Ataques às bets legais têm mão do mercado ilegal, suspeita setor regulado

Apostas I 06.08.26

Por: Magno José

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Ataques às bets legais têm mão do mercado ilegal, suspeita setor regulado
Operadores identificam padrão em campanhas de descrédito e apontam possível financiamento por redes ilegais, com destaque para esquemas vindos do Sudeste Asiático; proibição, alertam, só beneficiaria o crime organizado

Enquanto o debate público sobre apostas esportivas se acirra, operadores do mercado regulado começaram a notar um padrão nos ataques: os argumentos se repetem, os estudos têm o mesmo conceito e o financiamento por trás das campanhas de impulsionamento nas redes sociais apontam para origens difusas. A hipótese que ganhou força entre esses operadores legalizados é incômoda: parte da ofensiva contra as bets legalizadas pode estar sendo financiada pelo próprio mercado ilegal que a regulação veio combater.

O setor de apostas esportivas e jogos online no Brasil enfrenta uma campanha sistemática de descrédito. Veículos de mídia têm atribuído ao segmento uma série de males sociais; endividamento da população, patologias; com base em estudos cuja metodologia é questionável, como o BNLData já apontou em coberturas anteriores sobre o Boletim Fiscal dos Estados e os relatórios do Banco Central e da CNC/Febraban. O que está em jogo não é apenas a reputação de um setor econômico: é a escolha entre regular ou abrir caminho para a ilegalidade.

A suspeita que o setor regulado levanta

Uma fonte ligada a operadoras de apostas legalizadas, que pediu para não ser identificada, relatou ao BNLData que operadores do mercado regulado identificaram indícios de que parte dos conteúdos e campanhas de impulsionamento nas mídias sociais contrários às bets teria origem no mercado ilegal. O mecanismo descrito envolve tanto empresas clandestinas quanto intermediários que operam formalmente em outros setores e que têm legitimidade para operar no Brasil e que estariam patrocinando ataques às plataformas legalizadas.

“Estamos preocupados com a possibilidade de que grupos ligados ao mercado ilegal, provavelmente o chinês, que ainda possui grande relevância e escala no Brasil, estejam por trás dessas investidas”, disse a fonte. “O objetivo seria inviabilizar a legalização do setor para que, com o retorno à ilegalidade, cessem as ações de combate que vêm sendo implementadas.”

A lógica por trás dessa hipótese tem respaldo em dados do próprio mercado. Estudo do Instituto Esfera, divulgado em fevereiro de 2026, estima que o mercado ilegal já responde por 41% a 51% das apostas online no Brasil, movimentando entre R$ 26 bilhões e R$ 40 bilhões por ano. Relatórios internacionais indicam que a chamada “Grande China” pode concentrar quase metade do volume global de apostas ilegais, com operações estruturadas a partir de países como Filipinas, Camboja, Mianmar, Laos, Tailândia e Vietnã, regiões onde controle estatal limitado permite que esquemas de fraude e lavagem de dinheiro prosperem.

No Brasil, esse fluxo já ganhou apelido: “bets chinesas”. O esquema usa CPFs de terceiros, os chamados laranjas, para simular cadastro legal no sistema do Ministério da Fazenda e dar aparência de regularidade a operações que, na prática, seguem fora da regulação.

Proibir beneficia quem?

O alvo mais imediato da pressão é o “jogo do Tigrinho” (permitido pela legislação brasileira) e os jogos online em geral, com demandas crescentes pela proibição da modalidade. Especialistas do setor regulado advertem que essa seria precisamente a saída mais conveniente para os operadores ilegais. A avaliação é que uma proibição não elimina a demanda por jogos; desloca-a para estruturas criminosas, como o próprio histórico do mercado asiático demonstra.

Essa preocupação ganha contornos mais concretos quando se observa o que está em jogo. Em 2025, o mercado regulado da modalidade lotérica de apostas de quota fixa registrou Gross Gaming Revenue (GGR) de R$ 36.959.783.379,70, segundo o Ministério da Fazenda. Foram 25.245.319 brasileiros que apostaram naquele ano, o equivalente a 12,96% da população, com ticket médio mensal de R$ 122,00. Esses números representam arrecadação tributável, fluxo rastreável e consumidores com proteção regulatória. Um mercado proibido não gera nenhum desses benefícios.

Transparência como antídoto

Grande parte dos problemas de reputação do setor deriva de uma lacuna estrutural: a falta de transparência dos dados enviados pelas plataformas ao Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Sem um painel público com GGR mensal, perfil e quantidade de apostadores, ticket médio e outros indicadores, o vazio informacional é preenchido por estudos de metodologia frágil; frequentemente com viés contrário ao setor.

O relatório do Banco Central, os estudos da CNC e da Febraban figuram entre os exemplos citados por operadores como narrativas construídas sobre essa ausência de dados oficiais consolidados. A publicação mensal dessas informações pelo poder público tornaria mais difícil a circulação de argumentos sem respaldo empírico.

A questão de fundo, porém, vai além da disputa de narrativas. “Regular é governar: quando o Estado se ausenta, a ilegalidade ocupa o espaço”, disse a fonte ouvida pela reportagem. O debate sobre apostas no Brasil tende a se polarizar entre liberar e proibir; mas o que os números do mercado regulado e as estimativas sobre o mercado ilegal sugerem é que a verdadeira escolha já foi feita pela demanda. O que resta decidir é quem controla a oferta.

 

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