Por que proibir as bets pode custar a eleição a Lula

Apostas I 16.09.26

Por: Magno José

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Por que proibir as bets pode custar a eleição a Lula
Com corrida presidencial mais apertada que em 2022, banir as apostas esportivas pode custar ao presidente os votos de mais de 30 milhões de apostadores — além de ameaçar patrocínios ao futebol, investimentos em mídia, a proteção dos apostadores, milhares de empregos e bilhões em arrecadação

Uma eventual Medida Provisória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva proibindo as apostas esportivas e os jogos online têm menos a ver com proteção ao consumidor do que com cálculo político — e é exatamente nesse terreno que ela pode se voltar contra o próprio governo. As pesquisas mais recentes mostram uma corrida presidencial mais apertada do que em qualquer momento desde 2022, com o setor de bets sustentando um contingente de eleitores, patrocínios esportivos e arrecadação fiscal grande demais para ser descartado sem custo político.

A corrida está mais apertada do que em 2022 — e piorando para o Planalto

A pesquisa Quaest divulgada em 7 de setembro mostrou Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados em eventual segundo turno, com 41% cada. Uma semana depois, em 14 de setembro, uma nova rodada da mesma Quaest — a mais recente disponível — registrou pela primeira vez Flávio à frente numericamente: 42% a 40%, dentro da margem de erro de dois pontos, mas um sinal de inflexão em relação a todo o ano. O Datafolha, por sua vez, apontava em 11 de setembro uma vantagem de Lula sobre Flávio de 46% a 44% — também dentro da margem de erro.

Para efeito de comparação, a diferença de votos que decidiu o segundo turno de 2022 entre Lula e Jair Bolsonaro foi de 2.138.485 votos, equivalente a 1,80 ponto percentual dos votos válidos. Ou seja: o cenário atual de empate técnico, com viés de piora para o governo nas últimas semanas, já reproduz — ou supera — o nível de aperto que caracterizou a eleição mais disputada da história recente do país.

Nesse contexto, o SIGAP (Sistema de Gestão de Apostas), da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, registrava 30.895.934 CPFs únicos com aposta ativa no primeiro semestre de 2026 — uma base de eleitores potenciais que ultrapassa, isoladamente, a diferença de votos de qualquer uma das últimas disputas presidenciais. Se apenas 10% desse universo — cerca de 3 milhões de pessoas, sem contar familiares e dependentes de empregos ligados ao setor — migrar o voto por sentir-se diretamente prejudicado por uma proibição, o impacto potencial ultrapassa a margem que decidiu 2022.

O futebol como correia de transmissão do desgaste

Não é acidente que o setor de apostas tenha se tornado, em menos de dois anos, o maior patrocinador do futebol brasileiro. Levantamentos mais recentes (setembro de 2026) mostram que 14 dos 20 clubes da Série A têm casas de apostas entre seus patrocinadores, sendo 13 no espaço mais nobre — o patrocínio máster da camisa:

Flamengo: R$ 268,5 milhões/ano (Betano) — maior contrato já registrado no futebol brasileiro

Palmeiras: R$ 170 milhões/ano (Sportingbet)

São Paulo: R$ 113 milhões/ano (Superbet)

Corinthians: R$ 150 milhões/ano (Esportes da Sorte)

⇒ Fluminense: R$ 86 milhões/ano (Superbet)

No agregado, o setor destinou cerca de R$ 1 bilhão a patrocínios de clubes da Série A em 2026 — uma retração ante os R$ 1,1 bilhão de 2025, muito em razão de instabilidades contratuais. Ainda assim, o volume segue sustentando folhas salariais, categorias de base e centros de treinamento em clubes historicamente endividados. Uma proibição abrupta reabriria, da noite para o dia, a dependência desses clubes de adiantamento de receitas de TV e empréstimos caros — o mesmo ciclo que a receita das bets ajudou a interromper.

Uma torcida sente esse tipo de golpe rapidamente, e clubes com titulares políticos ligados ao presidente — caso do Corinthians, time de Lula — não ficam imunes ao desgaste de imagem de uma crise financeira repentina.

O que está em jogo na arrecadação

Os números fiscais também são expressivos. Entre janeiro e julho de 2026, as bets recolheram R$ 8,7 bilhões em tributos federais — alta de 76% sobre igual período de 2025 — em ritmo que projeta uma arrecadação anual bem acima dos R$ 9,95 bilhões fechados em 2025, mesmo antes de somar ISS municipal, outorgas e taxa de fiscalização. Um estudo do setor (LCA Consultores/Cruz Consulting, financiado pelo IBJR e pela ANJL — entidades que representam as próprias operadoras, o que exige a ressalva de interesse) estimou a arrecadação total ligada ao mercado regulado, somando todas essas rubricas, em cerca de R$ 9 bilhões só em 2025, com potencial de gerar R$ 28 bilhões em efeito multiplicador na economia. Não existe, nas propostas de banimento em discussão, indicação de fonte fiscal substituta para cobrir esse buraco.

O mesmo estudo — de origem industrial e que deve ser lido como tal — contabiliza 15,5 mil empregos diretos e indiretos no setor, dos quais 10 mil diretos, com 47% classificados como qualificados (TI, segurança cibernética, compliance, análise de dados) e salário médio de R$ 7 mil, mais que o dobro da média nacional. É gente que perde o emprego, não uma abstração estatística.

O argumento da proibição não sobrevive à própria história recente do Brasil

O Brasil operou com apostas online não regulamentadas por mais de cinco anos (2018–2024), com operadores estrangeiros, sem imposto e sem qualquer controle sobre o consumidor. Um estudo do TMC com o Instituto Esfera (fevereiro de 2026) e outro da LCA Consultores/Instituto Locomotiva (agosto de 2026) mostram que o mercado ilegal ainda responde por 38% a 44% do total apostado no país — recuo em relação à faixa de 41% a 51% registrada em 2025, mas longe de zero mesmo com o mercado regulado em pleno funcionamento. Proibir a atividade legal não elimina essa demanda: historicamente, ela migra para sites sem “bet.br” no domínio, sem exigência de biometria facial e com depósito por criptoativos ou cartão de crédito — exatamente os canais que hoje driblam a fiscalização.

Trata-se também de um problema de proteção ao consumidor. As regras vigentes (Lei 14.790/2023) obrigam os operadores licenciados a usar Pix, biometria, ferramentas de autoexclusão sincronizadas entre plataformas, limites de aposta e bloqueio de contas de beneficiários do Bolsa Família e do BPC. Nenhum desses mecanismos alcança uma plataforma clandestina. Uma proibição total tende a atingir goleiro e bandido: afasta o apostador comum das proteções regulatórias e deixa intocado quem já opera na ilegalidade.

O paralelo internacional mais citado é o da Noruega, que mantém monopólio estatal do setor: segundo estimativa da European Gaming and Betting Association (EGBA) — entidade que representa operadores privados e, portanto, tem interesse direto em derrubar monopólios estatais —, 66% da atividade de apostas online do país ocorre hoje em sites internacionais fora do alcance do fisco norueguês. É um número que deve ser lido com essa ressalva de origem, mas que ilustra um padrão real: restrição excessiva de oferta legal tende a empurrar demanda para fora do alcance regulatório, não a eliminá-la.

Manipulação de resultados: o argumento que se volta contra quem defende a proibição

Um dos temores mais citados por defensores do banimento é a manipulação de resultados esportivos. Os dados recentes, porém, mostram o oposto do que a intuição sugere. A “Máfia do Apito” (2005) e a Operação Penalidade Máxima (deflagrada em fevereiro de 2023 pelo Ministério Público de Goiás, com fases sucessivas até 2025) revelaram esquemas de aliciamento de jogadores para forçar cartões e pênaltis em partidas das Séries A e B — casos que resultaram em condenações de até 22 anos de prisão e mais de 30 denúncias formais.

O ponto central é que esses esquemas foram identificados e desmontados justamente graças à estrutura de rastreabilidade criada pela regulamentação, não apesar dela. A Lei Geral do Esporte (Lei 14.597/2023) tipificou a manipulação como crime, e a Lei 14.790/2023 obriga operadores licenciados a monitorar padrões atípicos de apostas, comunicar suspeitas às autoridades, vedar apostas de atletas e dirigentes (identificáveis por CPF e biometria) e manter registro completo de cada transação à disposição da SPA, da Polícia Federal e do Ministério Público. Extinguir o mercado regulado elimina exatamente essa camada de rastreamento — sem eliminar a aposta em si, que segue disponível em qualquer site estrangeiro sem nenhuma obrigação de reportar padrão suspeito a ninguém.

O esporte olímpico e paralímpico também está no meio do fogo cruzado

A legislação que criou a contribuição de 12% a 15% sobre o GGR (receita bruta das casas de apostas) destina parte obrigatória desses recursos a políticas públicas esportivas: no primeiro semestre de 2026, R$ 870,15 milhões da arrecadação de GGR foram repassados a programas ligados ao Ministério do Esporte — recurso que, na cadeia de financiamento pública do esporte, também alcança confederações olímpicas e paralímpicas. Uma proibição no meio do ciclo elimina essa fonte específica de receita sem substituto anunciado, em um momento de preparação para o ciclo olímpico de Los Angeles 2028.

O cálculo eleitoral

“Um dado que o presidente Lula não está considerando é que atualmente existem mais de 30 milhões de apostadores únicos ativos no Brasil. Se ele desagradar apenas 10% desses apostadores, o presidente perde as eleições”, avaliou um especialista em pesquisas eleitorais ouvido pelo BNLData.

Um interlocutor ligado ao próprio governo, em conversa reservada, resumiu o dilema de forma direta: “A proibição será uma tragédia para diversos setores da sociedade, para o esporte, para o turismo e, principalmente, para a campanha do presidente Lula”.

Quatro pré-candidaturas à Presidência já defendem publicamente banir as bets. É uma pauta que rende no discurso, mas que — a julgar pelos números fiscais, esportivos e eleitorais reunidos aqui — carrega um custo político e econômico que nenhuma delas, até agora, quantificou publicamente.

 

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