O Pix mudou o pagamento. Agora, a tecnologia vai mudar o sistema financeiro

Opinião I 14.09.26

Por: Magno José

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O Pix mudou o pagamento. Agora, a tecnologia vai mudar o sistema financeiro
Leonardo Baptista*

O Pix mudou a relação dos brasileiros com o dinheiro. Desde que foi lançado, em novembro de 2020, deixou de ser apenas uma alternativa à TED e ao boleto e passou a funcionar como uma infraestrutura central do sistema financeiro. Em 2025, foram realizadas 30,1 bilhões de transações via Pix, alta de 20% em relação ao ano anterior, segundo dados da Febraban.

A dimensão desses números mostra que o Pix já não é uma novidade. Ele faz parte da rotina financeira do brasileiro. E, justamente por isso, acredito que a próxima discussão não deve ser sobre o que substituirá o Pix, mas sobre o que será construído a partir dele.

Nos próximos cinco anos, veremos uma transformação mais ampla do sistema financeiro, marcada pela convergência entre pagamentos instantâneos, compartilhamento de dados, inteligência artificial, ativos digitais e novas formas de crédito. O dinheiro continuará circulando, mas de maneira cada vez mais rápida, integrada e, em muitos casos, invisível para o consumidor.

À frente da Pay4Fun, instituição de pagamento brasileira, acompanho essa transformação especialmente de um mercado em que o Pix já ocupa uma posição central. Hoje, o Pix manda no mercado. Todas as transações no mercado de bets legais se baseiam nele. Isso mostra não apenas a força de adesão ao sistema, mas também como uma infraestrutura de pagamentos pode se tornar parte fundamental de diferentes setores da economia.

O próximo passo, portanto, é garantir que essa velocidade venha acompanhada de segurança, rastreabilidade e integração. A própria agenda do Banco Central aponta para uma evolução contínua do Pix, com recursos como o Pix por aproximação, o Pix Parcelado, o Pix em garantia e o aperfeiçoamento do Mecanismo Especial de Devolução, conhecido como MED 2.0.

O Pix Automático também deve ampliar o uso do sistema em pagamentos recorrentes, como mensalidades, assinaturas, seguros, contas de serviços e cobranças empresariais. A lógica é semelhante à do débito automático, mas com uma experiência mais simples e potencialmente acessível a um número maior de empresas e consumidores.

Vejo essa evolução como natural. O Pix foi criado para facilitar a movimentação de dinheiro e agora passa a sustentar novas experiências financeiras. Mas existe uma condição para que esse avanço seja positivo: uma transação rápida também precisa ser identificável, auditável e submetida a mecanismos eficientes de prevenção a fraudes.

Quanto mais rápido o dinheiro circula, mais sofisticados precisam ser os controles capazes de proteger essa circulação.

Isso não significa que uma tecnologia necessariamente substituirá outra. O crescimento do Pix não representa o fim dos cartões. O mais provável é uma convivência cada vez mais definida pela função de cada instrumento. O Pix tende a ganhar espaço em pagamentos à vista, transferências, cobranças recorrentes e operações de baixo custo, enquanto os cartões devem continuar relevantes no crédito parcelado, nos programas de fidelidade e em mecanismos de proteção ao consumidor.

Se o Pix trouxe velocidade para o dinheiro, o Open Finance pode trazer contexto. O sistema permite que o consumidor autorize o compartilhamento de seus dados financeiros entre instituições, facilitando a comparação de produtos, a portabilidade de crédito e o acesso a serviços personalizados. O Banco Central vem trabalhando na expansão do Open Finance para crédito, investimentos, portabilidade de salário e soluções voltadas a empresas.

Em abril de 2025, a instituição informava 52 milhões de clientes e 3,3 bilhões de consultas semanais no sistema. Números mais recentes divulgados pelo setor financeiro apontam mais de 126 milhões de usuários ou consentimentos. A comparação exige cautela, porque clientes, usuários e consentimentos são métricas diferentes, mas os números ajudam a mostrar a dimensão que esse ecossistema pode alcançar.

Na prática, o Open Finance pode reduzir a dependência do consumidor em relação ao banco onde mantém sua conta principal. Com autorização, uma fintech poderá analisar a movimentação financeira do cliente em diferentes instituições e oferecer crédito com base em um histórico mais completo.

Essa possibilidade, porém, não significa que os juros cairão automaticamente. Para que o benefício chegue ao consumidor, será necessário haver concorrência efetiva, transparência nos modelos de risco e facilidade para revogar autorizações. É justamente nessa combinação entre dados e decisão que a inteligência artificial ganha importância.

Bancos e fintechs já utilizam modelos para identificar transações suspeitas, analisar crédito, automatizar atendimento e personalizar ofertas. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 estima investimentos de R$ 50,4 bilhões em tecnologia no setor bancário ao longo do ano. Cibersegurança é prioridade para todas as instituições pesquisadas, enquanto cloud e inteligência artificial generativa aparecem entre as principais frentes de investimento.

Acredito que a IA será cada vez mais presente nos bastidores das operações financeiras. O consumidor talvez nem perceba quando um algoritmo estiver analisando seu comportamento para identificar uma fraude ou avaliar uma operação de crédito. Mas essa invisibilidade traz uma responsabilidade adicional.

Quanto mais automatizado for o sistema financeiro, maior será a necessidade de explicar por que uma transação foi bloqueada, uma conta foi submetida a análise ou um crédito foi recusado. Não podemos confundir eficiência com falta de transparência.

Outra fronteira dessa transformação está nos pagamentos internacionais. O Pix já pode ser utilizado em estabelecimentos de oito países por meio de soluções que fazem a conversão automática para reais. O Banco Central, contudo, ainda não considera isso um Pix internacional oficial.

Vejo espaço para que essa expansão reduza a dependência de cartões e facilite compras de brasileiros no exterior, especialmente na América do Sul. Mas ainda serão necessários acordos cambiais, interoperabilidade entre sistemas, padrões comuns de QR Code e regras de proteção contra fraudes.

Ao mesmo tempo, stablecoins e outros ativos digitais lastreados em moedas tradicionais começam a ocupar espaço nessa discussão. O Banco Central já incluiu a tokenização e os ativos virtuais entre os temas de sua agenda regulatória.

Não acredito que essas tecnologias devam ser analisadas isoladamente. O que está acontecendo é justamente o contrário: diferentes infraestruturas estão começando a se conectar.

Nos próximos cinco anos, isso deverá aparecer em situações cada vez mais comuns: pagamentos recorrentes autorizados uma única vez, compras por aproximação sem cartão físico, crédito baseado no histórico financeiro completo do cliente, sistemas antifraude que analisam comportamento em tempo real, ativos e recebíveis utilizados digitalmente como garantia, pagamentos internacionais com conversão automática e serviços financeiros integrados a aplicativos, marketplaces e plataformas de comércio.

Para as empresas, essa transformação pode significar redução no tempo de recebimento e nos custos operacionais. Ao mesmo tempo, aumentará a pressão por integração tecnológica, conformidade regulatória e capacidade de monitorar transações.

Para o consumidor, a experiência tende a ficar mais simples. Mas simplicidade não pode significar perda de controle. À medida que o dinheiro se torna mais rápido e invisível, será necessário prestar ainda mais atenção aos consentimentos, às cobranças automáticas, aos golpes e ao uso de dados pessoais.

O Brasil está construindo uma infraestrutura financeira com características próprias: pagamentos instantâneos de grande escala, compartilhamento regulado de dados, forte atuação do Banco Central e rápida adoção por consumidores e empresas.

O Pix foi o primeiro grande passo porque popularizou a transferência imediata e reduziu a fricção das transações. Mas, na minha visão, seu maior impacto ainda está por vir.

O próximo ciclo será mais abrangente. O dinheiro não apenas circulará mais rápido. Poderá ser programado, analisado por inteligência artificial, associado a ativos tokenizados e integrado a diferentes plataformas.

Por isso, não vejo o futuro como uma disputa entre Pix, cartões, Open Finance, inteligência artificial ou ativos digitais. A principal mudança será a integração de todas essas tecnologias em uma mesma jornada financeira.

A tecnologia precisa facilitar a vida do usuário, mas também fortalecer a integridade do sistema. O futuro dos pagamentos será definido pela combinação entre velocidade, conveniência, transparência e controle. O Pix foi o começo. Agora, entramos em uma etapa em que a verdadeira revolução será fazer todas essas tecnologias trabalharem juntas.


(*) Leonardo Baptista é CEO & Cofundador da Pay4Fun, instituição de pagamento que oferece soluções financeiras para o setor de entretenimento. O empresário tem mais de 15 anos de experiência na indústria de jogos e tecnologia da informação. Leonardo entrou para a lista dos dez CEOs mais inspiradores da CIO Business Review, que seleciona os executivos mais influentes do mundo dos negócios e também foi reconhecido pela SBC Awards Americas 2026 como líder do ano da América Latina.

 

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