polícia Federal revelam a articulação, que ocorreu entre o fim de setembro e o início de outubro de 2024, registra reportagem do VALOR.
As trocas foram obtidas pelo Valor e mostram Rennó orientando Vorcaro a se afastar formalmente da estrutura societária. “Você não pode aparecer e teremos que informar quem é o beneficiário final!”, escreveu o então diretor jurídico em terça-feira (30/9). Dias depois, concluiu: “Você tem que sumir de lá”.
Vorcaro detinha indiretamente 30% da Bet.Bet por meio da Bet Participações, cujo sócio era o FIP (Fundo de Investimento em Participações) Oracle, administrado pela Reag, liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central. Após a exigência da Fazenda, documentos apresentados ao ministério indicaram Adriano Garzon Correa, um despachante de Nova Lima (MG) e sócio de Vorcaro em outras empresas, como cotista do Oracle.
Bastidores da ocultação
Em quinta-feira (27/9), Rennó alertou Vorcaro sobre a pressão regulatória: “No fundo Oracle precisamos alterar o beneficiário final porque o Ministério da Fazenda quer saber quem ele é!”. Em seguida, perguntou ao banqueiro se ele tinha alguma sugestão de substituto ou se deveria buscar “alguém de confiança”. No dia seguinte, foi mais direto: “Precisamos retirar o beneficiário final — só me falar quem gostaria de colocar que operacionalizo”. Rennó acrescentou que seria necessário abrir uma conta em outra instituição e considerou inconveniente que ela fosse aberta na Reag ou no próprio Banco Master.
O interesse de Vorcaro na Bet.Bet antecedia essa crise. Em julho de 2024, antes do lançamento da plataforma, o banqueiro já se referia ao negócio como “essa bet nossa” e relatava um faturamento de R$ 5 milhões por dia. “Essa bet nossa”, “Bet.bet”, “Nem lançou ainda”, “Tá faturando 5mm por dia”, escreveu ele nas mensagens.
Financiamento e saída
Em sexta-feira (4/10), Rennó tentou tranquilizar Vorcaro sobre o futuro do negócio: “O negócio vai rodar clean! Jurídico e financeiro nosso! Colocar um cara de confiança! Pode ficar tranquilo!”. Vorcaro respondeu que tinha “mixed feelings da bet”.
As conversas também registram as tratativas para financiar a participação. Em terça-feira (15/10), Rennó propôs fazer o aporte via debêntures conversíveis e, uma semana depois, confirmou ter recebido a emissão do título. Em terça-feira (28/10), cobrou a transferência dos recursos: “Debênture no jeito! Agora você precisa apenas fazer a transferência do recurso”.
Em novembro, as mensagens passaram a tratar das exigências financeiras para a autorização da casa de apostas. Rennó perguntou a Vorcaro se havia ficado combinado que “o investidor pagaria a outorga e colocaria o restante a partir de janeiro”. Vorcaro questionou: “30mm?”. Rennó respondeu: “30+5”. O valor de R$ 30 milhões coincide com o estabelecido pelo governo para a outorga de empresas de apostas; a destinação dos R$ 5 milhões adicionais não é possível determinar pelas mensagens. Em dezembro, Rennó propôs elevar uma Cédula de Crédito Bancário (CCB) para R$ 21 milhões visando à integralização do capital.
Em fevereiro de 2025, o desfecho surgiu numa troca de mensagens. Vorcaro perguntou: “Como ficou a bet hein?”. Rennó respondeu: “Saímos da bet! Formalmente estou fazendo nossa retirada até o mês que vem! Esquece bet.”


