Flávio acena aos clubes, mas não promete a volta das bets

A notícia mais animadora para o setor de apostas desde 25 de setembro não veio de Brasília, nem do Supremo. Veio de um telefonema. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, um dia depois da publicação da MP 1.394/2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL) ligou para o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e garantiu que, se eleito, encontrará uma solução para os clubes e para as casas de apostas.
O jornal ouviu três pessoas ligadas ao futebol e à campanha. Todas confirmam o aceno. E todas confirmam também o limite dele: Flávio não se comprometeu a restabelecer a autorização para que as empresas voltem a operar.
É nessa distância entre “encontrar uma solução” e “devolver a legalidade” que está o ponto central desta análise. A dois dias do segundo turno, o setor tem razões concretas para se animar. E tem razões igualmente concretas para não confundir sinal com compromisso.
A bandeira que não deu voto
O governo apostou na proibição como trunfo eleitoral e perdeu a aposta. O Datafolha de 1º de outubro mostrava 78% dos brasileiros favoráveis ao fim das bets. Três dias depois, Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% dos votos contra 45,16%.
A pesquisa Quaest desta quarta-feira (21) reforça o diagnóstico. Entre as medidas do governo lembradas pelos eleitores, a proibição das bets aparece empatada com o pacote para os microempreendedores individuais (MEIs), com apenas 11% cada. A medida que o governo tratou como o “plebiscito” da eleição, em vigor desde 25 de setembro e repetida à exaustão na campanha, tem o mesmo recall de um pacote anunciado em 13 de outubro, a 12 dias do segundo turno. Aprovar uma proibição quando perguntado é uma coisa; lembrar dela na hora de votar é outra.
A própria Folha registra o que o BNLData vem apontando desde o início: assessores de Lula avaliam que o efeito positivo da medida foi menor que o esperado. O presidente passou a evitar o tema. A rejeição às bets nas pesquisas nunca se converteu em voto, e a proibição provocou um efeito rebote entre clubes, veículos de comunicação e os próprios apostadores.
Não foi por falta de aviso. O governo leu as pesquisas de rejeição e ignorou quem perderia com a medida: o apostador recreativo, o torcedor, o trabalhador do setor. Agora, segundo a reportagem, parlamentares do centrão já avaliam liberar as bets depois das eleições. A MP, que nasceu como arma de campanha, chega ao Congresso como passivo.
O que Flávio disse — e o que não disse
Os acenos são reais. Flávio afirmou que a proibição feita “com uma canetada” agrediu a segurança jurídica, os clubes e as empresas do setor. É o mesmo diagnóstico que operadores, entidades e o BNLData fazem desde a edição da MP. No dia do telefonema a Bap, publicou no X uma enquete sobre o voto dos flamenguistas. Dias depois, incentivou o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, a votar nele.
Mas o histórico pede prudência. O senador votou contra a regulamentação do setor, aprovada em 2023. Durante a campanha, associou Lula ao “jogo do tigrinho”. E, até a publicação da reportagem, sua campanha não respondeu às perguntas da Folha, enviadas desde 8 de outubro.
“Solução” pode significar muita coisa. Pode ser a volta integral do marco legal. Pode ser uma nova lei, com novas regras e novos prazos. Pode ser apenas um socorro aos clubes, sem as empresas. Enquanto o candidato não disser qual delas, o setor estará apostando no escuro, mas a alternativa, porém, é mais cruel.
O risco do meio-termo
O sinal mais preocupante da reportagem está numa frase quase lateral: Flávio defende diferenciar cassinos virtuais de apostas esportivas. Não é uma ideia isolada. Segundo o Estadão, o próprio Lula foi aconselhado, antes da MP, a proibir apenas os cassinos online. Quando os dois lados da disputa flertam com o mesmo recorte, ele deixa de ser hipótese e vira um caminho possível.
Seria um erro. A Lei 14.790/2023 tratou apostas esportivas e jogos online como partes do mesmo mercado regulado, sob as mesmas outorgas, as mesmas regras de proteção ao apostador e a mesma fiscalização. Mesmo com o mercado regulado funcionando, o ilegal ainda respondia por mais de 40% da atividade. Reabrir só as apostas esportivas manteria toda a demanda por jogos online fora do alcance do Estado, nas mãos de quem não paga imposto, não verifica idade e não protege ninguém.
O “tigrinho” não desaparece por decreto. Ele apenas muda de endereço. A diferença é se esse endereço tem CNPJ, licença e regras, ou um servidor em outro país.
O futebol como fiador e a sombra da PF
O futebol virou a principal força política contra a proibição. O Flamengo entrou como parte na ação que questiona a MP no STF, relatada pelo ministro Luiz Fux. Trocou o patrocínio máster pela frase “proibir não é proteger”. Os clubes boicotaram a reunião com o governo, com o aval discreto do presidente da CBF, Samir Xaud. E o Fla-Flu de 11 de outubro virou protesto nacional, em rede aberta com direito a xingamento ao candidato à reeleição pelo PT.
Há, porém, uma sombra sobre o aceno de Flávio. A Polícia Federal investiga se ele é sócio indireto do advogado Willer Tomaz, considerado o maior apostador do mercado regulado em 2025. Qualquer reabertura conduzida por um eventual governo Flávio será lida sob essa suspeita. Quem defende a proibição já tem o argumento pronto.
Vale lembrar um detalhe que o debate costuma esquecer: só foi possível rastrear essas movimentações porque o mercado era regulado. Com a proibição, esse tipo de rastro some. Por isso, a saída precisa ser institucional, e não um favor de candidato. O caminho é o Congresso, na análise da MP, e o Supremo, no julgamento das ações.
O que o setor precisa exigir
O cenário de hoje é melhor que o de setembro. A proibição perdeu força eleitoral, o governo recuou do discurso, o centrão se movimenta e o principal adversário de Lula critica a medida em público. Mas ânimo não é estratégia.
Seja quem for o presidente a partir de 1º de janeiro, o setor deve cobrar três coisas, com clareza:
⇒ A volta do marco legal de 2023 por inteiro, com apostas esportivas e jogos online, e não um recorte negociado.
⇒ Respeito às outorgas já pagas e à segurança jurídica de quem investiu confiando no Estado.
⇒ Uma solução pelo Congresso e pelo STF, que não dependa da boa vontade de um governante nem fique exposta às suspeitas de uma investigação.
O telefonema para Bap mostra que a porta está entreaberta. Cabe ao setor garantir que ela se abra inteira. Porque, como venho repetindo há anos, o jogo é legal ou ilegal; o não jogo é impossível.


