Durigan cobra BC por supervisão de fintechs em bets e lavagem de dinheiro

Apostas I 20.07.26

Por: Magno José

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Durigan comenta "Conto da Sorte" que apura esquema suspeito de movimentar bilhões de Reais em bets ilegais
Ministro da Fazenda aponta 37 empresas com indícios de uso em operações ilegais, embora fiscalização seja da própria pasta (Foto: Washington Costa/MF)

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, cobrou publicamente do Banco Central (BC) um “esforço de supervisão” sobre fintechs para combater lavagem de dinheiro e o uso de apostas esportivas ilegais, as chamadas bets. A declaração amplia uma ofensiva do ministro contra o regulador, que nas últimas semanas já incluíra críticas aos juros altos, apontados por Durigan como o maior “gargalo” da economia brasileira.

A cobrança, segundo análise do Valor, contrasta com a divisão de competências vigente: a fiscalização de bets ilegais é atribuição exclusiva da Secretaria de Prêmios e Apostas Esportivas (SPA), órgão vinculado à própria Fazenda desde a regulamentação do setor pelo governo Lula, a partir de 2023.

Histórico regulatório das bets

O mercado de apostas de quota fixa começou a operar no Brasil a partir de 2019, em um vácuo normativo. A gestão Michel Temer (MDB) liberou a atividade, mas coube ao governo Jair Bolsonaro (PL) regulamentá-la, o que não ocorreu. Sem regras, as empresas passaram a atuar com sede no exterior, frequentemente em paraísos fiscais, sem controles operacionais nem obrigações tributárias.

O governo Lula optou por regulamentar o setor, em vez de proibi-lo, com foco na ampliação da arrecadação. Criou a SPA e articulou a aprovação de legislação específica. A fiscalização dos operadores ilegais ficou, portanto, sob responsabilidade da SPA e da Fazenda.

O papel do Banco Central

Na esfera regulatória, o BC já havia adotado uma série de medidas. Em 2021, passou a exigir autorização prévia para que novas instituições de pagamento começassem a operar; até então, empresas podiam iniciar atividades e pedir licença somente depois de atingir R$ 500 milhões em volume de transações. No ano passado, o regulador também antecipou o calendário que permitia a parte das instituições não autorizadas, dependendo do porte, operar até 2029; com a mudança, todas precisaram solicitar autorização até maio de 2026. O BC ainda elevou exigências de capital e editou normas técnicas e manuais de segurança.

A Fazenda indica que 37 fintechs apresentam indícios de uso para operações ligadas a bets ilegais e lavagem de dinheiro. O número está próximo ao levantado pela própria SPA; em outubro do ano passado, durante o 15º Congresso de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo (PLDFT), promovido pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o secretário da SPA, Regis Dudena, afirmou que as autoridades chegaram a 36 fintechs com indícios desse tipo de uso, a partir de análise de mais de 900 participantes no sistema Pix. Durigan defende que o cronograma de enquadramento dessas empresas à supervisão do BC seja antecipado.

O perfil dessas fintechs, segundo a análise do Valor, aponta para players de pequeno porte, muitos dos quais começaram a operar antes de 2021, quando a licença prévia ainda não era exigida. A crítica ao BC, nesse contexto, esbarra no próprio arranjo institucional: para fiscalizar, o regulador depende de equipe e recursos; sem autonomia orçamentária plena, depende da aprovação da Fazenda.

Setor privado e o debate político

No fim do ano passado, o presidente da Febraban, Isaac Sidney, já havia criticado a legalização das casas de apostas online. “O Estado, na minha avaliação, errou a mão ao legalizar os jogos, mas legalizou”, afirmou. Para Sidney, a decisão ampliou riscos associados ao crime organizado e à lavagem de dinheiro. “O papel dos bancos diante disso é de vigilância absoluta e total intransigência com recursos de risco em jogos de apostas”, completou.

A entidade editou regras mais rígidas em sua autorregulação, obrigando bancos a bloquear movimentações suspeitas, encerrar imediatamente contas de passagem, conhecidas como “contas laranja”, e “contas frias” usadas em golpes e fraudes. As instituições financeiras também passaram a ser obrigadas a encerrar contas de bets ilegais.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, foi indicado ao cargo pelo presidente Lula. Antes da nomeação, ocupava a secretaria-executiva da Fazenda, posto em que foi substituído pelo próprio Durigan.

 


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