Zema distorce dados em proposta de banir apostas online

Romeu Zema prometeu, nesta terça-feira (18/8), que seu primeiro ato como presidente seria proibir todas as casas de apostas no Brasil. A declaração foi feita em São Paulo, em encontro com mulheres que tiveram familiares prejudicados por jogos de azar online. Para sustentar a proposta, o candidato do Novo citou números que o BNLData foi verificar, e o resultado compromete a base factual do argumento.
Os números apresentados por Zema não encontram respaldo em fontes científicas ou oficiais. O candidato afirmou haver “180 mil tentativas de suicídio” motivadas pelas bets e “quase 10 milhões de pessoas vulneráveis ao vício” no Brasil, sem indicar a origem de nenhum dos dois dados.
O que dizem os números reais
O BNLData obteve, via Lei de Acesso à Informação (LAI), que o Brasil tem 30,9 milhões de apostadores. Aplicando sobre essa base a taxa mais alta reconhecida pela literatura científica internacional, o cálculo chega a um número radicalmente diferente do citado pelo candidato.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o transtorno do jogo afeta entre 1,2% e 1,4% da população adulta exposta. Uma meta-análise publicada na revista The Lancet Public Health fixou esse percentual em 1,41%. Ao aplicar a estimativa mais alta sobre os 30,9 milhões de apostadores brasileiros, o país pode ter cerca de 435 mil pessoas com comportamento problemático, mas não 10 milhões.
A diferença é de uma ordem de magnitude difícil de ignorar. O número de Zema é mais de 20 vezes superior à estimativa da OMS. Para que fosse verdadeiro, o Brasil teria uma taxa de dependência em apostas 23 vezes acima da média mundial, o que implicaria 1 em cada 3 apostadores (32,4%) com transtorno de jogo. Esse percentual não tem paralelo em nenhuma substância ou comportamento aditivo estudado, sequer no álcool, cuja taxa de transtorno por uso é amplamente documentada e ainda assim bem mais baixa.
A aritmética dos suicídios
A afirmação de “180 mil tentativas de suicídio” vinculadas às bets enfrenta dois problemas simultâneos; ausência de fonte e contradição com os sistemas oficiais do Ministério da Saúde.
O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) registrou 16.462 suicídios consumados em 2022/2023, ante 10.533 em 2013. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) contabilizou entre 120 mil e 40 mil a 50 mil tentativas de suicídio nos mesmos períodos comparativos. Em um recorte de cinco anos, de 2018 a 2022, o SINAN acumulou 556.152 notificações de lesões autoprovocadas.
Atribuir 180 mil casos exclusivamente às apostas online exigiria um estudo de correlação causal que rastreasse a motivação específica de cada ocorrência. Esse estudo não existe. Estudos globais e nacionais indicam, além disso, que entre 90% e 95% das pessoas que morreram por suicídio apresentavam algum transtorno psiquiátrico preexistente, frequentemente não diagnosticado ou sem tratamento adequado.
O risco de inflacionar o problema
Ao apresentar esses dados em São Paulo, Zema os inseriu em um discurso que equipara a dependência em apostas à dependência química. “Temos hoje no Brasil um problema seríssimo e me parece que as autoridades fecharam os olhos”, disse o ex-governador de Minas Gerais. Para ele, trata-se de “um problema tão grave quanto dependência química, talvez até pior em alguns aspectos”.
A proposta de proibição viria por decreto presidencial. “Suspender o funcionamento de todas as bets aqui. Através de um decreto, o presidente tem poder para fazer o certo”, afirmou Zema. “Se tem alguém fornecendo veneno para a população, primeiro você para de fornecer o veneno, depois você vai ver a solução disso.”
O transtorno do jogo é, de fato, um problema de saúde pública reconhecido. O que a análise do BNLData contesta não é a existência do problema, mas a dimensão atribuída a ele pelo candidato. Ao inflacionar os números em 20 vezes, o discurso compromete o debate sobre soluções baseadas em evidências, como uma calibragem na regulamentação ou campanhas de conscientização.
Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias. Se 180 mil tentativas de suicídio fossem realmente atribuíveis às apostas, esse dado estaria registrado nos sistemas do Ministério da Saúde e seria objeto de mobilização imediata das autoridades de saúde. A ausência desse registro nos bancos oficiais é, por si só, um sinal de alerta sobre a solidez do argumento e da construção de falsas narrativas.
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