XP firma acordo com Kalshi e passa a oferecer mercado preditivo no Brasil

Apostas I 09.03.26

Por: Magno José

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XP firma acordo com Kalshi e passa a oferecer mercado preditivo no Brasil
Corretora brasileira disponibiliza produtos vinculados a inflação e juros do país através da Clear para clientes com conta internacional nos EUA. Clientes da Clear com conta internacional poderão negociar contratos tipo “sim ou não” sobre indicadores econômicos brasileiros na plataforma

A corretora brasileira XP estabeleceu parceria com a plataforma americana Kalshi para disponibilizar contratos de previsão vinculados a indicadores econômicos do país. O anúncio foi feito em março de 2026. Os produtos estarão acessíveis inicialmente para clientes da Clear Corretora com conta internacional.

A iniciativa marca a primeira expansão internacional da Kalshi fora dos Estados Unidos. Segundo informações da Bloomberg News, a plataforma passará a oferecer contratos do tipo “sim ou não” relacionados a eventos da economia brasileira, como variações na inflação e nas taxas de juros. A cofundadora da Kalshi, Luana Lopes Lara, confirmou a operação. “Desde quando começou, em 2018, 2019, a Kalshi está dentro do mercado regulado, não lançou nenhum produto antes de ter tudo legalizado, a nossa expansão internacional também vem com isso”, afirma Lara. “Por essa razão, a gente consegue parcerias como a da XP e estamos começando a olhar também para outros países.”

Os contratos preditivos ficarão disponíveis tanto para investidores americanos que já utilizam a Kalshi quanto para determinados usuários da XP no Brasil. As operações serão feitas com a necessidade de fechamento de câmbio e remessa de recursos para o exterior. Os produtos serão listados através da corretora da empresa nos EUA.

Estratégia de expansão e diversificação

A Kalshi busca aproveitar a estrutura de parceiros locais estabelecidos em sua estratégia de expansão internacional. “Faz sentido para nós avançarmos por meio destes parceiros internacionais”, afirmou Luana, que é brasileira. “Eles já têm os clientes, têm a marca.”

A cofundadora da Kalshi entrou recentemente para a lista da Forbes como a bilionária mais jovem do mundo a ter construído sua própria fortuna, sem herança.

Para a XP, a parceria representa uma oportunidade de diversificação de produtos. Lucas Rabechini, diretor de produtos financeiros da XP Inc., explicou: “Quando vimos os mercados de previsão, vimos mercados que poderiam ser não apenas inovadores, mas também disruptivos”. A experiência do cliente vai ser 100% digital e em tempo real. No próprio ambiente da Clear, feito o câmbio, o investidor vai acessar um cardápio selecionado de ativos da Kalshi, que por trás é a ponta que realiza de fato as transações. A receita da taxa de distribuição vai ser dividida entre as partes.

Rabechini acrescentou: “Vemos muitas notas estruturadas e opções de juros sendo negociadas nos mercados tradicionais. Nos mercados de previsão, vemos algo comparável em termos de ativos e retorno”. “A diferença fundamental é que a XP não é contraparte das ordens, os clientes se encontram na plataforma, é mais o modelo de brokerage [corretagem], a formação de preços se dá por oferta e demanda, não há centralização ou trabalho de formação de mercado.”

A oferta inclui cerca de 60 ativos, que desafiam o investidor a responder questões sobre o nível que o S&P500 vai fechar em 2026, o próximo movimento de alta de juros pelo Fed, quando o bitcoin vai bater os US$ 150 mil, a valorização do dólar/real no ano. Temas mais ligados ao Brasil também devem ser incluídos, a exemplo de taxa de desemprego e inflação, antecipa Lara.

A XP tem buscado ampliar suas ofertas de produtos, especialmente após o período pós-pandemia, quando a negociação de ações passou a contribuir menos para seu crescimento devido à elevação das taxas de juros. A empresa tem expandido suas operações para áreas como private banking.

A corretora brasileira registrava 4,8 milhões de clientes ativos em dezembro. A empresa opera um “supermercado de investimentos” e é a maior corretora do Brasil.

Perspectivas para o mercado brasileiro

Luana Lopes Lara avaliou as perspectivas para o mercado brasileiro: “Vemos o Brasil da forma como os EUA eram anos atrás em relação aos mercados de previsão. É o nosso segundo país, então poderemos avançar muito mais rápido do que fizemos nos EUA quando começamos”.

A Kalshi negocia cerca de US$ 120 bilhões por ano atualmente, e esse volume pode ser “multiplicado por 10, 100 vezes com a expansão internacional com parceiros grandes”, afirma a fundadora. Questionada se outros acordos com plataformas de origem brasileira seriam fechados, Lara diz que não poderia abrir mais detalhes sobre a negociação com a XP, apenas sinalizou que a plataforma foi muito rápida em deixar a tecnologia pronta para tal conexão tornar-se logo operacional.

O Brasil ainda não possui regulamentação específica para mercados de previsão. Este tipo de negociação, conhecido pelo jargão de “mercado preditivo”, não tem regulação no país, embora seja um negócio em crescimento nos EUA e globalmente. No Brasil, o lançamento de produtos ligados ao mercado preditivo depende ainda do desenho regulatório e sinal verde da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A tendência é que a autarquia trate-os como derivativos, autorizando aqueles relacionados a ativos financeiros, num primeiro momento. Não deve ser uma oferta para o investidor de varejo, mas restrita ao perfil profissional, com patrimônio financeiro a partir de R$ 10 milhões. A B3 negocia para que a opção seja estendida ao varejo.

O Ministério da Fazenda do Brasil está acompanhando a evolução desse mercado e iniciou conversas preliminares sobre o assunto, conforme comunicado divulgado pela pasta.

Rabechini afirmou que ser pioneira nos mercados de previsão é “central” para a XP. Ele cita que mais do que o potencial de curto prazo, a XP quis ser uma das primeiras a adotar a inovação que “talvez um dia vá se fundir com o mercado tradicional”. Depois da largada com clientes da Clear, o projeto pode expandir para a base da XP Investimentos.

Crescimento do mercado de previsões

O mercado de previsões tem apresentado crescimento nos EUA. A empresa de pesquisa Eilers & Krejcik estima que esse mercado pode atingir um volume anual de US$ 1 trilhão.

O negócio da Kalshi nos Estados Unidos cresceu de forma expressiva no último ano, impulsionado principalmente pela expansão de apostas esportivas na plataforma. A empresa também oferece possibilidades de apostas em eleições e eventos geopolíticos.

A Kalshi havia anunciado em 2025 planos de expandir para mais de 140 países. A operação no Brasil representa um dos primeiros movimentos concretos dessa estratégia de expansão.

Plataformas como Kalshi e Polymarket já hospedam contratos relacionados ao Brasil. A B3, bolsa de valores brasileira, também planeja entrar nesse mercado, de acordo com o jornal Valor Econômico.

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