Durigan diz que não há decisão tomada sobre bets

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (17) que o governo ainda não tomou nenhuma decisão sobre proibição ou restrição mais radical das bets no país, e que todo o debate sobre medidas para o setor tem passado pela discussão do custo de vida das famílias brasileiras.
“Então não tem nenhuma decisão tomada, quando tiver decisão tomada nós vamos anunciar, mas o que eu estou dizendo é que seguimos muito preocupados com o custo de vida e com preservar a renda das famílias brasileiras”, declarou o ministro, em entrevista reproduzida pela grande imprensa.
Durigan citou como referência o esforço do governo para conter a alta dos preços de combustíveis, colocando as bets na mesma chave de preocupação com a renda familiar.
“Enquanto ainda vemos R$ 62 bilhões saindo das famílias para as bets, gente não fica confortável e seguimos trabalhando para que diminuamos o impacto no comprometimento de renda das famílias”, completou o ministro, segundo o qual o governo trabalha para reduzir esse impacto no orçamento doméstico.
GGR equivocado
O valor de R$ 62 bilhões citado pelo ministro não corresponde ao GGR (Gross Gaming Revenue) do setor — ou seja, à receita que efetivamente fica com as casas de apostas depois de pagos os prêmios aos apostadores e que serve para o cálculo dos valores destinados aos beneficiários legais. Ele se aproxima, isso sim, de uma leitura que mistura ou superestima o volume de depósitos e o turnover apostado, categorias muito maiores e conceitualmente distintas do resultado líquido do setor.
Segundo balanços da própria Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) divulgados em janeiro de 2026 e dados obtidos com exclusividade pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação (LAI):
⇒ GGR de 2025 (ano fechado): R$ 36,9 bilhões — resultado de R$ 220,6 bilhões depositados pelos apostadores, dos quais R$ 183,7 bilhões retornaram em forma de prêmios e bônus sacáveis.
⇒ GGR do 1º semestre de 2026: R$ 20,07 bilhões, alta de 15,3% sobre o mesmo período de 2025. Nesses seis meses, o turnover total apostado somou R$ 410,85 bilhões, dos quais R$ 377,86 bilhões voltaram aos apostadores em prêmios — uma taxa de retorno ao apostador (RTP) de 92,2%.
Ou seja: em nenhum recorte oficial disponível — nem o ano fechado de 2025, nem o primeiro semestre de 2026 — o GGR do setor chega perto dos R$ 62 bilhões mencionados pelo ministro. Somando o GGR de 2025 com o do primeiro semestre de 2026, o total ainda fica em torno de R$ 57 bilhões, e mesmo essa soma mistura dois períodos diferentes, o que tecnicamente não é uma comparação válida.
Um problema recorrente: a confusão conceitual
Este não é um erro isolado. O BNLData já apontou anteriormente casos semelhantes de confusão entre GGR e outros indicadores do setor, incluindo:
⇒ Um relatório do Bradesco BBI, repercutido pela imprensa, que superestimou em cerca de 2,5 vezes o GGR das bets no Brasil.
⇒ Uma comparação equivocada entre R$ 37 bilhões em “perdas de apostas” (na verdade, GGR) e R$ 31 bilhões de isenção de Imposto de Renda, que tratava como equivalentes dois universos econômicos de tamanhos e composições distintas.
Nota do editor
O ministro da Fazenda deveria consultar a própria Secretaria de Prêmios e Apostas do seu ministério sobre os valores reais movimentados pelo setor regulado antes de citar números em entrevistas de grande repercussão. Este tem sido um dos principais problemas do debate público sobre apostas no Brasil: a falta de transparência — e, neste caso, de precisão conceitual mesmo dentro do próprio governo — na divulgação dos dados de arrecadação do setor, o que abre espaço para que estimativas equivocadas contaminem e distorçam a discussão sobre políticas públicas para a área.

