MP contra bets é de ala política do Planalto, afasta técnicos e tem verniz eleitoral

Apostas I 18.09.26

Por: Magno José

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O ministro que está por trás da ofensiva de Lula contra as bets
Tratativas sobre ‘medidas drásticas’ contra empresas de apostas são lideradas por Sidônio Palmeira, na Secom, sem participação ativa de integrantes do setor que regulamenta e fiscaliza empresas de apostas (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil) 

O governo Lula articula uma Medida Provisória (MP) para proibir cassinos online e inviabilizar as bets no Brasil. O plano é conduzido pelo núcleo político do Planalto e prevê o envio da MP ao Congresso às vésperas do primeiro turno das eleições de 2026.

A movimentação, apurada pelo Estadão, é liderada pelo ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República. As principais reuniões com representantes das bets têm ocorrido na pasta. O Palácio do Planalto não se manifestou sobre o assunto.

Além da Secom, o tema mobilizou a Casa Civil, de Miriam Belchior, a Secretaria de Relações Institucionais, de José Guimarães, e a Secretaria-Geral da Presidência, chefiada por Guilherme Boulos. O Advogado-Geral da União, Jorge Messias, participou das conversas em uma fase anterior, quando o governo ainda avaliava mover uma ação direta de inconstitucionalidade para limitar as bets. Essa alternativa perdeu força.

Bastidores do plano

Testemunhas das reuniões relatam que o objetivo de uma medida drástica próxima ao pleito é transmitir a mensagem de que Lula não mede esforços para proteger as finanças das famílias, mesmo que isso signifique enfrentar um setor bilionário com forte presença nas TVs e no esporte. Nos cálculos dos governistas, a iniciativa teria efeito eleitoral positivo, sobretudo junto ao eleitorado evangélico, segmento em que Lula enfrenta dificuldades para superar o senador Flávio Bolsonaro (PL).

O grupo político não tem consultado técnicos da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, órgão criado pelo governo para regular e fiscalizar as empresas do setor. Esses técnicos avaliam, sob reserva, que a regulação brasileira é adequada e necessita apenas de fortalecimento. Eles alertam ainda que uma proibição sumária pode empurrar milhões de apostadores para plataformas ilegais, que operam fora da legislação brasileira.

O presidente Lula se posicionou contra qualquer distinção entre as plataformas. “Esse negócio de ter bet boa e bet ruim… não! Todas as bets vivem de jogo”, disse em participação no podcast Desce a Letra, nesta quarta-feira (16/9), recebido no Palácio da Alvorada. Na reunião de 1º de setembro, transmitida pelos canais oficiais do governo, Lula já havia falado na necessidade de “tomar uma decisão mais drástica”. A SPA não participou daquele encontro; a Fazenda foi representada pelo secretário-executivo, Rogério Ceron.

Impacto fiscal e no futebol

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defende o endurecimento das restrições, mas faz ressalvas à proibição generalizada. A preocupação tem base fiscal: em 2025, as bets geraram cerca de R$ 10 bilhões em impostos diretos, calculados sobre a receita bruta. O setor estima que uma restrição nos moldes discutidos faria o governo deixar de arrecadar R$ 12 bilhões em 2026, além de gerar impactos em outros segmentos, como a publicidade.

A MP em discussão miraria especificamente os cassinos online, como os jogos do tigrinho e do aviãozinho, que respondem por 60% a 90% das receitas da maioria das bets, segundo estimativas do próprio mercado. As apostas esportivas, incluindo palpites em resultados de partidas de futebol, ficariam fora do escopo da proibição.

Ainda assim, a perspectiva de restrição já mobilizou o setor futebolístico. Lobistas das bets pressionaram a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), clubes, rádios e TVs. Na quinta-feira (17/9), federações e times publicaram um manifesto classificando a confirmação dos rumores como “golpe fatal no futebol brasileiro”. Uma das medidas estudadas para reduzir o impacto nos clubes é um programa nos moldes de um “Refis”, voltado ao perdão de dívidas com o setor.

 

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