Jogo de azar está na pauta do Senado

Destaque I 12.12.16

Por: sync

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Sumidos da paisagem brasileiras há 70 anos, os cassinos podem voltar a operar no país. Um passo importante será dado amanhã, para quando está prevista a votação no plenário do Senado do projeto de lei que pretende legalizar a exploração dos jogos de azar no Brasil. Mas a ideia de devolver à "jogatina" um status de legalidade ainda enfrenta fortes resistências dentro e fora do Congresso Nacional.

Além de cassinos, o projeto de lei 186, relatado pelo senador Fernando Bezerra (PSB-PE), torna legais o bingo e o jogo do bicho; jogos eletrônicos, videoloteria e videobingo; e apostas esportivas e cassinos online.

Bezerra defende seu projeto como uma oportunidade de geração de uma receita expressiva para o governo. Pelos seus cálculos, somente nos três primeiros anos de implementação, a legalização dos jogos gerará uma receita de R$ 29 bilhões, em arrecadação de impostos e concessão de outorgas.

Pela proposta, 91% da receita com impostos será destinada à Seguridade Social, 3% para o Fundo Penitenciário Nacional, 2% para a Polícia Federal, 2% para o Fundo Nacional de Cultura e 2% para ações de apoio ao esporte olímpico e paralímpico. "Estes recursos serão fundamentais para o aperfeiçoamento do combate à corrupção, ao crime organizado e à lavagem de dinheiro”, disse Bezerra.

Pelo projeto, quatro de cada dez cassinos deverão estar nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a fim de "buscar a promoção do desenvolvimento regional e o desenvolvimento turístico". Um instrumento para o combate à sonegação e à lavagem de dinheiro, diz, será a obrigatoriedade de identificar todas as pessoas que entrarem em bingos e cassinos.

O tema foi acompanhado de perto por diversos lobbies de potenciais investidores estrangeiros e nacionais. Representantes de cassinos de Portugal, Las Vegas, Macau e Cingapura, além de representantes de diversos lobistas brasileiros, estiveram na Câmara dos Deputados, onde tramita, em regime de urgência, um projeto concorrente ao de Bezerra.

O fato de o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) ter pautado a matéria para votação na sessão de amanhã, dá ideia da força desses lobbies. Mas a legalização de jogos de azar no Brasil também tem fortes opositores.

No Congresso, enfrenta a resistência das bancadas evangélica e católica. Um dos mais ferrenhos combatentes é o senador Magno Malta (PR-ES). Ex-pastor da Igreja Batista, ele vai apresentar um requerimento para retirar a proposta de plenário e remetê-lo à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a fim de “verificar a constitucionalidade desse projeto”. Se aceito, o requerimento servirá também para arrastar a tramitação.

"O Brasil se tornará, com esse projeto, o paraíso da contravenção", diz Malta, apontando a precária fiscalização e a extensa fronteira, que podem atrair máfias para lavar dinheiro no país. "O dinheiro do narcotráfico será lavado aqui, o dinheiro da corrupção será lavado aqui, o dinheiro da propina será lavado aqui".

Na Câmara, o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) é também radicalmente contra a volta dos jogos de azar. Hauly liderará na manhã de terça, em paralelo à votação no Senado, uma Comissão Geral no plenário da Câmara com convidados opositores à legalização.

Representantes de igrejas e do Ministério Público já se manifestaram contra a legalização dos jogos. E a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip) rechaça a ideia.

Ricardo Gazel, economista brasileiro que já trabalhou no Federal Reserve (banco central dos EUA) e no Banco Mundial, é um dos que contestam o otimismo de Bezerra em relação aos benefícios da liberação. Autor de um estudo que mostra aumento da criminalidade em locais onde o jogo foi legalizado nos EUA, ele prevê que o governo tende a perder em vez de ganhar receita com a legalização dos jogos. Em sua opinião, os gastos com segurança e saúde tendem a subir mais do que qualquer verba adicional advinda dos jogos. "Nos debates no Congresso, só se olharam os benefícios, não os custos da legalização", diz ele.

A espanhola Codere, uma das maiores empresas do mercado europeu de jogos de azar, com receita de 1,6 bilhão de euros em 2015, aguarda há dez anos a liberação desse tipo de negócio no Brasil. André Gelfi, seu diretor, não prevê avanços. "Os projetos de lei são polêmicos e o governo não se pronuncia", diz.

Enquanto o sinal verde não chega, a Codere administra apostas em corridas de cavalos, mas este segmento está encolhendo – os apostadores estão envelhecendo e os jovens não se interessam por esse tipo de jogo. Nesse cenário, a Codere também encolheu neste ano no Brasil – até setembro, faturou 1,2 milhão de euros, com cinco salas de apostas e uma tentativa de atrair novos apostadores pela internet. No mesmo período do ano passado, havia faturado 1,8 milhão de euros, com sete salas de apostas. Dois pontos de vendas foram fechados pois o contrato com o Jockey Clube do Rio não foi renovado. (Valor Econômico – Por Fabio Murakawa – De Brasília – Colaborou Cynthia Malta, de São Paulo)
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