Bingos, Cassinos e a Indústria Política da Corrupção

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Você certamente já leu diversas vezes nos jornais ou assistiu na televisão notícias sobre o “eficiente” trabalho de inteligência das polícias ao “estourar” casas onde funcionam bingos e cassinos. Mas essas notícias escondem uma das indústrias mais sórdidas e criminosas já instaladas no país: a exploração da ignorância e da hipocrisia da sociedade para manutenção de um dos maiores esquemas de corrupção da história. E pior: em um país de forte religiosidade, esse esquema escalafobético recebe o apoio das principais igrejas e seus supremos mandatários.

Não é novidade para ninguém que a maioria dos notórios políticos brasileiros são financiados diretamente por traficantes, bandidos, criminosos de toda espécie e, também, pelos empresários do setor de jogos clandestinos. Estruturas inteiras das polícias recebem propinas astronômicas para fazer “vistas grossas” aos bingos, cassinos, máquinas caça-niqueis e bancas de jogo do bicho em suas áreas. Muitas vezes, esse dinheiro “por fora” cai direto nas contas de “caixa dois” para as milionárias campanhas políticas em tempos de eleição. Responda-me com franqueza: isso é uma novidade? Ou você ainda acredita não passar de uma lenda? Acho que nem precisa pensar muito.

Vamos falar a verdade? As igrejas, em especial a Católica e as Evangélicas, são contra a legalização dos bingos e cassinos no Brasil porque temem que seus fieis gastem nos jogos o dinheiro que entregariam para os representantes de Deus em forma de dízimos. Como sustentar a pajelança clerical com os cofres cada vez mais escassos? Como bancar emissoras de TV e rádio e os intermináveis e caros “programas de adoração” com cada vez menos pessoas interessadas em comprar uma gleba no Céu? E mais: como essas igrejas se comportam em países onde os bingos e cassinos são legalizados? Podem apostar que lá, até padres e pastores fazem sua “fezinha”!

 

"É importante ressaltar que a manutenção da ilegalidade dos bingos e cassinos no Brasil fere os cofres públicos"

 

Então, em nome das sacanagens e mamatas mundanas, usando o nome de Deus e da Democracia em vão, nossas notáveis autoridades, especialistas na arte das conveniências personalistas, insistem no discurso anacrônico – e ignorante, sobretudo – de manter na ilegalidade os bingos e os cassinos em território brasileiro. E você acha que os nossos políticos fazem esses discursos por questões ou preocupações republicanas? Nada disso. Ledo engano. Fosse assim, não permitiriam que o jogo do bicho – que, em tese e só em tese, também é considerado ilegal – mantenha-se como principal financiador do tão festejado carnaval brasileiro, dividindo despesas com o tráfico de armas e drogas e uma pequena contrapartida dos governos. Basta dar uma volta pelo seu bairro e certamente você vai encontrar uma banca, um ponto ou até um botequim onde é possível fazer apostas no bicho do dia, ainda que ao lado de uma delegacia de polícia ou uma igreja ou templo.

No que tange aos bingos e cassinos, criou-se uma imagem de que tais estabelecimentos só servem à lavagem de dinheiro do crime organizado. Outro equívoco. É fato que isso acontece sim, mas mantê-los ilegais foi uma forma encontrada para alimentar outra indústria, muito mais perigosa e que provoca muitos mais danos à sociedade: a corrupção, os esquemas de propina e a chantagem política.

É importante ressaltar que a manutenção da ilegalidade dos bingos e cassinos no Brasil fere os cofres públicos. Com uma fórmula muito simples de fiscalização e gestão, é possível implantar um sistema de tributação e arrecadação sobre tais serviços que geraria alguns bilhões de Reais anuais para os governos investirem em saúde, educação, desenvolvimento social, esportes, cultura e tantas outras áreas carentes de aportes de recursos. O próprio Governo Federal já faz isso através da Caixa Econômica na administração das loterias, os únicos “jogos de azar” permitidos.

Por quanto tempo ainda vamos continuar permitindo que nossas pseudoautoridades nos tratem como um povo acéfalo e letárgico? Que tipo de sociedade estamos permitindo que esses canalhas nacionais sigam construindo e nos legando a tarefa de sustentá-los em suas vidas boas, suas malandragens e a com absoluta certeza da impunidade, sua pétrea e máxima garantia? Que tipo de nação queremos ser? Um bando de burros anestesiados, mulas de carga para alguns poucos “favorecidos”? Que Brasil queremos para viver e esperamos desenvolver para as próximas gerações? O que será melhor: uma verdade dura e, muitas vezes, inconveniente, ou pilares moldados por mentiras, falácias e hipocrisias? Pensemos nisso. Já está passando da hora. Até porque, enquanto eu estou aqui escrevendo e você está lendo, certamente temos algum sacana enfiando a mão no dinheiro público e levando-o para gastar nos cassinos de outros países ou até mesmo em dos muitos navios que partem diariamente dos portos brasileiros e que oferecem todas as opções para quem tem dinheiro e pode bancar a jogatina.

 

"Só precisamos decidir o que queremos ser: um Brasil de verdade, sem bravatas hipócritas e malandros nacionais; ou um país de mentira, lambendo o chão por onde passam nossas celebridades bandidas"

 

Nesse sentido, e para concluir, não podemos deixar de observar as bem-sucedidas experiências de outros países na administração e fiscalização dos jogos. Os EUA e quase todos os países da Europa arrecadam trilhões de dólares com a indústria dos cassinos, que ainda alavancam outros setores fundamentais, como o turismo, a empregabilidade e a construção civil. E nem precisamos ir tão longe para buscar bons exemplos, quando os temos aqui mesmo, em diversos países da América do Sul. Os nossos vizinhos Argentina e Uruguai são provas incontestes do poderio aportado pelo setor de jogos em suas economias.

Vem aí a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, que podem elevar ainda mais o nosso potencial de investimentos e a colocar o Brasil nas primeiras colocações dos destinos turísticos mais procurados do mundo. Que ninguém que se engane: o crescimento e o desenvolvimento do país passará pela legalização dos bingos e cassinos em nosso território. Só precisamos decidir o que queremos ser: um Brasil de verdade, sem bravatas hipócritas e malandros nacionais; ou um país de mentira, lambendo o chão por onde passam nossas celebridades bandidas. É só uma questão de consciência e escolha. E precisamos fazer a nossa, com urgência.(*) Helder Caldeira é escritor, articulista político, palestrante e conferencista. Autor dos livros “Bravatas, Gravatas e Mamatas”, “Pareidolia Política” e “A Primeira Presidenta”, primeira obra publicada no Brasil, pela Editora Faces, sobre a trajetória da presidente Dilma Rousseff. (www.magnumpalestras.com.br  [email protected])

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