Estudo sobre empréstimos na Copa infla dado real da Klavi em conclusão que ele não sustenta

Apostas I 12.09.26

Por: Magno José

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Em mais um FactCheck do BNLData, mostramos que a frequência maior de crédito entre apostadores durante o Mundial é real — mas o salto para “endividamento sistemático” não está nos números divulgados. Reportagem da CartaCapital leva o Selo Narrativa BNLData

Uma reportagem publicada pela CartaCapital nesta semana sob o título ‘Contratação de empréstimos entre apostadores de bets quase dobrou durante a Copa’ deu novo fôlego a uma tese que se tornou lugar-comum na cobertura do mercado de apostas esportivas: a de que o crescimento das bets estaria empurrando parte da população brasileira para um ciclo de endividamento. O texto se apoia em levantamento da fintech Klavi e traz um dado concreto — a frequência de contratação de empréstimos entre apostadores foi 1,8 vez maior do que entre não apostadores durante a Copa do Mundo. O problema não está nesse número, mas no que a reportagem faz com ele.

Segundo o estudo, que usa dados de Open Finance de uma amostra de 1,2 milhão de pessoas, em três de cada quatro casos a aposta precedeu a contratação do empréstimo, com mediana de sete dias entre um evento e outro. A própria Klavi, cita a reportagem, faz questão de relativizar o achado: “saber qual evento veio primeiro não é o mesmo que provar que ele causou o segundo”, diz a empresa, reconhecendo que o resultado pode ser influenciado por outros fatores de endividamento alheios às apostas.

É uma ressalva metodologicamente correta — e rara de se ver citada com todas as letras em uma matéria sobre o setor. O problema é que ela dura apenas um parágrafo. Na sequência, o texto afirma que “há indícios, portanto, de que o montante total enviado a bets durante a Copa — de pelo menos R$ 992 milhões […] — dependeu do endividamento sistemático dos brasileiros”. Essa frase não é uma citação da Klavi. É uma conclusão do próprio veículo, construída sobre uma base que os dados citados não sustentam.

Da frequência relativa ao total do bolo

O estudo mede uma coisa específica: a proporção de apostadores que contraíram empréstimo, comparada à proporção de não apostadores que fizeram o mesmo. É um dado sobre comportamento de uma subpopulação. Não há, em nenhum ponto divulgado da pesquisa, uma estimativa de qual fatia dos R$ 992 milhões movimentados em apostas durante a Copa teria como origem dinheiro emprestado. Tratar as duas coisas como se fossem a mesma medida — de “apostadores pedem crédito proporcionalmente mais” para “o total apostado no país dependeu de crédito” — é uma inferência que erra o nível de análise: generaliza para o agregado um efeito observado apenas na frequência relativa de um subgrupo.

O mesmo vale para o próprio “1,8 vez maior”, manchete do estudo. Trata-se de um risco relativo, sem a taxa-base que permitiria entender a dimensão real do fenômeno. Se a frequência de empréstimos saltou de 2% para 3,6% da amostra ou de 20% para 36%, o multiplicador é idêntico — mas o significado social do dado muda inteiramente. Nenhuma das reportagens que replicaram o estudo, até onde este texto apurou, trouxe esse número absoluto.

Correlação com data, não necessariamente causa

A precedência temporal entre aposta e empréstimo — a aposta acontecendo, em média, sete dias antes — costuma ser lida como prova de um mecanismo: a pessoa aposta, perde, e recorre ao crédito para cobrir o rombo. É uma hipótese plausível, mas não a única compatível com o dado. Ela também é compatível com um perfil de comportamento financeiro que leva a mesma pessoa a apostar e a tomar crédito por razões independentes uma da outra, ou com uma situação de aperto financeiro anterior a ambos os episódios — variável que o desenho do estudo não capta e não isola. A Klavi reconhece esse limite; a cobertura, não.

O que fica de fora da conta

Há ainda pontos que passaram batido na reportagem. A amostra do estudo vem de usuários que consentiram compartilhar dados via Open Finance — um grupo que já é, por definição, mais integrado ao sistema financeiro formal, o que pode distorcer a leitura sobre uma população de apostadores que inclui parcela relevante recorrendo a crédito informal, fora de qualquer rastreamento bancário. A reportagem também não esclarece o que a Klavi está chamando de “empréstimo” — se a categoria inclui cheque especial, rotativo de cartão de crédito, consignado ou apenas crédito pessoal, modalidades com lógicas de endividamento bastante distintas entre si.

Vale registrar, ainda, que a própria Klavi vende a instituições financeiras um produto batizado “Indicador de Risco de Apostas”, score construído sobre esse mesmo tipo de dado transacional. Não se trata de descartar o levantamento por isso — mas de reconhecer que a empresa tem interesse comercial direto em consolidar a narrativa de que apostas geram risco de crédito mensurável e vendável, informação que não consta da reportagem que a toma como fonte.

Por fim, o contexto de escala merece nota: os R$ 992 milhões apurados pela Klavi para todo o período da Copa ficaram bem abaixo da projeção de R$ 20 bilhões em depósitos que a consultoria H2 Gambling Capital havia feito antes do torneio para o mercado brasileiro. O próprio CEO da consultoria reconheceu, após o Mundial, que o volume ficou aquém do esperado. É difícil sustentar a moldura de “endividamento sistemático em escala nacional” para um fenômeno cujo próprio valor de referência já surpreendeu para baixo entre os que monitoram o setor com viés crítico.

O que os dados realmente permitem dizer

Nada disso invalida o achado central do estudo: apostadores, nesta amostra, contraíram empréstimo com frequência relativa maior do que não apostadores durante a Copa, e a maioria não teve retorno financeiro positivo com as apostas — 46,8% da amostra não viu nenhum valor retornar à conta bancária. São dados que merecem registro e acompanhamento. O que os números não permitem — e que a reportagem afirma mesmo assim — é que o consumo total de apostas no país “dependeu” de endividamento sistemático. Essa é uma tese editorial vestida de conclusão de estudo, e é o tipo de deslizamento que, repetido reportagem após reportagem, vai construindo um consenso público que os próprios dados originais não autorizam. Portanto, a reportagem ganha o ‘Selo Narrativa BNLData’.

 


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