Kalshi atinge US$ 22 bi em valor de mercado e enfrenta contestações regulatórias

A empresa de mercado preditivo Kalshi atingiu avaliação de US$ 22 bilhões. Autoridades reguladoras em diferentes jurisdições contestam a legalidade de suas operações. A plataforma foi fundada em 2018 por Luana Lopes Lara, de 29 anos, e Tarek Mansour.
Pesquisa da Dune Analytics em parceria com a Keyrock aponta que a Kalshi detém mais de 50% do mercado de preditivos, segundo informações da CNN Money. Previsões esportivas representam 85% do volume negociado na plataforma.
Plataforma transforma eventos futuros em contratos negociáveis
A Kalshi opera como bolsa de negociação onde usuários compram e vendem contratos baseados em eventos futuros. A plataforma abrange eleições, decisões de juros, cultura pop, ciência e esportes.
O modelo funciona como “exchange peer-to-peer“. Os usuários negociam contratos entre si sem que a empresa atue como contraparte nas transações. A plataforma obtém receita através de taxas sobre as operações, calculadas com base nos ganhos esperados de cada contrato.
A lógica operacional se assemelha ao método utilizado pelo Oakland Athletic’s em 2002. O time da MLB (Major League Baseball) conquistou 20 vitórias consecutivas naquela temporada, a maior sequência já registrada na liga. O time alcançou o feito com orçamento inferior ao dos rivais, usando análise estatística para identificar jogadores subvalorizados.
CFTC concede autorização federal em 2020
A Commodity Futures Trading Commission (CFTC) autorizou a Kalshi em 2020 para atuar como bolsa de derivativos de eventos nos Estados Unidos. A empresa se tornou a primeira autorizada a operar nesse segmento.
A Kalshi passou seus primeiros anos buscando autorização da CFTC. O órgão regulador americano classifica a empresa como bolsa de contratos de eventos, diferenciando-a de aplicativos de apostas esportivas tradicionais.
A regulamentação impede que a Kalshi lucre diretamente com as perdas dos investidores. A plataforma recebe sua taxa independentemente de qual lado vence nas negociações.
Volume mensal do setor cresce de US$ 100 milhões para US$ 13 bilhões
O mercado de preditivos registrou expansão exponencial desde a regulamentação da Kalshi. O volume mensal movimentado saltou de US$ 100 milhões para US$ 13 bilhões em dezembro de 2025, conforme dados verificados pela Dune Analytics e pela Keyrock.
O número de transações realizadas até novembro do ano passado alcançou 43 milhões. O volume representa crescimento 180 vezes superior ao registrado dois anos antes.
Contratos eleitorais geram movimentação de US$ 535 milhões
A Kalshi tornou-se a única empresa autorizada a operar contratos envolvendo eleições nos Estados Unidos em 2024. A atividade permanecia proibida no país havia 100 anos.
Durante a disputa presidencial entre Donald Trump, atual presidente, e Kamala Harris, a plataforma ofereceu contratos baseados no resultado eleitoral. As plataformas ofereciam contratos divididos em dois papéis binários: “SIM” e “NÃO”. Os preços variavam entre US$ 0,01 e US$ 0,99, refletindo a probabilidade de vitória de cada candidato. US$ 1 equivale a cenário de 100% de chance de o evento ocorrer.
A Kalshi movimentou aproximadamente US$ 535 milhões (R$ 2,6 bilhões) durante a disputa presidencial. Mais da metade desse montante foi aplicada em contratos que indicavam Donald Trump como vencedor, cenário que efetivamente se concretizou.
Cada investidor compra o papel correspondente ao cenário em que acredita. Diferentemente de aposta tradicional, pode revender esse contrato a qualquer momento, evitando ficar preso ao prejuízo.
Federal Reserve utiliza dados da plataforma para decisões econômicas
O Fed (Federal Reserve), banco central americano, utiliza pesquisas da Kalshi como termômetro para decisões econômicas. A reunião de diferentes opiniões dentro da plataforma se converte em previsões mais assertivas.
Um estudo publicado pelo Fed explicou o motivo dessa escolha. Desde que entrou em operação em 2021, as previsões da Kalshi demonstraram precisão significativamente maior do que projeções tradicionais de analistas. A empresa acertou com exatidão a taxa efetiva do Fed no dia de cada reunião desde 2022. Nem pesquisas convencionais nem mercados futuros tradicionais conseguiram alcançar esse feito.
O estudo aponta que mercados de derivativos oferecem insights únicos e em tempo real. Os investidores reagem imediatamente a notícias e à divulgação de indicadores econômicos. Pesquisas e modelos tradicionais costumam fornecer apenas estimativas pontuais e atualizadas com pouca frequência.
A acessibilidade da Kalshi a investidores fora das instituições financeiras cria uma perspectiva diferente daquela observada em mercados mais nichados. Isso oferece uma visão complementar sobre como as expectativas econômicas são formadas.
Rodadas de investimento elevam valuation para US$ 22 bilhões
Sequoia Capital e Paradigm realizaram investimentos milionários que transformaram a Kalshi em empresa “unicórnio”, com avaliação de US$ 2 bilhões. Uma rodada posterior de investimentos elevou o valuation da startup para US$ 22 bilhões.
Parceria com Robinhood impulsiona segmento esportivo
A aliança com a corretora Robinhood posicionou a Kalshi no segmento esportivo, que representa atualmente a maior parte de seu negócio. Este setor movimenta grande volume financeiro e alta frequência de negociações.
O acordo com a Robinhood permitiu que estados americanos que não autorizam apostas esportivas abrissem espaço para a empresa, já regulamentada pela CFTC. Clientes da Robinhood passaram a negociar contratos da Kalshi diretamente de suas contas.
O Fed não é o único a utilizar dados da Kalshi como base para análises e debates. Parcerias estratégicas firmadas pela plataforma representam outro motor importante para a expansão da empresa.
Polymarket opera sem regulamentação da CFTC
A Polymarket, principal concorrente da Kalshi, não possui regulamentação da CFTC. A plataforma opera na blockchain Polygon.
As negociações individuais são públicas na Polymarket. A plataforma opera inteiramente on-chain na blockchain Polygon. Qualquer pessoa pode ver o valor das negociações de usuários individuais, o momento em que foram realizadas e quanto cada carteira lucrou no final.
A Polymarket permite negociações em criptomoedas. O cadastro é pseudônimo. Não exige documento ou KYC, embora todas as operações fiquem permanentemente vinculadas ao endereço público da carteira. A plataforma é altamente transparente, e não anônima no sentido estrito.
Nevada e Nova Jersey contestam operações da empresa
Nevada e Nova Jersey tentaram classificar as operações da Kalshi como jogos de azar. Nevada alegou que a Kalshi não possuía licença estadual para esse tipo de atividade. O estado também afirmou que a plataforma permitia que menores de 21 anos — idade legal para jogos nos Estados Unidos — negociassem contratos de eventos futuros. A decisão favoreceu o estado em março de 2026 e foi prorrogada em abril.
Nova Jersey enviou uma notificação extrajudicial à empresa. O estado alegou que a inclusão de contratos esportivos na plataforma violava leis estaduais que proíbem apostas em esportes universitários.
A Kalshi processou o estado. A empresa argumentou que seus contratos se enquadram como “swaps“, um tipo de derivativo financeiro que, segundo a Commodity Exchange Act, só pode ser regulamentado pela CFTC — o mesmo órgão que concedeu à empresa a licença para operar como mercado designado de contratos (DCM).
Nova Jersey recorreu após decisão favorável à Kalshi em primeira instância. A maioria dos juízes do painel do 3º Circuito concluiu que a Commodity Exchange Act provavelmente prevalece sobre a legislação estadual.
Banco Central brasileiro proíbe operações em abril
O Banco Central brasileiro proibiu as operações da empresa e de qualquer mercado de previsões em 24 de abril de 2026. A autoridade considerou que seus contratos configuram apostas não esportivas — prática ilegal segundo a Lei das Bets.
A Kalshi mantém contratos esportivos. A plataforma também oferece papéis envolvendo acontecimentos como a estreia da 22ª temporada do reality show The Bachelor ou a possibilidade de Donald Trump visitar a China até abril.
A resolução publicada em abril impede que plataformas ofereçam apostas relacionadas a eleições, jogos, reality shows e outros acontecimentos sem natureza econômica, a critério da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Parceria com XP mantém acesso de brasileiros a contratos econômicos
O plano da Kalshi de operar no Brasil não foi totalmente interrompido. A empresa apostou em uma estratégia de expansão via parceria com a corretora XP.
Clientes da XP continuam podendo aplicar em contratos econômicos da Kalshi por meio de contas internacionais, mesmo após o bloqueio. Usuários internacionais conseguem acessar a plataforma da Kalshi por meio de contas registradas fora do país.
CFTC reduz quadro de funcionários em 24%
A Commodity Futures Trading Commission (CFTC) registrou uma redução de 24% em seu quadro de funcionários desde o retorno de Donald Trump ao poder. Os dados mais recentes divulgados pela própria CFTC confirmam que a agência atingiu o menor tamanho dos últimos 15 anos.
A diminuição no número de funcionários ocorre simultaneamente ao crescimento dos mercados preditivos. Essa redução levanta preocupações sobre a capacidade da agência de combater o insider trading (negociações com informações privilegiadas) e proteger os consumidores.
As autoridades responsáveis por supervisionar o setor vêm enfrentando críticas por se mostrarem cada vez mais flexíveis em relação às regras. A flexibilização coincide com o período de expansão dos mercados preditivos.
Empresa adota medidas contra negociações com informações privilegiadas
A Kalshi se posiciona publicamente contra o insider trading. A empresa evita negociar contratos considerados sensíveis, incluindo captura ou morte de líderes políticos, invasões militares e guerras. A plataforma suspende usuários suspeitos de operar com informação privilegiada.
Legislação federal garante continuidade das operações
A Kalshi continua suas atividades amparada pela legislação federal dos Estados Unidos, mesmo diante de contestações regulatórias. A proteção legal federal garante os interesses da empresa e permite sua expansão no mercado de preditivos.
Parte do mercado contesta a legitimidade das operações da Kalshi. Há questionamentos se a empresa funciona como bolsa de contratos de eventos ou como aplicativo de apostas esportivas. Mesmo amparada pela CFTC, que a classifica como bolsa de contratos de eventos, parte do mercado a enxerga como mais um aplicativo de apostas esportivas, contestando a legitimidade de suas operações.


