GGR de apostas reguladas no Brasil atinge R$ 20,07 bi no 1º semestre de 2026

O mercado regulado de apostas de quota fixa no Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com um Gross Gaming Revenue (GGR), a receita bruta do setor, de R$ 20,07 bilhões, alta de 15,3% sobre o mesmo período de 2025. O número revela um crescimento consistente, mas distante da ‘explosão’ que parte dos estudos e narrativas públicas sobre o tema anunciava.
Os dados foram obtidos com exclusividade pelo BNLData por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF). Entre janeiro e junho de 2026, R$ 377,86 bilhões retornaram aos apostadores em prêmios.
A narrativa da “explosão” e o que os números dizem
Se havia uma expectativa de boom sem precedentes nas apostas durante o primeiro semestre de 2026, os dados confrontam essa visão diretamente. O crescimento de 15,3% no GGR em relação ao primeiro semestre de 2025, quando a receita bruta somou R$ 17,4 bilhões, não configura uma explosão por nenhum critério analítico razoável. Parte dos estudos sobre o tema projetava salto expressivo impulsionado pela Copa do Mundo, cujos jogos concentraram-se em junho.
Os números mensais apontam exatamente o contrário. O pico do semestre foi em janeiro, com GGR de R$ 4,29 bilhões, reflexo da antecipação dos calendários de campeonatos estaduais e do Campeonato Brasileiro para o início do ano justamente em função do Mundial. Junho, mês que concentrou 19 dias de Copa do Mundo e 72 partidas, registrou GGR de R$ 3,34 bilhões, os menores patamares do semestre nas duas métricas.
A tabela abaixo detalha a evolução mensal dos valores apostados e o GGR:

O GGR caiu para a faixa de R$ 2,8 bilhões em fevereiro e março e voltou a subir nos três meses seguintes, encerrando o período em R$ 3,34 bilhões, levemente abaixo da média mensal de R$ 3,35 bilhões.
Mais de 5 milhões fora das plataformas
O crescimento comedido do GGR pode ter uma explicação estrutural além da dinâmica dos campeonatos. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na última quinta-feira (13/8) que mais de 5 milhões de brasileiros estão impedidos de apostar nas plataformas de bets no país.
Três grupos compõem esse contingente. Cerca de 3 milhões são beneficiários do Bolsa Família ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC), programas sociais cujos cadastrados estão proibidos por lei de acessar as plataformas. Outros 1,2 milhão solicitaram voluntariamente a própria autoexclusão. Os 800 mil restantes aderiram ao Novo Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas que veda apostas online por pelo menos seis meses a quem participa.
As medidas mitigatórias impostas pela SPA/MF, portanto, subtraem uma parcela mensurável do universo potencial de apostadores justamente nos segmentos de maior vulnerabilidade financeira.
30,9 milhões de apostadores ativos
A base de apostadores registrou crescimento em relação ao mesmo período de 2025. O levantamento identificou 30.895.934 CPFs únicos com cadastro ativo no primeiro semestre de 2026, ante 28.128.172 do total do ano anterior. No primeiro semestre de 2026, o numero de apostadores aumentou apenas em 2.767.762 CPFs únicos, que representa um crescimento de com relação a quantidade do ano de 2025.
O crescimento da base acompanhou, em ritmo próximo, o avanço do GGR. O gasto médio por apostador subiu de R$ 618,60 para R$ 649,60 por semestre, alta de 5,0%, o equivalente a R$ 103,10 para R$ 108,27 por mês.
No primeiro semestre de 2025, as 78 empresas autorizadas, responsáveis por 182 marcas, registraram um GGR total de R$ 17,4 bilhões, com 17,7 milhões de brasileiros realizando apostas. No primeiro semestre de 2026, o número de empresas autorizadas subiu para 87 (+11,5%), o total de marcas chegou a 188 (+3,3%) e o GGR alcançou R$ 20,07 bilhões, alta de 15,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já o número de 30,9 milhões de apostadores refere-se a um período acumulado de 18 meses — e não a um semestre —, o que impede sua comparação direta com os 17,7 milhões registrados apenas no primeiro semestre de 2025.
Perfil dos apostadores
Do total de apostadores ativos em 2026, 68,47% são homens e 31,53% são mulheres. Por faixa etária, a maior concentração está entre 31 e 40 anos (28,95%), seguida por apostadores de 25 a 30 anos (21,98%) e de até 24 anos (21,30%). Na sequência aparecem os grupos de 41 a 50 anos (17,70%), 51 a 60 anos (7,22%), 61 a 70 anos (2,18%) e acima de 70 anos (0,66%).
Por faixa etária, a distribuição mostra concentração nos grupos economicamente ativos:

Destinação dos recursos; esporte lidera
Dos R$ 20,07 bilhões de GGR arrecadados no semestre, R$ 2,49 bilhões foram destinados por lei a políticas públicas e finalidades sociais, o equivalente a 12,4% da receita bruta. O esporte foi o maior beneficiário, com R$ 870,15 milhões distribuídos ao Ministério do Esporte e às Secretarias de Esporte dos estados e do Distrito Federal.
Os demais repasses, em ordem decrescente:

Os R$ 24,19 milhões destinados à saúde financiam o programa Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, do Ministério da Saúde. Desde março, o SUS oferece teleatendimento em saúde mental para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas, serviço remoto, sigiloso e com acompanhamento profissional que também atende familiares e funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A oferta inicial era de 600 atendimentos mensais; diante da alta procura, a capacidade foi ampliada para até 100 mil teleatendimentos por mês por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. O contrato do Ministério da Saúde com o hospital tem valor de R$ 2.942.538,05.
Receita Federal e a convergência de bases
Uma segunda consulta através dos códigos de recolhimento revela que a Receita Federal recolheu R$ 7,44 bilhões no semestre por meio de códigos específicos para apostas de quota fixa e loterias online. Desse total, R$ 2,48 bilhões (33,4%) vieram de apostas de quota fixa e R$ 4,96 bilhões (66,6%) de loterias, com a Loteria de Prognósticos Numéricos (Mega-Sena e similares) respondendo sozinha por 77,2% da arrecadação do bloco de loterias.
A arrecadação de apostas de quota fixa cresceu de forma consistente ao longo dos seis meses, de R$ 368,4 milhões em janeiro para R$ 513 milhões em junho, alta de 39,3%. Um segundo movimento chama atenção; o código de contribuição sobre receita de loterias numéricas saltou de R$ 11,6 milhões em janeiro para R$ 251,1 milhões em junho, com crescimento concentrado a partir de abril, o que sugere mudança de alíquota ou nova regra de incidência no meio do semestre.
Há ainda um achado metodológico relevante. O total arrecadado nos códigos de apostas de quota fixa pela Receita Federal (R$ 2.483.210.886,95) é praticamente idêntico ao valor das destinações sociais calculadas a partir dos dados da SPA/MF (R$ 2.488.647.762,68), com diferença de apenas R$ 5,4 milhões, ou 0,2%. A convergência indica que as duas bases, fiscal e regulatória, podem estar capturando o mesmo fluxo de recursos; os 12% do GGR destinados por lei a políticas públicas. Os dois valores não devem ser somados como arrecadações distintas.
A ausência da divulgação de dados públicos consolidados sobre o setor é o terreno fértil onde proliferam as narrativas mais distorcidas sobre as bets. Com os números da LAI em mãos, o que os dados do primeiro semestre de 2026 mostram é um mercado em expansão moderada, com crescimento de dois dígitos baixos na receita e na base de usuários, sujeito a restrições regulatórias efetivas e já gerando bilhões em destinações sociais. O que os dados não mostram é a explosão.


