Selo Narrativa: Secom-PR põe na conta das bets regulares a perda do mercado ilegal e esconde que o governo era sócio

Apostas I 27.10.26

Por: Magno José

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FactCheck BNLData: carrossel da Secom põe na conta das bets regulares a perda do mercado ilegal e esconde que o governo era sócio
Dados oficiais da Secretaria de Prêmios e Apostas mostram que o gasto real dos apostadores em 2025 foi de R$ 36,9 bilhões, e não R$ 62 bilhões. De cada real que as bets retiveram, 27 centavos foram para o governo

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) publicou no Instagram um carrossel para justificar a proibição das bets. O BNLData checou cada card usando um único critério: o dado oficial do mercado regulado, produzido pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF). Tudo que não sai dessa base é estimativa, pesquisa de opinião ou retórica.

“Bet nunca foi renda extra”
Veredito: CONCORDAMOS
Bet não é renda extra. Bet é entretenimento. As regras de publicidade da regulamentação, revogada pela MP, já proibiam apresentar a aposta como fonte de renda. O governo agora vende como descoberta o que o mercado regulado era obrigado a cumprir.

“O dinheiro das apostas deixava de ir para outra coisa”
Veredito: VERDADEIRO, MAS VALE PARA QUALQUER LAZER
Todo gasto com entretenimento ocupa o lugar de outro consumo. O dinheiro do cinema, do show, do parque ou do jantar fora também “deixa de ir” para o supermercado. Isso é escolha de consumo, não desvio de renda.

“As bets não enriquecem ninguém”
Veredito: CONCORDAMOS
Bets não foram feitas para enriquecer o apostador. Foram feitas para divertir, como qualquer atividade de lazer pela qual se paga.

“As famílias brasileiras perderam R$ 62 bilhões em apostas em 2025”
Veredito: FALSO
O número oficial é outro. Segundo balanço da SPA-MF, o GGR do mercado regulado em 2025 foi de R$ 36,9 bilhões. O GGR é a diferença entre o que foi apostado e o que voltou em prêmios, ou seja, o gasto efetivo do apostador. Dividido entre os 25,2 milhões de brasileiros que apostaram nas 79 empresas autorizadas, dá cerca de R$ 122 por mês por apostador. É o valor de uma ida ao cinema com pipoca.

Os R$ 62 bilhões vêm de outra fonte e de outro método. Os dados são do Boletim Fiscal dos Estados, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), e foram calculados a partir das estatísticas de pagamentos do Banco Central, ou seja, transferências via Pix. Esse fluxo não distingue bet autorizada de site clandestino. A diferença de R$ 25,6 bilhões em relação ao dado oficial equivale a cerca de 41% do total do Comsefaz, percentual que coincide com o piso das estimativas do mercado ilegal.

Na prática, a Secom atribuiu ao mercado regulado a perda do mercado ilegal que o próprio governo não conseguiu combater.

“Quando você apostava, você perdia. As bets sempre ganhavam”
Veredito: FALSO
Se o apostador só perdesse, não voltaria a apostar. Os dados da própria Fazenda desmontam o card. Em 2025, as empresas receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos e devolveram R$ 183,7 bilhões aos apostadores em prêmios e bônus sacáveis. Isso significa que 83% de tudo que foi depositado voltou ao bolso de quem apostou. O apostador ganha com frequência, e é exatamente isso que sustenta o entretenimento.

“69% de quem apostava teve mais perdas que ganhos; 40% fez novas dívidas por causa das bets”
Veredito: SEM FONTE OFICIAL
O card não informa a origem dos números. Eles não vêm da SPA-MF, que é o órgão que tem os dados reais do mercado. Os percentuais coincidem com a pesquisa do Procon-SP, uma pesquisa de opinião estadual. Nela, 68,73% relataram ter acumulado mais perdas do que ganhos. Os 39,7% dizem ter se endividado depois de passar a usar as plataformas, em levantamento com 2.724 consumidores feito entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.

Há três problemas nessa base:

⇒ É autodeclaração. Ninguém mediu as perdas; os entrevistados disseram o que sentiam.

⇒ A amostra pode ser autosselecionada. Na primeira edição, o questionário foi publicado no site e nas redes sociais do Procon-SP. Quem responde a esse tipo de chamada é, em geral, quem tem queixa a fazer.

⇒ O texto muda o sentido. “Se endividou depois de começar a apostar” não é o mesmo que “fez dívidas por causa das bets”. A Secom transformou correlação em causa.

Além disso, a Secom não informa se a amostra separa apostadores de plataformas autorizadas e de sites ilegais. Se a Fazenda tivesse um dado oficial, a Secom teria usado.

“R$ 143 bilhões deixaram de chegar ao comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026”
Veredito: INSUSTENTÁVEL
O número é da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O estudo usa a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) e aplica um modelo estatístico de diferenças em diferenças. Ou seja, é estimativa por modelo, não dado medido.

O período escolhido também compromete o resultado. As bets foram legalizadas pela Lei 13.756 em 2018, mas passaram seis anos sem regulamentação. O mercado regulado só começou em 1º de janeiro de 2025, e só a partir daí o Estado passou a medir com precisão o que foi apostado. Dos 39 meses da conta da CNC, 24 são anteriores à regulamentação, um período em que não existe dado oficial algum.

O BNLData já mostrou outras inconsistências. Os R$ 143 bilhões em 39 meses equivalem a R$ 3,7 bilhões por mês, mais do que todo o GGR do mercado regulado. E no mesmo 2024 em que a CNC aponta perda de R$ 103 bilhões, o varejo cresceu 4,7%, segundo o IBGE.

“O dinheiro que as bets roubavam de você equivale às vendas de dois natais do comércio”
Veredito: FALSO E OMISSO
A comparação não é da Secom. É da CNC, que equiparou os R$ 143 bilhões às vendas dos Natais de 2024 e 2025. A frase herda, portanto, todos os problemas da conta acima.

O mais grave é o que o card não diz. O governo tratava as bets como “ladrões”, mas ficava com parte do que elas retinham. O governo Lula arrecadou R$ 9,95 bilhões das bets em 2025. Isso equivale a 27% de todo o GGR. Desse valor, a contribuição de 12% sobre o GGR, cerca de R$ 4,4 bilhões, ia para os beneficiários legais: esporte, turismo, segurança pública, educação, seguridade social e saúde. O restante eram tributos federais como IRPJ, CSLL, PIS e Cofins.

Se as bets “roubavam”, o governo era sócio do “roubo”. De cada real retido pelas empresas, 27 centavos iam para os cofres públicos.

“Essa conta não ficava só com quem apostava. Ela chegava em casa, no comércio e na economia do país”
Veredito: ENGANOSO
A conta chegava, sim, à economia, mas pelo lado que a Secom omite. Chegava ao esporte, à segurança pública, à saúde e à educação, por meio dos repasses da Lei 14.790. Chegava também aos clubes de futebol, às emissoras e aos milhares de trabalhadores do setor. Com a proibição, esses recursos deixam de existir, e o apostador migra para sites ilegais que não pagam imposto nem protegem ninguém.

Conclusão
Dos nove cards, a Secom acerta três, justamente os que repetem o que o mercado regulado sempre disse: bet é entretenimento, não renda nem investimento. Todos os números usados para justificar a proibição vêm de estimativas, modelos estatísticos e pesquisas de opinião. Nenhum vem da Secretaria de Prêmios e Apostas, o órgão do próprio governo que detém os dados oficiais. Quando a Secom precisou de números, não perguntou à Fazenda.


Selo Narrativa BNLData

Quando os números servem ao discurso, e não aos fatos. Alegações sem base metodológica e estudos sem comprovação usados contra o setor de apostas recebem o Selo Narrativa do BNLData.


 

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