Pesquisa ANJL/Nexus: proibição das bets mudou o voto de apenas 1% dos eleitores no 1º turno

Apostas I 23.10.26

Por: Magno José

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Pesquisa ANJL/Nexus: proibição das bets mudou o voto de apenas 1% dos eleitores no 1º turno
Levantamento feito a quatro dias do 2º turno mostra que 59% apoiam a proibição, mas que o tema pesa pouco na decisão do voto e que um em cada cinco ex-apostadores segue jogando em sites que continuam no ar

A proibição das bets, transformada pelo governo em bandeira da reta final da campanha à reeleição do presidente Lula, tem efeito eleitoral residual. É o que mostra a pesquisa “Impacto das Bets nas eleições presidenciais”, realizada pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados a pedido da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL). Entre os eleitores que votaram no 1º turno e sabiam da medida, só 6% disseram ter mudado de candidato por causa dela, o equivalente a cerca de 1% do eleitorado.

O resultado contrasta com a expectativa do próprio governo. Dario Durigan, da Fazenda, chegou a tratar a disputa como um “plebiscito das bets”.

A Nexus ouviu 2.000 pessoas com 16 anos ou mais, por telefone, entre 18 e 21 de outubro. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O estatístico responsável é Neale El-Dash.

Muito visto, pouco decisivo

O tema esteve presente na campanha. Nove em cada dez entrevistados (90%) disseram ter visto, lido ou ouvido falar das bets durante a disputa presidencial, e 62% afirmaram ter ouvido falar “muito”. Entre os assuntos mais discutidos na campanha, as apostas apareceram em sexto lugar, citadas por 20%.

Na hora de definir o voto, porém, o peso é outro. Os entrevistados podiam apontar até três assuntos de uma lista de 14. As bets ficaram em 13º lugar, com 9% das menções. À frente aparecem saúde e SUS (43%), segurança pública (38%), fim da escala 6×1 (27%), corrupção e educação (25% cada) e custo de vida (24%). Só meio ambiente (6%) ficou atrás.

Para 55%, o tema é importante, mas apenas 14% o colocam entre os principais assuntos da eleição. Outros 42% o consideram pouco ou nada importante.

Quase metade do país não sabe da proibição

Quase um mês depois da edição da Medida Provisória nº 1.394/2026, em 25 de setembro, 65% dos entrevistados disseram ter ouvido falar de alguma decisão recente do governo federal sobre as bets. Quando perguntados qual foi essa decisão, sem opções de resposta, 88% desse grupo citaram a proibição. Isso significa que apenas 57% da população identifica espontaneamente a medida.

O desconhecimento é maior justamente no público que o governo diz querer proteger. Entre quem tem renda familiar de até um salário mínimo, 52% não sabiam de nenhuma decisão. Entre quem tem apenas o ensino fundamental, o índice também é de 52%.

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Reforço, não conversão

No 1º turno, 18% dos eleitores que votaram e conheciam a medida disseram que a proibição influenciou o voto, o equivalente a 9% da amostra total. Dentro desse grupo, 84% afirmaram que ela apenas os deixou mais seguros do voto que já tinham. Só 6% mudaram de candidato.

O padrão se repete no 2º turno, marcado para domingo (25). Depois de ouvir um texto explicativo sobre a MP, 22% disseram que a proibição vai influenciar o voto: 14% “muito” e 8% “um pouco”. Para 77%, não fará diferença. Entre os que serão influenciados:

⇒ 80% afirmam que a medida reforça a escolha já feita;

⇒ 7% dizem que ela vai ajudar a decidir;

⇒ 7% ficaram em dúvida;

⇒ 2% pretendem mudar de candidato.

Somados, os eleitores efetivamente em movimento por causa das bets não chegam a 5% do total.

Isso não significa que a proibição seja eleitoralmente neutra. O reforço também é um efeito, de consolidação do voto, e atinge cerca de 17% do eleitorado no 2º turno. A pesquisa não cruza os dados com intenção de voto, o que impede saber a quem esse reforço favorece. Há, porém, indícios sobre o perfil de quem se diz influenciado. Esse grupo é mais favorável à proibição: 74% querem mantê-la, contra 56% de quem não será influenciado. Tem também percepção econômica mais otimista e cita mais temas como SUS, Bolsa Família e escala 6×1.

Em outras palavras, a medida parece ter falado sobretudo a quem já estava convencido. O quadro ajuda a explicar o silêncio de Lula sobre o tema na sabatina da TV Globo e no debate da Band.

Apoio majoritário, mas abaixo do que o governo anunciava

A pesquisa traz um dado favorável ao governo: 59% acham que as bets devem continuar proibidas definitivamente. O apoio é maior entre mulheres (64%), jovens de 16 a 24 anos (63%) e pessoas com ensino superior (66%).

O número, porém, fica bem abaixo dos 75% de apoio à proibição registrados pela Atlas/Bloomberg em setembro. As perguntas não são idênticas, e a diferença aparece quando o eleitor recebe uma terceira opção. Na Nexus, 32% preferem que as apostas voltem a funcionar com regras mais rígidas e mais fiscalização. Só 6% defendem a volta nas condições anteriores à MP.

Entre os apostadores, a balança se inverte: 45% preferem a volta com regras mais duras, 43% apoiam a proibição e 10% querem o modelo anterior. Ao todo, 38% dos brasileiros e 55% dos apostadores querem as bets de volta em alguma forma. Esse contingente não cabe na afirmação de Lula, em live com o deputado André Janones, de que as bets “não voltarão mais”.

O jogo continua, agora fora do sistema

O dado mais revelador está no comportamento dos apostadores. Antes da proibição, 18% dos entrevistados apostavam em sites ou aplicativos de bets: 4% toda semana, 4% algumas vezes por mês e 10% raramente.

Depois da MP, 4% da amostra afirmam ter apostado em sites que continuam funcionando, cerca de um em cada cinco ex-apostadores. Desses, 52% usam o mesmo site em que já apostavam, e 43%, um site diferente.

O número tende a estar subestimado. Em entrevista por telefone, admitir uma prática que passou a ser ilegal costuma levar à subdeclaração. Ainda assim, o resultado contraria a tese, sustentada por integrantes da equipe econômica, de que a proibição apenas “troca de mão” o dinheiro do consumo. Parte relevante desse dinheiro migrou para o mercado clandestino, sem tributação, sem proteção ao apostador e sem fiscalização. Ou seja, proibir as bets não elimina a demanda — transfere os bilhões de arrecadação, mais de 15 mil empregos diretos e todo o financiamento esportivo para operadores clandestinos, sem qualquer controle do Estado.

A pesquisa também mostra que os apostadores relatam situação financeira mais frágil. Entre eles, 32% classificam o endividamento familiar como ruim ou péssimo, contra 20% entre os não apostadores. O levantamento, porém, não permite estabelecer relação de causa e efeito.

Conclusão

A pesquisa ANJL/Nexus confirma que a proibição das bets é popular, mas mostra que ela não converte eleitores e não tira o apostador do jogo. A medida apenas empurrou parte dele para fora do sistema regulado.


Nexus – Bets & Eleições (22.10.2026)


Proibição das bets não conquista votos, mas pode custar a eleição

 

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