O número mágico das bets: como um cálculo indireto do Pix virou “perda de 1,1% do PIB” em manchete nacional

Uma reportagem publicada pela Agência Brasil e replicada por dezenas de veículos — entre eles o Money Times — afirmou que as bets “podem ter custado” ao Brasil até 1,1% do PIB em 2025, com perda de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões na atividade econômica. A informação tem origem em uma nota do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA/USP, assinada pelo economista Guilherme Klein — o mesmo autor de estimativas sobre o setor de apostas já contestadas anteriormente por esta redação.
O BNLData foi à fonte primária da nota — publicada no site do Made em 24 de agosto de 2026 — e ao estudo que serve de base para o número central usado em toda a conta: um boletim do Centro Internacional Celso Furtado (CICEF), em parceria com o Comsefaz. O que se encontra ali é uma cadeia de estimativas, hipóteses e proxies emprestados que a cobertura jornalística converteu em fato consumado.
O que a reportagem disse
Segundo a matéria, um “estudo” da USP concluiu que as apostas esportivas retiraram entre R$ 120 bi e R$ 141 bi da economia brasileira em 2025, provocaram perda de arrecadação de até R$ 54,8 bi, responderiam por até 14% do aumento do endividamento das famílias e ampliaram a concentração de renda no 1% mais rico em até 2,1%.
O que a checagem do BNLData encontrou:
A cifra-base não é da USP — e não é sobre bets especificamente
Todo o exercício do Made parte de um número que não foi produzido por ele: os “R$ 62,5 bilhões de transferência líquida das famílias para as bets em 2025”, atribuídos ao Centro Celso Furtado. A própria nota do Made admite a origem:
“Em um estudo recente, o Centro Celso Furtado estimou que, em 2025, houve uma transferência líquida das famílias para as plataformas de apostas […] de cerca de R$ 62,5 bilhões.” — Nota do Made/FEA-USP, 24/08/2026
No boletim original do CICEF, esse valor não vem de dados de transações das próprias casas de apostas, mas de um modelo ARIMA contrafactual aplicado ao volume de transferências via Pix de pessoa física para pessoa jurídica em um setor inteiro do CNAE: “Artes, cultura, esporte e recreação” (Seção R) — que abrange não só apostas, mas também museus, bibliotecas, artes cênicas, clubes esportivos, academias e parques de recreação. O método projeta a tendência anterior a agosto de 2024 e atribui integralmente à entrada das bets qualquer desvio da série observada a partir da regulamentação, em janeiro de 2025.
O próprio CICEF é explícito sobre o alcance dessa conta:
“O contrafactual apresentado parte da premissa de que, na ausência das bets, a série teria seguido a tendência histórica capturada pelo modelo ARIMA. Trata-se de uma estimativa de ordem de grandeza do impacto, e não de uma mensuração causal precisa.” — Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, 3ª ed. update, CICEF/Comsefaz
Essa ressalva — central para entender o que o número realmente representa — não aparece na nota do Made nem em nenhuma das reportagens que repercutiram o estudo.
Um multiplicador emprestado de um estudo sobre outro tema
Para transformar a “perda” de R$ 62,5 bi em impacto sobre o PIB, o Made aplica propensões marginais a consumir por faixa de renda estimadas na sua própria Nota de Política Econômica nº 8 — um estudo sobre os efeitos multiplicadores de tributar os mais ricos para transferir renda aos mais pobres. Não há, na nota sobre bets, nenhuma estimativa de multiplicador testada especificamente para o setor de apostas; o parâmetro é importado por analogia, presumindo que o dinheiro apostado se comporta, para fins de efeito agregado, como uma simples subtração de renda das famílias — sem contrapartida em salários, impostos sobre lucro (IRPJ/CSLL), publicidade ou patrocínios gerados pelas próprias operadoras.

A distribuição por renda mistura “quem aposta” com “quanto se perde”
Os dois cenários de distribuição da perda entre faixas de renda partem de pesquisas sobre participação de apostadores (DataSenado 2024 e IPESPE/FEBRABAN 2024) — não sobre o volume efetivamente perdido por faixa. No cenário B, que concentra a maior parte da perda nas famílias de renda mais alta, o Made recorre a uma proxy da POF do IBGE de 2017-2018 para a categoria genérica “jogos e apostas” — pesquisa anterior em quase uma década à explosão das bets online no Brasil. O próprio texto reconhece a fragilidade: “por ilustrar uma amostra referente ao biênio 2017-2018, o tamanho dessa categoria pode estar subestimado”.
Cenários apresentados como alternativos viraram cumulativos na cobertura
A própria nota trata a hipótese de queda no consumo e a hipótese de aumento do endividamento como possibilidades alternativas — o texto chama a segunda de “outra possibilidade” e usa a expressão “hipótese extrema” para o cenário em que toda a transferência líquida seria financiada por novo crédito. A cobertura jornalística, no entanto, enfileira queda de PIB, perda de arrecadação, aumento de endividamento e concentração de renda como se fossem quatro efeitos simultâneos e cumulativos de um único fenômeno.
A comparação com o “tarifaço” é retórica, não metodológica
A nota afirma que o impacto das bets seria “cerca de cinco vezes maior” que o do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro. Trata-se de comparar uma estimativa indireta de efeito-consumo, construída sobre múltiplas camadas de hipóteses, com a estimativa de impacto de um choque tarifário de natureza completamente distinta — comparação que rende manchete, mas não equivale a medir grandezas do mesmo tipo.
Nenhum contraponto do setor regulado
Nem a nota do Made nem a reportagem da Agência Brasil ouviram operadoras, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF) ou entidades do setor regulado. O texto da Agência Brasil reproduz a nota do Made de forma quase integral, incluindo os mesmos exemplos e a mesma ordem de argumentação.
Por que isso importa
Não se trata de negar que a expansão das bets tenha efeitos sobre consumo, endividamento e distribuição de renda das famílias brasileiras — esses são debates legítimos. O problema é a forma como uma cadeia de estimativas com múltiplas camadas de incerteza (um modelo estatístico aplicado a um setor inteiro do CNAE → um multiplicador emprestado de outro tema → cenários de distribuição baseados em proxies desatualizadas) foi apresentada, por uma nota acadêmica e pela imprensa que a replicou, como um resultado consolidado e preciso: “as bets custaram 1,1% do PIB ao Brasil”. O próprio centro de pesquisa que originou o número-base já havia avisado que se tratava de uma “ordem de grandeza”, não de uma medição causal.


