Análise: Debate sobre regulamentação das apostas esportivas, pastor na comitiva em Londres e crescimento das igrejas evangélicas

O noticiário do fim de semana nos obriga a uma reflexão sobre o mercado de jogos, loteria e apostas no país.
O debate promovido pela editoria de Opinião da Folha de São Paulo do último sábado (17) sobre se ‘As apostas esportivas eletrônicas devem ser regulamentadas?’, registra uma opinião favorável e outra contrária.
A manifestação do advogado Bernardo Cavalcanti Freire segue o pensamento óbvio dos defensores dos jogos legalizados e regulados. A necessidade de que o governo regulamente o mais rápido possível e destaca que a lei 13.756/2018 somente poderia ser revogada em nova votação no Congresso Nacional. O sócio do escritório Wald, Antunes, Vita e Blattner Advogados finaliza comentando que “sem essa regulamentação, todos os que têm interesse em investir no setor, a sociedade e o governo perdem. É como se, nesse tema, o Brasil estivesse nos anos 1940, sujeito à vontade pessoal de dona Santinha”.
No melhor estilo Dona Santinha, em pleno Século XXI, quando o mundo já discute as apostas, jogos e loterias no ambiente do metaverso, o funcionário do gabinete do senador Eduardo Girão (Podemos-CE) e representante do Movimento Brasil sem Azar, Roberto Lasserre manifesta-se contrário a regulamentação do jogo online através do artigo ‘Modelo coloca em risco a honestidade e a imparcialidade da prática esportiva‘, que segundo ele “é uma grande porta aberta para crimes graves, como lavagem de dinheiro da corrupção e do tráfico, entras outras transgressões de colarinho branco”. Ainda segundo o advogado, o jogo legalizado “só trará lucro para um pequeno grupo de empresários, além de prejuízos sociais irreversíveis para o país inteiro”.
Prejuízo é o fato do advogado, contratado como Assistente Parlamentar Intermediário (Função AP 10) no gabinete do senador Eduardo Girão no Senado Federal trabalhar contra a necessidade do Estado legalizar, regular e controlar uma atividade que encontra-se na informalidade e garantir a proteção dos apostadores e segurança jurídica para a operação e operadores.

Pastor que se opõem ao jogo viaja com Bolsonaro para Londres
O presidente Jair Bolsonaro, desembarcou em Londres na manhã deste domingo (18) para participar do funeral da rainha Elizabeth II. Nas redes sociais, o presidente publicou uma foto com o pastor Silas Malafaia e o padre Paulo Antônio de Araújo. O deputado Eduardo Bolsonaro, que também acompanha o pai na viagem, compartilhou fotos de dentro do avião. A comitiva do presidente também inclui a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, o ex-secretário de Comunicação do governo Fabio Wajngarten e o senador Flávio Bolsonaro.
Um dos maiores opositores da legalização dos jogos, o pastor Silas Malafaia viaja no avião presidencial, hospeda-se na casa do embaixador e usa o carro oficial da embaixada. Com qual prerrogativa? Por que um pastor no funeral no exterior junto com Bolsonaro?
O poder de atores como o pastor Silas Malafaia, do deputado Sóstenes Cavalcante (da mesma igreja do Malafaia), do deputado Marco Feliciano e do senador Eduardo Girão junto ao presidente Jair Bolsonaro, foi construído a partir da eleição de 2018.
Por falar em evangélicos…21 igrejas por dia…
Reportagem de destaque no O Globo deste domingo revela o crescimento dos evangélicos no país. Segundo o jornal carioca, 21 igrejas evangélicas foram abertas por dia no Brasil — quase uma por hora — ao longo da última década, indicam dados inéditos compilados pelo GLOBO. Série de reportagens vai mostrar como, nos últimos 30 anos, o crescimento dos templos evangélicos no Brasil acompanhou o aumento do protagonismo político do segmento no país.
O levantamento marca o início de uma série de reportagens sobre a expansão evangélica, fenômeno que obriga as campanhas do presidente Jair Bolsonaro (PL) e do ex-presidente Lula (PT) a fazer gestos diários para o público, seja com visitas a pastores em igrejas ou em entrevistas para podcasts direcionados ao segmento.
Só na última década, entre 2013 e 2022, foram 71,7 mil unidades abertas — volume que corresponde a 80% dos novos templos de todas as religiões cadastrados no período. Desde os anos 1970, só houve uma abertura maior de igrejas católicas do que evangélicas em 1971, quando os católicos abriram 1.702 novos CNPJs, e os evangélicos, 918. A liderança do ranking de criação de templos, com 34 mil aberturas nesta década, é do conjunto de igrejas evangélicas “diversas”, que não se enquadram em nenhuma das principais denominações do país. São ramos e ministérios, em muitos casos, com uma dezena de templos ou menos. A abertura de templos é fundamental para atrair fiéis. A transição religiosa começa pela periferia, onde outras religiões não se fizeram presentes no mesmo ritmo da concentração populacional.
Seguir exemplo das melhores práticas
Os religiosos que criticam a possibilidade de legalização dos jogos deveriam refletir sobre as melhores práticas adotadas nas nove maiores economias do mundo – Estados Unidos, China Japão, Alemanha, Índia, França, Reino Unido, Itália e Canadá –, que têm o jogo legalizado e regulamentado. Quando os EUA de tradição evangélica (48.5%) e católica (22.7%), legalizou e acolheu o jogo no seu sistema jurídico, foi porque percebeu que existindo demanda ‘alguém’ vai prestar o serviço.
Na verdade, o funcionamento dessas atividades de forma clandestina não traz nenhum ganho ao nosso país. Pelo contrário, reforça a imagem, junto à nossa população e à comunidade estrangeira, de que somos uma nação complacente com atividades ilegais. Que fique bem claro para os evangélicos: O jogo não desagrega a família, o que desagrega a família é a fome e o desemprego.


