Presidente da CEF abre licitação para contrato de US$ 100 milhões da Gtech nas loterias.

Loteria I 09.09.04

Por: sync

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O presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Jorge Mattoso, se viu às voltas com a polícia em dois momentos- chave de sua vida. Na década de 70, era estudante e militante de esquerda.
Foi preso, torturado e exilado. De volta ao Brasil, foi professor da Unicamp, militou no PT, virou secretário do Trabalho de São Paulo e, desde o início do governo, é presidente da Caixa.
O segundo momento foi a invasão do prédio da CEF. Agentes da Polícia Federal diziam buscar documentos em meio ao escândalo de corrupção do ex-assessor do governo Waldomiro Diniz.
No centro da disputa, está um contrato de US$ 100 milhões com a firma Gtech para processar loterias da CEF. A oposição diz que Diniz cobrava propina da Gtech para tratar do contrato. A empresa americana nega. Mattoso diz que Diniz agia por conta própria e afirma ter um trunfo: a Justiça acaba de dar ganho de causa a um pedido feito antes do escândalo.
A CEF poderá dividir o contrato e fazer quatro licitações. Na prática, fica mais fácil obter concorrentes para a Gtech. O edital sairá entre 60 e 90 dias.
Ex-militante que virou banqueiro, Mattoso diz que o governo Lula é de esquerda.
“É a esquerda das condições de hoje.” Seu maior desafio na CEF, além do escândalo Diniz, é manter a rentabilidade sem cobrar tarifas e juros como os bancos privados. “Precisaremos de sintonia fina”, disse a ÉPOCANEGÓCIOS.
ÉPOCA – Como o senhor avalia a decisão da Justiça em relação à Gtech? 
Jorge Mattoso – É o reconhecimento sobre nosso posicionamento. Queríamos dividir o contrato e licitar cada pedaço. Há cerca de três anos, a Gtech entrou na Justiça e nos engessou. Agora é uma corrida contra o tempo.
ÉPOCA – O que muda?
Mattoso – Outras empresas podem participar da licitação. Na parte de transmissão de dados, por exemplo, empresas telefônicas e de transmissão devem participar. O mesmo acontece na manutenção, nos equipamentos etc.
ÉPOCA – Falava-se que só a Gtech podia fazer os serviços. É verdade?
Mattoso – Como um todo, só a Gtech fazia. Mas, hoje, se fosse feita uma licitação para a totalidade, haveria até oportunidade para outra empresa participar. Uma empresa internacional.
ÉPOCA – Vocês convidaram outra?
Mattoso – Não. Mas sei de empresas que têm interesse. A Olivetti esteve conversando com a Caixa e tem uma área capaz de dar suporte tecnológico.
ÉPOCA – A Gtech pode sair da Caixa? 
Mattoso – Pode ou não. Se tiver preço e condições técnicas, pode ganhar o que tiver condições. Não me parece que isso seja um problema para a Caixa.
ÉPOCA – E a tecnologia da Gtech? 
Mattoso – Não dá para a Caixa tirar tudo e assumir todos os serviços hoje. Mas estamos desenvolvendo parte do processo e podemos ter uma transição.
ÉPOCA – Como o senhor avalia a invasão da Caixa pela Polícia Federal?              Mattoso – A Caixa tem demonstrado seu apreço pelas instituições de fiscalização e investigação, mas não pode admitir que se extrapolem determinações legais. Ficamos surpresos com o aparato bélico usado no dia 12 de agosto. A PF cumpriu uma determinação legal, mas se excedeu.
ÉPOCA – O senhor já foi preso por motivos políticos. Como lidou com a invasão?
Mattoso – Foi uma situação ruim, de desrespeito com as instituições e com a Caixa.
ÉPOCA – Como está a Caixa?
Mattoso – No primeiro semestre a Caixa apresentou um bom desempenho. Esperamos fechar o ano com lucro de R$ 1,2 bilhão e lucramos R$ 623 milhões no semestre.
ÉPOCA – Mas o lucro caiu… 
Mattoso – Sabíamos que seria inferior ao ano passado porque a CEF tem muitos títulos públicos, resultado do aporte do governo em 2001. Quando os juros caem, esses títulos rendem menos.
ÉPOCA – E se os juros caírem mais? 
Mattoso – Estamos com um grande esforço para aumentar a concessão de empréstimos. Vamos abrir 500 agências até 2006. No primeiro semestre, as operações de crédito aumentaram 28%. Mas ainda é insuficiente para compensar a queda de 10 pontos na Selic (juros do governo). Ainda mais porque não fazemos certas coisas.
ÉPOCA – Que coisas? 
Mattoso – Não aumentamos tarifas nem operamos com o câmbio. Cobramos juros mais baixos que a concorrência. Se olhar os balanços, boa parte dos lucros dos bancos vem daí.
ÉPOCA – E como fica a rentabilidade? 
Mattoso – Essa é uma equação difícil. Daqui para a frente, vai exigir maior sintonia fina. Por enquanto, estamos indo bem.
ÉPOCA – Como funcionará o novo programa de financiamento habitacional? 
Mattoso – Esse produto permite o financiamento direto ao construtor, de até 100% do custo da obra. Para 2004, já estão disponíveis R$ 360 milhões.
ÉPOCA – Quem será beneficiado? 
Mattoso – Ao final, os financiamentos vão beneficiar quem ganha até R$ 4.500. Também estamos estudando um modo de aliviar os custos para quem pega financiamento e, ao mesmo tempo, paga aluguel.
ÉPOCA – Em que o governo Lula é diferente do anterior? 
Mattoso – Pela primeira vez nas últimas décadas temos a possibilidade de obter crescimento econômico sustentado. É completamente diferente do que ocorreu no pós-Real, em que se discutia o modelo do câmbio e qual seria a inflação. Ao mesmo tempo, está havendo uma intensificação dos programas sociais, como o Bolsa-Família e iniciativas de distribuição de renda.
ÉPOCA – O senhor ainda é de esquerda? 
Mattoso – Não sinto que no passado fosse de esquerda. Continuo sendo de esquerda nas condições do Brasil e do mundo, no início do século XXI. E acho que este governo é de esquerda, sim. Nessas condições. Não é o governo de esquerda que seria nos anos 50 ou 40.
ÉPOCA – E o que o senhor achou da vida de banqueiro? 
Mattoso – Grosso modo, minha vida não mudou em nada. Continuo no mesmo apartamentozinho. Estou só trabalhando muito mais, minha responsabilidade é maior. Não tirei férias ainda, estou cansado. 

Revista Época – Econômia e Negócios – Ricardo Grinbaum 

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