Atendimento médico para vício em apostas cresce 104% no país

Apostas I 12.09.26

Por: Magno José

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Teleatendimento pelo SUS marca avanço no enfrentamento à ludopatia no Brasil
Ministério da Saúde registrou 10.553 casos entre 2018 e 2025, impulsionando a ampliação de serviços de teleatendimento para até 100 mil mensais

A busca por atendimento médico e psicológico relacionado ao vício em apostas online cresceu 104% no Brasil entre janeiro de 2018 e maio de 2025. O Ministério da Saúde registrou 10.553 atendimentos ligados a jogo patológico e mania de jogo no Sistema Único de Saúde (SUS) no período. Especialistas alertam que o número real é ainda maior, dado que a pasta reconhece subnotificação nos registros.

O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) estima que 7,3% da população brasileira, equivalente a 10,9 milhões de pessoas, já apresenta padrão de jogo de risco ou problemático. Cerca de 1,4 milhão desenvolveu dependência relacionada às apostas, segundo os dados apurados e divulgados pelo jornal O Globo.

O cenário impulsionou uma ampliação dos serviços públicos de saúde. Em março deste ano, o Ministério da Saúde criou uma estratégia de teleatendimento específica para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, com capacidade inicial de 600 atendimentos mensais. Diante da alta demanda, o serviço foi ampliado para até 100 mil teleatendimentos mensais. Desde o fim de março, 27.703 pessoas se cadastraram para receber o atendimento, conforme dados do ministério.

Desde dezembro de 2025, quando o governo federal lançou uma ferramenta de autoexclusão de plataformas de apostas, mais de 1 milhão de pessoas se inscreveram no serviço, segundo informações da Agência Brasil.

Tratamento integrado

Os especialistas defendem que o tratamento mais eficaz para o transtorno do jogo, nome oficial do vício em apostas, vai além do foco exclusivo no comportamento de apostar. A proposta mais atualizada reúne, em um único plano terapêutico, cuidado psiquiátrico, acompanhamento financeiro, suporte familiar e atenção social.

O psiquiatra Rodrigo Machado, pesquisador em dependências comportamentais pela Universidade de São Paulo (USP) e co-coordenador do Programa Elibrè para Jogos & Apostas, descreve o padrão comum entre os pacientes: a busca por ajuda começa pelo psicólogo, avança para o psiquiatra e, em muitos casos, o próprio paciente tenta reorganizar as finanças enquanto a família atua por conta própria. Cada frente funciona de forma isolada.

“A grande maioria dos programas de tratamento para transtorno do jogo ainda foca quase exclusivamente no comportamento de apostar, ou seja, em apenas uma das facetas do adoecimento. Mas o que a ciência tem visto é que o processo de adoecimento é muito complexo e multifacetado”, afirmou Machado.

O médico Ary Ribeiro, diretor-executivo da Elibrè, instituição de saúde mental localizada em Cotia, na Grande São Paulo, aponta outro impacto do transtorno: cada pessoa com a condição afeta, em média e de forma estimada, ao menos seis pessoas ao seu redor. “A fragmentação do cuidado é um problema crítico no Brasil e atravessa praticamente todas as especialidades da saúde. Na saúde mental, porém, ela ganha proporção ainda maior porque o adoecimento nunca é individual”, afirmou Ribeiro.

O diretor-executivo acrescenta que os pacientes costumam procurar ajuda apenas em estágio avançado da condição. “Quando somamos esses fatores, o tratamento se complica, o risco de recaída aumenta e o adoecimento pode se estender à própria rede de apoio. É exatamente essa cadeia que um modelo integrado interrompe”, completou.

Déficit de especialistas e serviços

Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), divulgado em 2025 sobre o impacto das bets na saúde e economia, identificou que a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) enfrenta falta de profissionais especializados e de espaço físico para o tratamento. O relatório apontou: “Há problemas na articulação entre as áreas responsáveis, falta de indicadores específicos para monitorar o problema e poucas campanhas de conscientização sobre os riscos do vício. Além disso, o número de atendimentos registrados como jogo patológico pode estar subestimado e as ações para detectar precocemente casos de dependência são limitadas.”

O transtorno do jogo é classificado como dependência comportamental pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) desde 2013. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também reconhece a condição na 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID-11).

Como identificar o transtorno

Na prática clínica, o elemento central para identificar o transtorno é a perda de controle. O psiquiatra Emílio Tazinaffo, pesquisador em dependências comportamentais pela USP e co-coordenador do Programa Elibrè para Jogos & Apostas, descreve três perguntas que rastreiam o adoecimento com quase 100% de sensibilidade:

⇒ Se o indivíduo usa o jogo para se desligar ou fugir dos problemas;

⇒ Se fica buscando as perdas, apostando para recuperar o que perdeu;

⇒ Se perdeu o controle; como planejar apostar R$ 10 e acabar gastando R$ 200.

“Se a pessoa tem esses três sintomas, a chance de estar adoecida é de quase 100%”, afirmou Tazinaffo.

Os grupos mais suscetíveis ao transtorno incluem jovens com o cérebro ainda em desenvolvimento, pessoas de classe socioeconômica mais baixa e indivíduos com outros transtornos psiquiátricos. Tazinaffo ressalta, porém, que o perfil não é exclusivo: “Um fenômeno muito triste dos transtornos do jogo que vemos na prática clínica são muitos pais ou mães de família, super responsáveis, que não tinham nenhuma outra dependência, começaram a brincar de bobeira e migraram com o adoecimento.”

O papel das plataformas digitais

As plataformas online têm poder aditivo muito superior ao das apostas feitas em estabelecimentos físicos. Entre usuários de plataformas digitais, 66,8% apresentam padrão de risco ou problemático, ante 26,8% em outras modalidades de aposta, segundo os dados do LENAD III.

O mecanismo está ligado à imprevisibilidade. “Sempre que pensamos em apostas, achamos que o apostador fica muito fissurado em ganhar. É óbvio que ganhar é muito importante. Mas, mais do que só ganhar, ele fica dependente da imprevisibilidade do processo. A aposta é uma atividade extremamente imprevisível e nosso cérebro é mais dependente da imprevisibilidade do resultado do que do resultado em si”, explicou Tazinaffo.

O sistema cerebral de recompensa libera neurotransmissores ligados à expectativa de prazer, especialmente a dopamina. A rapidez entre aposta, expectativa e resultado reforça o comportamento repetitivo. Mesmo diante de perdas sucessivas, o cérebro continua antecipando a possibilidade de ganho futuro, conforme análise da psiquiatra Analice de Paula Gigliotti, professora na PUC-Rio, publicada em artigo no The Conversation.

Em julho deste ano, o Ministério da Saúde lançou a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, veiculada na televisão, no rádio e nas redes sociais. A iniciativa alerta sobre os riscos do uso problemático das plataformas de apostas e divulga os serviços de saúde mental do SUS para apostadores e familiares afetados.

 

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