Rede chinesa invade sites ‘.gov.br’ em fraude de apostas online

Um relatório da Check Point Research (CPR), assinado pelo pesquisador Amit Yardeni, revelou que um grupo cibercriminoso de língua chinesa — batizado “Gambling Goblin” e com ligações ao cluster “Earth Berberoka”, já associado a ataques ao setor de apostas na Ásia — está invadindo servidores de órgãos públicos brasileiros para impulsionar um esquema internacional de apostas online, revela reportagem do TecMundo.
O que o relatório mostra
Segundo a CPR, o grupo compromete servidores com domínio .gov.br — entre os alvos identificados estão um ministério, uma agência pública federal, uma assembleia legislativa, tribunais de contas estaduais e dezenas de prefeituras — e os usa para manipular resultados de busca do Google. Usuários que clicam nesses resultados são redirecionados a páginas falsas que imitam grandes lojas de aplicativos, como Google Play, Microsoft Store e Amazon, mas que na prática promovem apostas online e esportivas.
A campanha é monitorada pela CPR desde meados de 2025 e já tem variações em vietnamita, espanhol e inglês, com um sistema automatizado que gera novos domínios diariamente para escapar de bloqueios.
Questionada sobre o que pode ser feito diante desse tipo de sequestro de domínios oficiais, a gerente-geral do CERT.br, Cristine Hoepers, foi direta: “não há nada que possa ser feito pelo Registro.br nesses casos”. O problema, segundo ela, está na configuração dos próprios servidores comprometidos — uma falha de segurança, não algo que o registro de domínios tenha como impedir.
O que o TecMundo apurou a mais
Reportagem do TecMundo procurou o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI/PR) e trouxe a resposta oficial do governo ao caso. Segundo o órgão, o Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo (CTIR Gov) não recebeu notificação de vazamento de dados de cidadãos ou de servidores ligados aos episódios descritos no relatório da CPR. O GSI também deixou claro que a correção técnica é responsabilidade de cada órgão afetado — ao CTIR Gov cabe apenas orientar tecnicamente no início do processo, já que atribuir a autoria de um ataque a um grupo específico depende de correlacionar diferentes elementos técnicos e de inteligência.
A reportagem traz ainda dois dados que ajudam a dimensionar o problema: a maior parte das ocorrências citadas pela Check Point está em prefeituras, e esse tipo de sequestro de servidores para manipular buscas já havia motivado uma recomendação do próprio CTIR Gov em 2024 — ou seja, o governo já sabia da vulnerabilidade antes deste episódio vir a público.
Outro ponto reforçado pela reportagem é o uso de inteligência artificial pelos criminosos para automatizar etapas do ataque, e a informação de que o Brasil aparece como o principal mercado dos golpistas no momento — o que reforça a leitura de que o país é hoje um alvo prioritário, e não incidental, para esse tipo de operação voltada a apostas.
A leitura que fazemos
O caso é uma peça de evidência relevante para um debate que volta com frequência à mesa: a viabilidade de proibir as apostas em jogos de cassino online no Brasil.
Se o Estado brasileiro não consegue proteger sua própria infraestrutura oficial — domínios .gov.br, com toda a autoridade institucional que carregam — de ser sequestrada por uma rede internacional de apostas ilegais, é razoável questionar a capacidade de enforcement de qualquer proibição que dependa de bloquear o acesso de apostadores a plataformas fora do perímetro regulatório nacional.
É importante frisar: o relatório da CPR documenta uma fraude de phishing e manipulação de SEO — não mede fluxo de apostadores nem prova migração para operadores ilegais. A conexão com o debate da proibição é uma leitura editorial nossa a partir do fato, não uma constatação do relatório. Mas a lógica é direta: numa eventual proibição das apostas em cassino online, os apostadores não deixam de querer apostar — deixam de ter acesso ao mercado regulado, fiscalizado e tributado no Brasil, e passam a ser candidatos naturais à absorção por operadores ilegais, entre eles os mesmos grupos chineses que este relatório mostra já operarem com sofisticação técnica e alcance internacional sobre o público brasileiro.
Se o governo não consegue impedir que sua própria página oficial seja usada para promover apostas ilegais, a pergunta que fica é: com que instrumento ele pretenderia impedir que apostadores migrem para essas mesmas redes, caso o mercado regulado seja fechado?


