Proibição das bets não conquista votos, mas pode custar a eleição

Apostas I 23.10.26

Por: Magno José

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Proibição das bets não conquista votos, mas pode custar a eleição
Pesquisa ANJL/Nexus mostra que a MP converteu quase ninguém, empurrou um em cada cinco apostadores para o mercado ilegal e deixou 38% dos brasileiros sem representação num 2º turno empatado

O governo tratou a proibição das bets como trunfo eleitoral. Editou a Medida Provisória nº 1.394/2026 a dez dias do 1º turno, levou o tema à propaganda e chegou a falar em “plebiscito das bets”. A quatro dias do 2º turno, a pesquisa da Nexus, encomendada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), mostra o resultado da aposta: a medida não conquistou eleitores, não tirou o apostador do jogo e criou um contingente de descontentes que nenhuma campanha decidiu representar.

Numa disputa em que Flávio Bolsonaro e Lula aparecem empatados com 50% dos votos válidos no Datafolha de 22 de outubro, esse descuido pode ter preço.

Uma bandeira que não converte

Os números da Nexus são eloquentes. Entre os eleitores que votaram no 1º turno e sabiam da proibição, só 6% mudaram de candidato por causa dela, cerca de 1% do eleitorado. No 2º turno, 77% dizem que o tema não terá influência alguma. Entre os que admitem algum efeito, 80% afirmam apenas que ele reforça uma escolha já feita.

A proibição, portanto, falou a quem já estava convencido. O grupo que se diz influenciado é justamente o que mais apoia a medida (74%), tem percepção econômica mais otimista e prioriza temas da agenda governista. O governo gastou capital político, desorganizou um setor regulado e comprometeu receitas públicas para, na melhor das hipóteses, consolidar votos que já eram seus.

O próprio comportamento do candidato à reeleição confirma o diagnóstico. Lula não citou as bets na sabatina da TV Globo nem no debate da Band. Bandeiras que rendem votos não costumam ser escondidas na reta final.

O apostador não sumiu, foi empurrado para a ilegalidade

O dado mais grave da pesquisa não é eleitoral. Antes da MP, 18% dos entrevistados apostavam em sites ou aplicativos de bets. Depois dela, 4% da amostra continuam apostando em sites que seguem no ar. É cerca de um em cada cinco ex-apostadores, e mais da metade deles (52%) usa o mesmo site de antes.

O número tende a estar subestimado, já que poucos admitem a um entrevistador, por telefone, uma prática que se tornou ilegal. Ainda assim, desmonta a promessa central da medida. O apostador que o governo dizia proteger perdeu o limite de depósito, a autoexclusão, a verificação de identidade, a vedação ao crédito e o canal de reclamação. Continua jogando, agora sem nenhuma dessas proteções, e o Estado deixou de arrecadar e de fiscalizar.

É a confirmação, em números, de uma verdade antiga do setor: o jogo é legal ou ilegal; o não jogo é impossível. Proibir não elimina a demanda, apenas entrega o mercado a quem não paga imposto, não responde a regulador e não tem compromisso com o jogo responsável.

O eleitor que ninguém representa

A pesquisa traz um dado favorável ao governo: 59% querem manter a proibição. Mas o número esconde mais do que revela. Em setembro, a Atlas/Bloomberg registrava 75% de apoio. A queda acontece quando o eleitor recebe uma alternativa que o debate público costuma omitir: 32% preferem que as bets voltem a funcionar com regras mais rígidas e mais fiscalização.

Somados aos 6% que defendem a volta nas regras anteriores, são 38% dos brasileiros, e 55% dos apostadores, favoráveis ao retorno das apostas em alguma forma. Esse é o eleitor da regulação, não da liberação irrestrita. Hoje ele não tem porta-voz claro em nenhuma das campanhas.

O perfil desse eleitorado também desmente algumas apostas do Planalto. Entre os evangélicos, público que o PT esperava atrair com a proibição, o apoio à medida (55%) fica abaixo da média, e 43% querem as bets de volta. Entre os evangélicos que se dizem influenciados no 2º turno, 11% ainda estão em dúvida, o maior índice entre os grupos religiosos.

Onde a conta pode chegar

Num 2º turno empatado, cada ponto percentual vale mais de um milhão de votos. A Nexus identifica cerca de 5% do eleitorado com o voto aberto ao tema: os que podem mudar de candidato, os que ainda vão decidir e os que ficaram em dúvida. Os grupos mais sensíveis são os jovens de 16 a 24 anos, entre os quais 30% dizem que a proibição pesará no voto, os apostadores e as torcidas de futebol, que já levaram o protesto ao Fla-Flu.

A proibição também atinge temas que pesam muito mais na decisão do voto do que as bets isoladamente. Segurança pública, citada por 38% dos eleitores, perdeu recursos que a arrecadação do setor destinava a fundos como o da Polícia Federal. O mercado ilegal que cresce com a MP é terreno do crime organizado. E clubes de futebol, emissoras e milhares de trabalhadores do setor perderam receitas e empregos. Quando o tema deixa o campo moral e chega ao bolso, à segurança e ao futebol, o eleitor indiferente pode deixar de ser indiferente.

O que a pesquisa ensina

A primeira lição é para o governo. Políticas públicas baseadas em pesquisas de rejeição ignoram o comportamento real das pessoas. O brasileiro diz rejeitar as bets, mas uma parcela significativa continua apostando, agora sem proteção. Proibir é fácil de anunciar e impossível de cumprir.

A segunda lição vale para o Congresso e para o STF, que decidirão o destino da MP depois de domingo. Encerrada a eleição, desaparece a justificativa eleitoral. Restam os fatos: um mercado ilegal fortalecido, apostadores desprotegidos, receitas públicas perdidas e um setor que, em menos de dois anos de regulação, estava sendo trazido para a legalidade.

A terceira lição é para quem defende o jogo legal. A disputa não se vence defendendo as bets, mas defendendo a regulação. É essa a posição de um terço dos brasileiros e de quase metade dos apostadores, e é ela que pode, numa eleição decidida voto a voto, fazer a diferença.

Pesquisa ANJL/Nexus: proibição das bets mudou o voto de apenas 1% dos eleitores no 1º turno

 

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