Jogo responsável como agenda: o que o Brasil pode aprender com a Inglaterra

Apostas I 23.07.25

Por: Magno José

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Jogo responsável como agenda: o que o Brasil pode aprender com a Inglaterra
A diferença crucial entre os dois países está na forma como lidam com o problema. No Reino Unido, o jogo patológico é tratado como questão de saúde pública

Por muito tempo, a discussão sobre jogo responsável ficou restrita ao universo regulatório. Algo distante, quase técnico, tratado em cláusulas contratuais e notas de rodapé. Mas os números não deixam mais espaço para esse tipo de abordagem. Hoje, falar de ludopatia é falar de saúde pública. E mais: é falar de estratégia, responsabilidade e sustentabilidade para o setor de iGaming.

O crescimento das apostas no Brasil vem acompanhado de riscos graves. Dados recentes mostram que hoje cerca de 25,9% da população já apostou alguma vez, com 17,6% fazendo apostas no último ano. Desse total, 38,4% dos apostadores apresentam risco moderado ou transtorno clínico de jogo, com aproximadamente 0,8% da população brasileira enfrentando um caso patológico, conforme a escala PGSI. Entre adolescentes (14–17 anos), o risco atinge mais de 55% dos que já apostaram, segundo dados do estudo LENAD/Unifesp de 2023.

Ao mesmo tempo, a Inglaterra oferece um retrato que, embora mais amadurecido do ponto de vista regulatório, revela desafios semelhantes. A Health Survey for England 2021 aponta que 50% dos adultos apostaram pelo menos uma vez no ano, sendo 10% em atividades online. Cerca de 2,8% foram identificados com comportamento de risco ou problemático, com 0,3% classificados como jogadores com transtorno grave. O dado sobe para 4,4% entre os homens, evidenciando a necessidade de um olhar atento para esse recorte populacional.

A diferença crucial entre os dois países está na forma como lidam com o problema. No Reino Unido, o jogo patológico é tratado como questão de saúde pública. O impacto social estimado ultrapassa £1,27 bilhão por ano, considerando suicídios, perdas financeiras e danos familiares. O NHS dobrou o número de encaminhamentos para tratamento em um ano e hoje conta com 15 clínicas especializadas. Além disso, políticas públicas vêm sendo integradas a estratégias de monitoramento em saúde mental, incluindo a recomendação para que médicos da atenção primária perguntem rotineiramente sobre comportamento de jogo.

No Brasil, embora os atendimentos no SUS por problemas relacionados ao jogo tenham crescido de 108 (em 2018) para cerca de 1.200 em 2023, não existe uma estrutura nacional formal de acolhimento, nem protocolos clínicos específicos ou campanhas de prevenção consistentes. Isso deixa milhões de jogadores — sobretudo os mais jovens — expostos a riscos silenciosos.

O avanço da regulamentação do iGaming é um passo relevante, mas ele não pode caminhar sozinho. O setor precisa compreender que a sustentabilidade da indústria está diretamente ligada à responsabilidade com o usuário. Nesse sentido, ferramentas como o KYP (Know Your Player) tornam-se ainda mais valiosas: ao permitir o monitoramento de padrões de comportamento e a identificação precoce de risco, elas podem atuar preventivamente e de forma personalizada, protegendo o jogador e a integridade da operação.

A experiência britânica nos ensina que não basta apenas legislar: é necessário planejar, investir em sustentabilidade e responsabilizar operadores por práticas que vão além da lucratividade. O Brasil tem agora a chance de construir um modelo próprio — mais atento às vulnerabilidades locais, mais tecnológico e mais humano. Ignorar essa responsabilidade é repetir erros já documentados em outros contextos.

Porque o jogo deve ser entretenimento. Mas quando ultrapassa limites, deixa de ser diversão. E ninguém — nem os jogadores, nem o setor — se beneficia disso.

 

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