Jockey Club negocia aporte de R$ 200 mi com BTG Pactual para modernizar hipódromo

O Jockey Club de São Paulo negocia um aporte de “pouco menos” de R$ 200 milhões com o BTG Pactual para modernizar o hipódromo. A parceria, confirmada pelo presidente do clube, Vicente Renato Paolillo, nesta terça-feira (8/9) durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal de São Paulo, prevê a criação de novas áreas de lazer e piscinas. Procurados pelo Estadão, o Jockey e o banco não se manifestaram.
O negócio ocorre em meio a uma crise financeira severa do hipódromo, que acumula dívida de R$ 905.349.836,85 com a Prefeitura de São Paulo, tornando-o o 14º maior devedor da capital. O valor inclui cerca de R$ 500 milhões em IPTU, R$ 300 milhões em ISS (Imposto Sobre Serviços) e o restante em outros tributos.
Em assembleia realizada em segunda-feira (19/8), 115 dos cerca de 300 sócios do Jockey aprovaram a parceria estratégica com o BTG, com apenas um voto contrário e outro em branco.
Dívida com a Prefeitura
Paolillo afirmou aos vereadores que o investimento do BTG “vai, inclusive, ajudar a resolver as pendências com a Prefeitura”. “Essa é uma das razões pelas quais buscamos a parceria com o BTG, que vai nos socorrer, vai nos colocar numa situação de equilíbrio”, declarou.
A Prefeitura informou haver “diversos processos de execução fiscal em andamento contra o Jockey para cobrar débitos relacionados aos imóveis vinculados à instituição”. O município afirma que “as cobranças estão sendo realizadas na esfera judicial”.
Há uma disputa judicial sobre o montante. O clube questiona a cobrança, alegando que deveria ser isento, e critica as bases dos lançamentos tributários feitos pela gestão municipal. “Os lançamentos que a Prefeitura faz desde sempre, a nosso ver, salvo o melhor juízo, não estão bem baseados”, afirmou Paolillo à CPI. “Também não se leva em conta a questão de lá ser uma zona de proteção ambiental e quase todo o hipódromo ser tombado, o que exigiria um tratamento diferenciado.”
Em março de 2025, o clube apresentou pedido de recuperação judicial em razão de dívida de R$ 19 milhões com prestadores de serviço e trabalhadores. Em setembro do ano passado, o pedido foi autorizado pela 1ª instância do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Em abril de 2026, porém, a 2ª instância do TJ acatou o argumento de um credor de que associações civis sem fins lucrativos não têm direito à recuperação judicial. A decisão ainda cabe recurso.
Na semana passada, Paolillo afirmou à CPI estar “muito esperançoso de que agora consigamos chegar a uma boa conclusão” com a Prefeitura sobre as dívidas.
Investigação sobre verbas públicas
A CPI da Câmara apura suspeitas de irregularidades no uso de recursos públicos pelo Jockey. Em outubro de 2025, a Controladoria-Geral do Município (CGM) de São Paulo instaurou uma auditoria para investigar o caso.
O Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura rejeitou a prestação de contas do clube referente ao uso de R$ 61,3 milhões obtidos por meio de incentivo municipal à preservação e restauração de bens tombados, apontando “despesas absolutamente impertinentes”. A investigação inclui a suspeita de uso do recurso em:
⇒ Ambulâncias para o público em eventos de corrida de cavalo (R$ 37,5 mil);
⇒ Aulas de origami (R$ 1.450);
⇒ Dez quilos de açúcar (R$ 2.394).
Pelas regras do programa, os valores deveriam ser destinados exclusivamente a manutenção, restauro, pintura e ações similares de conservação. O clube pode ser multado e obrigado a ressarcir integralmente o município pelos R$ 61 milhões recebidos.
Na época da abertura do processo, o Jockey negou irregularidades e sustentou que “os valores foram aplicados exclusivamente na preservação, conservação e manutenção das áreas tombadas”.
Paolillo, que assumiu a presidência do hipódromo em fevereiro deste ano, após a abertura da investigação, informou aos vereadores que o clube contratou uma auditoria externa para identificar “possíveis inconsistências” nos gastos. O parecer está em fase final de elaboração. Os gastos questionados ocorreram durante as gestões de Benjamin Steinbruch (2017 a 2024) e Marcelo Arthur Motta Ramos Marques (2024 a janeiro de 2026).
Disputa pelo terreno
Localizado desde 1941 no bairro Cidade Jardim, na zona sul de São Paulo, o Jockey ocupa uma área de 600 mil m² com quatro pistas, restaurantes e áreas verdes. Apesar da negociação com o BTG, um projeto aprovado na Câmara Municipal e sancionado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) prevê a desapropriação do terreno por causa das dívidas e sua transformação em parque municipal.
“Se não tiver um parque aberto para a população, não vou aceitar”, afirmou Nunes ao Estadão sobre a parceria entre o clube e o banco.
A emenda que transformou o terreno em parque durante a revisão do Plano Diretor, em 2023, foi apresentada pelo então presidente da Câmara, Milton Leite (União Brasil). Na ocasião, o vereador argumentou que a medida traria “maior utilização do equipamento por parte da população e maior integração com a cidade”. A presidência do Legislativo não quis se manifestar sobre o projeto em relação ao plano do parque.
A Prefeitura afirmou aguardar a “resolução das questões jurídicas envolvendo a área para que o local possa integrar o planejamento de implantação de parques”.
O presidente da CPI, vereador Gilberto Nascimento (PL), avaliou positivamente a parceria com o BTG. “Eles têm uma dívida muito grande com a cidade. Mas, com o interesse do BTG em fazer um investimento ali e remodelar todo o clube, começa a parecer que eles vão conseguir pagar a conta”, disse.
Paolillo confirmou aos vereadores que o ex-presidente Benjamin Steinbruch emprestou R$ 7 milhões ao clube durante a crise financeira. Até agora, o hipódromo ainda deve R$ 2 milhões ao antigo dirigente.

