Editorial: Não foi por falta de aviso

Apostas I 05.10.26

Por: Magno José

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Por que proibir as bets pode custar a eleição a Lula
Flávio Bolsonaro termina o primeiro turno à frente de Lula, e a campanha do presidente admite que a proibição das bets custou votos. O BNLData alertou para esse risco em quatro textos antes de a medida provisória ser editada

A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou nove dias para descobrir o que o mercado regulado de apostas dizia desde o primeiro rumor sobre a medida provisória: proibir as bets às vésperas da eleição era um risco eleitoral, não um trunfo. Neste domingo (4), o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual. Segundo reportagem de O Globo desta segunda-feira (5), integrantes da própria campanha avaliam que o banimento prejudicou o presidente.

Não foi por falta de aviso. Em 16 de setembro, nove dias antes do anúncio da MP, o BNLData publicou o artigo “Por que proibir as bets pode custar a eleição a Lula“. Nele, um especialista em pesquisas eleitorais fazia uma conta simples: o Brasil tem mais de 31 milhões de apostadores únicos ativos, e bastaria desagradar 10% deles para o presidente perder a eleição.

A conta fechou. Dez por cento dos mais de 30 milhões de apostadores são cerca de 3 milhões de eleitores. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.503 votos, contra 53.879.538 de Lula, uma vantagem de 2.224.965 votos. A margem que separou os dois candidatos é menor do que o contingente que o especialista dizia ser suficiente para derrotar o presidente.

O alerta foi repetido. O BNLData mostrou que o governo trocava regulação por bandeira de campanha, movido pelo calendário eleitoral e não pelo combate à ludopatia e a proteção ao apostador. Repercutiu a análise do jornalista Mauro Cezar Pereira, do UOL Esporte, que classificou a proibição como possível suicídio eleitoral. E, no dia do anúncio, registrou que a decisão dividia a campanha e que uma medida aprovada pela maioria nas pesquisas poderia mobilizar contra o presidente uma minoria numerosa e engajada. Foi exatamente o que aconteceu.

Os dois conselheiros

A reportagem de O Globo dá nome aos responsáveis. Apenas o ministro Sidônio Palmeira, da Secom, e a primeira-dama Janja da Silva defendiam o banimento total. Os demais integrantes do entorno presidencial classificavam a medida como radical e arriscada. Segundo nota do colunista Lauro Jardim, o presidente do PT, Edinho Silva, se opôs à ideia e chegou a discutir com seus defensores. Lula ficou com a dupla.

Segundo apurou o BNLData, Sidônio decidiu olhando para os trackings. Os números mostravam rejeição às bets, e o marqueteiro concluiu que a campanha precisava de uma ação de forte impacto na reta final. Tracking mede humor, não mede consequência. O levantamento Atlas/Bloomberg apontava 75% de apoio à proibição, mas ninguém perguntou aos apostadores, principalmente aos recreativos, o que fariam com o voto quando a aposta deles fosse proibida.

Janja, por sua vez, sustentava que a medida teria forte apoio do eleitorado feminino. De acordo com fontes ouvidas pelo BNLData, a convicção da primeira-dama se apoiava na opinião da produtora Paula Lavigne, uma das vozes mais ativas da classe artística contra as bets. Uma política pública que afeta 31 milhões de pessoas foi decidida com base em pesquisas de campanha e na opinião de um círculo restrito, sem ouvir quem aposta.

Quem ficou de fora da conta

A grande maioria desses 31 milhões é de apostadores recreativos, que jogam valores modestos, por diversão, em empresas autorizadas pelo próprio governo Lula. Para eles, a MP não foi proteção. Foi perda.

A Secom também ignorou o ecossistema em volta do apostador. Os clubes de futebol perderam seus principais patrocinadores. Os influenciadores perderam contratos e, como registrou O Globo, passaram a pedir voto útil em Flávio Bolsonaro junto à classe C. E os políticos da oposição ganharam uma pauta pronta para impulsionar em suas regiões.

Flávio Bolsonaro ocupou o espaço que o governo deixou vazio. O candidato do PL defendeu a distinção entre apostas esportivas e cassinos online, que a MP trata como se fossem a mesma coisa, e falou diretamente a quem perdia com a medida. Lembrou que a proibição rompe os contratos de patrocínio dos clubes e que o futebol feminino seria um dos mais atingidos, a um ano da Copa do Mundo feminina no Brasil. “Tem risco de não ter Copa do Mundo feminina por causa dessa canetada do Lula”, disse a jornalistas em 28 de setembro, três dias depois do anúncio da MP. Citou até os comerciantes que vendem produtos com a marca das casas de apostas. “É uma temeridade fazer isso do dia para a noite”, afirmou.

A ironia é evidente. A primeira-dama defendeu o banimento em nome do eleitorado feminino, e foi o adversário quem apareceu falando em defesa do futebol feminino.

O governo apostou alto. Transformou a eleição no “plebiscito das bets”, nas palavras do ministro Dario Durigan, e exibiu em telão o slogan “Flávio é bet. Lula é o caminho”. O plebiscito foi feito, e o candidato que o governo chamou de “bet” chegou em primeiro.

O pior pode estar por vir. A partir de terça-feira (6), a MP 1.394 determina a retirada dos sites do ar. Milhões de pessoas que ainda conseguem jogar vão encontrar a porta fechada a poucas semanas do segundo turno. Parte delas vai migrar para o mercado ilegal, que já responde por mais de 40% das apostas, não paga imposto e não protege ninguém.

Uma política construída em dois anos de regulação foi desmontada por cálculo eleitoral de dois conselheiros. O cálculo estava errado. Não foi por falta de aviso.

 

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