Bets pagavam mais de três meses de salários por ano aos clubes da Série A; no São Paulo, eram mais de seis

Apostas I 14.10.26

Por: Magno José

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Bets pagavam mais de três meses de salários por ano aos clubes da Série A; no São Paulo, eram mais de seis
Cruzamento do BNLData entre os contratos de patrocínio máster e as folhas salariais levantadas pelo ge mostra que o impacto da proibição das apostas é muito maior que os “6% a 7%” citados por Lula

O dinheiro que as casas de apostas pagavam aos 14 clubes da Série A patrocinados por elas na parte nobre da camisa bastava para quitar mais de três meses de salários desses elencos por ano. É o que mostra um cruzamento feito pelo BNLData entre os valores dos contratos de patrocínio máster e o ranking das folhas salariais publicado nesta quarta-feira (14) pelo ge Globo.

Somados, os patrocínios máster das bets chegavam a cerca de R$ 1,01 bilhão por ano, ou R$ 84,5 milhões por mês. As folhas salariais desses 14 clubes somam R$ 299,3 milhões mensais. Na média, portanto, o patrocínio das apostas cobria 28,2% do que os clubes gastam todo mês com seus jogadores.

A conta desmonta o argumento usado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no anúncio da Medida Provisória nº 1.394/2026, em 25 de setembro, às vésperas do primeiro turno. Ao responder às queixas dos clubes, Lula afirmou que o patrocínio das bets representaria entre 6% e 7% do orçamento de um time. O número pode até se aproximar da realidade quando se olha o orçamento total, que inclui direitos de TV, bilheteria e venda de atletas. Mas a folha salarial é a despesa fixa e mensal, que não pode atrasar. É nela que o corte aparece com toda a força.

São Paulo, Flamengo e Corinthians são os mais expostos

O caso mais grave é o do São Paulo. O contrato com a Superbet, de R$ 113 milhões por ano, rendia R$ 9,4 milhões por mês, o que equivale a 52,3% da folha salarial do clube, estimada pelo ge em R$ 18 milhões mensais. Na prática, a bet pagava mais de seis meses de salários do elenco tricolor por ano.

O Flamengo vem em seguida. Dono da maior folha do país, de R$ 50 milhões por mês, e do maior contrato de patrocínio da história do futebol brasileiro, de R$ 268,5 milhões por ano com a Betano, o clube tinha 44,8% dos salários do elenco cobertos pela casa de apostas, o equivalente a 5,4 meses de folha. Mesmo considerando apenas a parte fixa do contrato, de R$ 220 milhões segundo a Folha, a cobertura seria de 36,7%, ou 4,4 meses.

O Corinthians aparece em terceiro. Os R$ 150 milhões anuais da Esportes da Sorte cobriam 41,7% da folha de R$ 30 milhões, o que corresponde a cinco meses de salários.

Botafogo (30,6%), Palmeiras (27,8%) e Vasco (26%) completam o grupo dos clubes em que a bet pagava mais de três meses de folha por ano.

O cruzamento clube a clube

Bets pagavam mais de três meses de salários por ano aos clubes da Série A; no São Paulo, eram mais de seis 2

Um número difícil de medir, e por isso conservador

O próprio ge reconhece que a folha salarial é um dado difícil de cravar. Associações e SAFs não divulgam de forma padronizada quanto gastam só com o elenco, e os valores do ranking são aproximados, construídos a partir de balanços e apuração junto aos clubes.

O caso do Palmeiras mostra o tamanho da diferença. Pelos balancetes mensais, o departamento de futebol custa cerca de R$ 45 milhões por mês. Dirigentes, porém, falam em folha de R$ 30 milhões, número usado pelo ge Globo. Com o custo total do departamento, o patrocínio da Sportingbet cobriria 18,5% das despesas, ou 2,2 meses por ano.

O cruzamento também é conservador por outro motivo: considera apenas o patrocínio máster. Ficam de fora as propriedades secundárias, as placas, as ações de ativação e os bônus por desempenho previstos em vários contratos. Ao avaliar o impacto da MP, o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, estimou que o clube pode perder mais de R$ 430 milhões, somando patrocínio e outras receitas ligadas ao setor. Para o futebol brasileiro como um todo, ele projeta perdas de R$ 2,5 bilhões.

Bets pagavam mais de três meses de salários por ano aos clubes da Série A; no São Paulo, eram mais de seis 1

Um terço da receita comercial

Os números do cruzamento são coerentes com outros levantamentos. Segundo relatório da consultoria Convocados citado pela CNN Brasil, o dinheiro das bets equivale a 33% do faturamento comercial e de marketing dos clubes, estimado em R$ 3,069 bilhões. Em 2025, os clubes da primeira divisão arrecadaram R$ 1,03 bilhão com patrocínios de casas de apostas, segundo a Folha de S.Paulo.

A própria Convocados calcula que, para a maioria das equipes, o patrocínio fica entre 5% e 8% do orçamento total, mas chega a 12,85% no Flamengo e a 10,5% no Corinthians e no São Paulo. Ou seja, mesmo pelo critério do orçamento, os três maiores atingidos estão bem acima da faixa citada pelo presidente.

Clubes sem patrocínio e sem alternativa no curto prazo

Apenas Athletico-PR, Bahia, Coritiba e Internacional não têm vínculo com o setor. Mirassol e Bragantino têm bets apenas como patrocinadoras secundárias.

A MP deu aos clubes até 5 de outubro para retirar toda publicidade e sinais de patrocínio das apostas, e as autorizações das operadoras que podem se extinguir em 25 de outubro. Operadoras começaram a notificar os clubes sobre a rescisão ou suspensão dos contratos. Encontrar, em plena reta final da temporada e às vésperas do planejamento de 2027, patrocinadores capazes de repor de três a seis meses de folha salarial é uma tarefa que nenhum departamento de marketing consegue cumprir em semanas.

O impacto financeiro ajuda a explicar a reação dos clubes, que culminou no protesto de Flamengo e Fluminense no Fla-Flu de 11 de outubro, transmitido para todo o país. Enquanto a MP tramita no Congresso e as ações se acumulam no STF, os clubes fazem as contas e as folhas salariais seguem vencendo todo mês.

 


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