Haddad defende proibir bets em SP, mas ‘Estadão Verifica’ aponta “falta contexto”

O Estadão Verifica checou duas afirmações de Fernando Haddad (PT) sobre bets durante entrevista ao Estadão, nesta sexta-feira (18/9). Em ambos os casos, o núcleo de checagem de fatos do jornal concluiu que as declarações do candidato ao governo de São Paulo carecem de contexto.
O foco das verificações recai sobre as apostas online, tema que Haddad prometeu enfrentar caso eleito governador. O candidato afirmou que proibiria as bets no estado e defendeu o fim das casas de apostas por conta do impacto econômico que atribui a elas. As duas declarações foram checadas e classificadas como “falta contexto” pelo Estadão Verifica.
Loteria estadual e regulamentação federal
Na primeira checagem, Haddad disse que o governador Tarcísio de Freitas autorizou apostas do tipo bet em São Paulo e que, se eleito, proibiria a atividade. O Estadão Verifica confirmou que, em 2022, o governo paulista concedeu à iniciativa privada a nova Loteria Paulista. O Consórcio SP Loterias pagou R$ 526 milhões pelo contrato de 15 anos. Para esse período, o governo estadual estima arrecadar mais de R$ 3,4 bilhões. Desde 1º de julho deste ano, a Loteria Estadual de São Paulo opera em site com endereço “.bet”, com jogos online de loteria instantânea.
O que falta no discurso de Haddad, aponta a checagem, é que ele próprio atuou para regulamentar as bets quando ocupava o Ministério da Fazenda. Em 2023, a pasta publicou portaria que exige credenciamento junto ao governo federal e sede no Brasil para que empresas de apostas possam operar no país. As bets não foram proibidas; receberam critérios para funcionar.
Impacto no PIB
Na segunda checagem, Haddad afirmou que as bets impactam entre 0,5% e 1% do Produto Interno Bruto (PIB) e que esse seria o principal argumento para defender o fim das casas de apostas. O Estadão Verifica apontou que não existe medição oficial consolidada, com metodologia contínua, sobre esse efeito.
As referências disponíveis são estimativas de fontes distintas e com intervalos variados. Em agosto, um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), estimou que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do PIB [Estudo que ganhou o Selo Narrativa BNLData]. O banco Santander calculou, com dados de 2024, que as bets têm potencial para reduzir de 0,2% a 0,3% do PIB.
A faixa citada por Haddad coincide parcialmente com a estimativa do Made, mas o candidato não indicou a fonte do dado. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2024/2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), deverá incluir informações sobre apostas quando publicada; até a data da entrevista, o levantamento ainda não havia sido divulgado.


