Debatedores do Estudio i, da GloboNews, criticam plano de Lula para proibir as bets

O Estudio i, da GloboNews, apresentado por Andréa Sadi, dedicou parte de sua edição desta segunda-feira (21) a discutir os desafios do presidente Lula na corrida eleitoral — e o tema das bets surgiu como um dos pontos centrais do debate, com posicionamentos majoritariamente contrários a uma proibição do setor.
O repórter Pedro Figueiredo abriu o bloco apresentando um levantamento inédito do Datafolha, mostrando que Lula é o único presidente, desde a redemocratização, que não conseguiu melhorar sua avaliação de governo às vésperas de uma eleição — ao contrário de Fernando Henrique Cardoso (2006), do próprio Lula (2006) e até de Jair Bolsonaro (2022), que, apesar de ter perdido o pleito, teve variação positiva na avaliação ótima/boa.
Segundo os dados apresentados, a avaliação ruim/péssima do governo Lula subiu de 38% em julho para 42% em setembro, enquanto a ótima/boa cresceu apenas de 32% para 34% no mesmo período — dentro da margem de erro.
É nesse contexto de dificuldade eleitoral que a possível medida contra as bets foi enquadrada pelos debatedores: não como uma decisão técnica ou regulatória, mas como uma resposta política a um cenário de desgaste.
“É escandaloso”, diz Merval Pereira
O colunista Merval Pereira foi o mais contundente. Classificou como incoerente a guinada do governo, que criou o imposto sobre as bets por necessidade fiscal e agora avalia proibi-las por cálculo eleitoral:
“A BET foi o governo que aprovou, porque precisava de dinheiro, e agora vai cortar. Então é muito confuso, é tudo pra tentar ganhar um apoio em determinados segmentos da sociedade, mas muito incoerente.”
Mais adiante, Merval qualificou a possível medida de “escandalosa”:
“Agora, isso é escandaloso. Se ele fizer isso na última semana […] a Dilma dizia que a gente faz o diabo pra ganhar eleição, mas isso aí já não é mais fazer o diabo.”
Merval também fez um reparo em sua própria fala, esclarecendo que a regulamentação das bets não nasceu no governo Lula, mas no governo Michel Temer, sem regulamentação à época, prosseguindo sem cobrança de imposto durante toda a gestão Bolsonaro. Para ele, coube ao governo Lula apenas “cobrar um imposto, porque precisava arrecadar”, e não há, portanto, incoerência em tributar o setor — a crítica permanece quanto à ameaça de proibição abrupta.
Valdo Cruz defende que as apostas não sejam proibidas
O jornalista Valdo Cruz foi o debatedor que se posicionou de forma mais explícita contra a proibição. Ele situou o debate no histórico regulatório do setor — criado no governo Temer, sem regulamentação no governo Bolsonaro — e defendeu abertamente que a atividade continue permitida, sob regras mais rígidas:
“Você tem que estabelecer regras, sim. Você tem que apertar o cerco, sim, mas você vai simplesmente acabar com um setor do país de uma hora para outra? […] Eu acho que demonstra uma falta de segurança jurídica nessa questão, que o governo precisa entender como vai atuar.”
Cruz também criticou o timing da medida, sugerindo que ela é movida por cálculo eleitoral de última hora: “agora vai voltar para ter um ganho eleitoral nessa reta final. Como disse o Merval, vale tudo para ganhar uma eleição?”
Octavio Guedes: bets entraram na pauta via redes sociais
Octavio Guedes trouxe uma leitura sobre como o tema ganhou força na campanha — não por decisão estratégica de marqueteiros, mas por monitoramento de redes sociais, que identificou a associação entre o aumento do Bolsa Família e pedidos de “freio” nas bets:
“Essa história das bets surgiu das redes sociais. Começaram a monitorar e viram que quando houve o aumento do Bolsa Família, a menção dessa história do Bolsa Família estava quase igual a um apelo para que houvesse um freio das bets.”
Guedes descreveu um cenário de campanha “fluida”, guiada por captura de atenção em tempo real, e não por um rumo estratégico definido — um contraponto relevante para entender a origem da pauta antibets dentro do Planalto.
Thomas Traumann: uma campanha “perdida”
Thomas Traumann fez o contraponto histórico com campanhas anteriores e classificou o atual momento da candidatura de Lula como de desorientação, citando o excesso de medidas de última hora (Bolsa Família, isenção de imposto de renda, perdão de dívidas, “caneta emagrecedora”) como sintoma de uma campanha sem mensagem clara:
“Eu acho que ele está perdido, não só nas coisas que faz e volta atrás, como em que rumo quer.”
Embora não tenha se debruçado tecnicamente sobre a regulação das bets, Traumann incluiu a medida no mesmo pacote de “coelhos tirados da cartola” da reta final — reforçando o enquadramento crítico predominante no debate.
Miriam Leitão: custo de vida como pano de fundo
Miriam Leitão concentrou sua participação no tema do custo de vida e na dificuldade do governo em comunicar resultados econômicos positivos (desoneração do salário e do imposto de renda, inflação menor que no governo anterior), sem entrar diretamente na discussão sobre a proibição das bets. Sua fala reforça, ainda assim, o diagnóstico do bloco: um governo com dificuldade de traduzir ações em aprovação popular, testando a bet como uma resposta em meio a esse impasse.
O consenso do bloco
Do conjunto de falas, um padrão se impõe: nenhum dos cinco debatedores do Estudio i defendeu a proibição das bets como medida acertada. Merval e Valdo Cruz foram explícitos na crítica — o primeiro pela incoerência entre criar o tributo e depois suprimir o setor, o segundo pela falta de segurança jurídica de uma medida abrupta após anos de operação regulamentada. Octavio Guedes e Thomas Traumann contextualizaram a decisão como resposta a pressão de redes sociais e desespero eleitoral de última hora, mais do que como política pública deliberada.
O episódio — exibido nesta segunda-feira (21/9), horas antes da expectativa de que Lula anuncie uma medida provisória sobre o tema ao retornar da Assembleia Geral da ONU — ilustra como a discussão sobre a regulação das apostas esportivas no Brasil já extrapolou o debate técnico-regulatório e passou a ocupar o centro do debate político-eleitoral, inclusive entre analistas que historicamente não integram o núcleo de cobertura especializada do setor.


