Ilegais, caça-níqueis se instalam próximos a delegacias da Capital.
Mesmo proibidos por lei, os caça-níqueis funcionam livremente em São Paulo e estão instalados em locais próximos à Polícia Civil. Um delegado que prefere não se identificar e que conhece todas as delegacias paulistanas afirma que os caça-níqueis são explorados nas imediações — numa distância máxima de três quilômetros — de 92 dos 93 distritos policiais da Capital.
A exceção é o 100º DP (Jardim Herculano), no extremo da Zona Sul de São Paulo. Segundo o assessor especial da Procuradoria Geral de Justiça, promotor Carlos Cardoso, a exploração das máquinas de jogo de azar é contravenção penal, caracteriza crime contra a economia popular e estelionato.
Os equipamentos estão instalados em bares, lanchonetes e padarias. Muitos desses estabelecimentos comerciais ficam em frente ou a menos de 50 metros das delegacias.
O DIÁRIO esteve no o 2º DP (Bom Retiro), 3º DP (Campos Elíseos) —- mesmo prédio da 1ª Seccional (Centro) —, 4º DP (Consolação), 32º DP (Itaquera) 33º DP (Pirituba), 35º DP (Jabaquara), 39º DP (Vila Gustavo), 65º DP (Artur Alvim), 66º DP (Vale do Aricanduva) e 81º DP (Belém) — onde fica o prédio da 5ª Delegacia Seccional (Leste).
Os caça-níqueis são explorados a menos de um quilômetro desses dez distritos. Em frente ao 66º DP e ao 81º DP, jogadores tentavam a sorte, ontem à tarde, descontraidamente.
Segundo o Ministério Público, em São José dos Campos e Taubaté, no Vale do Paraíba (SP), as máquinas caça-níqueis eram uma espécie de “galinha dos ovos de ouro” da Polícia Civil. Promotores do Gaerco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) realizaram uma devassa em estabelecimentos comerciais das duas cidades.
O MP denunciou 11 policiais civis — incluindo dois delegados — de São José dos Campos e Taubaté envolvidos na exploração de caça-níqueis. Eles são acusados de formação de quadrilha, corrupção passiva, concussão (extorsão cometida por funcionário público), prevaricação e também por advocacia administrativa (quando o acusado deixa de cumprir sua função no cargo).
Segundo o promotor Carlos Cardoso, foram gravadas 250 horas de conversas telefônicas dos envolvidos. Também foram denunciadas mais 14 pessoas — nove empresários, dois advogados e três funcionários de locais com caça-níqueis. Outros 19 policiais são investigados. As denúncias causaram o afastamento da cúpula da Polícia Civil no Vale do Paraíba. A Secretaria da Segurança Pública não comenta o caso porque as investigações correm em segredo de Justiça.
O jogo de azar é considerado contravenção e também crime contra a economia popular. Mas na Capital, assim como em todo o estado, os caças-níqueis são explorados livremente. Em São José dos Campos, as investigações indicaram que os policiais acusados criaram um selo que identificava a máquina como “liberada”. Os caça-níqueis sem a “autorização” eram apreendidos. Cada selo custava R$ 350. O MP diz que a propina rendia pelo menos R$ 400 mil por mês aos policiais civis.
Diário de São Paulo (SP) – Josmar Jozino


