Apostas e futebol: autor explica dependência mútua entre indústria bilionária e Premier League

Apostas I 31.07.26

Por: Magno José

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Apostas e futebol: autor explica dependência mútua entre indústria bilionária e Premier League
Darragh McGee detalha em “Imitation Games” como desregulamentação e “jogos de imitação” viciam jovens em plataformas digitais (Foto: Divulgação)

O livro “Imitation Games”, do pesquisador irlandês Darragh McGee, apresenta uma investigação sobre como a indústria digital de apostas esportivas deixou de ser uma curiosidade de nicho para se tornar um setor global que movimenta bilhões de dólares. A obra, ainda sem edição publicada no Brasil, examina a conexão entre o crescimento das apostas online e o fenômeno da Premier League.

A análise foi destacada pelo Financial Times, que aponta como mérito central do livro justamente esse elo: o enorme sucesso da liga inglesa em conquistar torcedores ao redor do mundo criou o ambiente perfeito para a expansão das plataformas de apostas. McGee acompanha a trajetória do setor desde o governo trabalhista de Tony Blair, quando a expansão da internet começou a se entrelaçar ao cotidiano das pessoas.

Desregulamentação como ponto de partida

Naquele período, a supervisão das apostas no Reino Unido migrou do Departamento do Interior para o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte (DCMS), batizado informalmente de “Ministério da Diversão”. Em 2003, o DCMS declarou o objetivo de tornar o Reino Unido líder mundial no campo das apostas online. A aprovação da Lei do Jogo, em abril de 2005, abriu caminho para a ofensiva sobre os torcedores.

A Premier League vivia sua própria expansão no mesmo período. Na temporada 2004-2005, a liga registrou receitas de quase 1,3 bilhão de libras. Vinte anos depois, esse valor já havia mais do que quintuplicado.

McGee descreve os chamados “imitation games” como a estratégia central da indústria para atrair torcedores. Nos jogos de imitação, apostadores acreditam estar usando conhecimentos esportivos para vencer, o que transforma a aposta em algo que parece uma competição inofensiva. “Os jovens são particularmente suscetíveis à ideia de que estão usando o conhecimento para levar vantagem”, afirma o autor, ele próprio uma vítima das apostas no passado.

Mecanismos de retenção e dependência

As probabilidades, porém, estão sempre contra os apostadores. As ofertas de “aposta grátis” impõem limites baixos, e os prêmios são pagos em grande parte como créditos para novas rodadas. Apostadores que demonstram alguma habilidade são barrados pelo mecanismo de “stake factoring“, que ajusta os limites de aposta conforme o perfil do cliente e impede que eles aumentem seus valores.

Apoiando-se no trabalho da antropóloga cultural americana Natasha Dow Schüll, McGee identifica o estado de transe da chamada “zona da máquina” também nas apostas via smartphone. O “tempo de uso do dispositivo” e a “captura cognitiva” são, segundo o autor, os fatores-chave para manter milhões de clientes viciados.

À medida que os lucros de grupos como Bet365, Paddy Power e Betfair cresceram nos anos 2000, o setor passou a converter apostadores esportivos em jogadores de cassino. Jovens torcedores que começavam com apostas simples em seus times passaram a receber incentivos para usar máquinas caça-níqueis disponíveis nos próprios aplicativos.

Apostas e futebol inglês, uma dependência mútua

O vínculo financeiro entre apostas e futebol é profundo. A Sky Bet, pertencente ao grupo Flutter, que também controla a Paddy Power e a Betfair, patrocina a English Football League, as divisões inferiores do futebol inglês. Dois donos de clubes da Premier League, Tony Bloom (Brighton & Hove Albion) e Matthew Banham (Brentford), mantêm vínculos com o setor de apostas esportivas, sobretudo na Ásia, por meio de empresas de análise de dados.

Quando a pressão pública contra as apostas online ganhou força, a resposta da indústria foi atribuir a responsabilidade às próprias vítimas. O setor passou a defender o conceito de “apostas mais seguras”; ativistas e vítimas exigem o fim de toda publicidade de apostas associada ao futebol.

O modelo britânico se disseminou pela Ásia, chegou aos Estados Unidos e à África, com efeitos semelhantes sobre jovens fãs de esportes suscetíveis a esse tipo de estímulo. A proibição voluntária de patrocínios de marcas de apostas na Premier League está prevista para entrar em vigor a partir da temporada 2026-2027. McGee observa, no entanto, que na Série A italiana e na Pro League da Bélgica patrocinadores do setor têm recorrido à criação de submarcas, como empresas de meios de pagamento, para dissimular a origem dos recursos. Para o autor, a probabilidade de uma resolução rápida do dilema que as apostas representam para o esporte é baixa.

 

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